Coleo TELENOVELAS FAMOSAS

A DEUSA VENCIDA

Original de IVANI RIBEIRO Adaptao de SAVERIO JR.

ELENCO DE "A DEUSA VENCIDA"

Glria Menezes Ceclia Maciel

Edson Frana Fernando Albuquerque

Maria Aparecida Alves Sofia

Tarcsio Meira Edmundo Amarante

Regina Duarte Maria Luiza - "Mal"

Altair Lima Lineu Maciel

Karin Rodrigues Hortnsia

Iv Mesquita Jorge Amarante

Ruth de Souza Narcisa

Augusto Machado de Campos Nicolas Barreto

Raquel Martins Vina

Hugo Santana Larcio

Lourdinha Felix Candinha

Ayres Pinto Tico

Arton da Silva Zuza

Slvio Piratininga Jacinto

Antnio Fonseca Violonista

Ivani Ribeiro Autora

Walter Avancini Diretor

Original de IVANI RIBEIRO Adaptao de SAVERIO JR.

Fotos de
TAKASHI KUMBDA
e VIZZONI

Capa e ilustraes de
JAYME CORTEZ

Direitos Reservados para as

EDIES "O LIVREIRO" LTDA.

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Com esta publicao, Edies "O LIVREIRO" Ltda. d incio a uma coleo que visa recolher as grandes novelas apresentadas na televiso brasileira.

l"A DEUSA VENCIDA", a produo mais bem cuidada do gnero das novelas, apresenta duas razes fortes para figurar em primeiro lugar nesta coleo:

- o sucesso extraordinrio de audincia conseguido em todas as praas onde foi apresentada;

- o fato de ser um original de Ivani Ribeiro, nome dos mais capazes e consagrados do rdio e televiso.

O esforo dispendido no sentido de se apresentar ao pblico telespectador um grande espetculo levou os responsveis pela produo de "A DEUSA VENCIDA" a montarem
nos estdios da Companhia Cinematogrfica Vera Cruz uma rua inteira de So Paulo de fins do sculo passado, com praas, igrejas e jardins, alm da construo de
cenrios ricos e fiis ao estilo da poca. O mesmo sentido  dado  presente edio: oferecer aos leitores uma publicao  altura do carinho de que foi alvo a telenovela
"A DEUSA VENCIDA".

Lineu Maciel mal podia acreditar no que via: nas mos trmulas do parceiro de poker, quatro ases - no havia dvida - quatro ases. Lentamente correu os olhos ao
redor e, de repente, sentiu-se s, isolado, abandonado. Todos o olhavam fixamente, friamente. Lineu Maciel percebeu que ningum queria perder um instante sequer
do espetculo o homem mais abastado da cidade de So Paulo acabava de perder no jogo at o ltimo tosto. Numa frao de segundo, Maciel compreendeu a desgraa
que ele prprio provocara. Sentiu que a mo alva que o acariciara at ento, que lhe alisara os cabelos, que ele beijava entre uma jogada e outra, tornava-se leve,
escorregava pelo ombro e j no se fazia mais sentir. Maciel no precisou olhar para se certificar de que tambm ela o abandonava. Fez um esforo para se controlar.
Um Maciel no podia demonstrar fraqueza, pensou. Levantou-se.

- Preciso de umas semanas.

Na voz de Maciel aquelas palavras soaram como pedido de condescendncia e como explicao. O parceiro entendeu e fez que sim - Maciel teria que vender tudo para
pagar a dvida que acabara de contrair - o que exigia um certo prazo. Maciel sempre pagara as dvidas.

No se despediu de ningum e nem olhou para a companheira daquela noite. Simplesmente apanhou o chapu, dirigiu-se para a porta, ganhou o corredor, desceu as escadarias, 
atravessou o saguo do hotel e entrou na carruagem. O porteiro bateu a porta
e fez sinal ao cocheiro, que cochilava. Mesmo sem ver o passageiro, o cocheiro entendeu. Estalou no ar o chicote e os cavalos arrancaram.

Maciel fechou as cortinas da carruagem para evitar o claro intermitente dos lampies de gs. Eram cinco horas da manh. Pediu ao cocheiro que andasse pela cidade.
O cocheiro tomou a direo da S. Chovera  noite. O ar frio entrava pelas frestas das portas e janelas da carruagem. A cidade comeava a acordar. Os bondes, puxados
por cavalos, j trafegavam. Carrocinhas de padeiros espalhavam pelas ruas o cheiro bom do po fresco. Quase ao mesmo tempo se fizeram ouvir vrios sinos. Pelo ritmo
das badaladas e pelo timbre se podia distinguir os sinos da Igreja da S dos da Igreja da Misericrdia. Do outro lado vinha o badalar dos sinos da Igreja de Santa
Eugnia e, mais fraco, vindo de mais longe, o da Igreja do Seminrio, na Luz.

Alheio ao que se passava, Maciel recordava os ltimos tempos, os mais agitados de toda a sua vida de 48 anos.



Os ltimos meses foram os mais duros. Na semana anterior Barreto, o procurador da famlia Maciel, retirara todos os depsitos, j minguados, dos bancos. Todos os
devedores da famlia Maciel tinham sido procurados e instados a liquidar

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suas dvidas. Um ano antes a chcara do Brs passara para as mos de Jorge Amarante, por um preo muito inferior ao seu valor real. A grande fazenda de centenas
de alqueires da tradicional famlia Maciel, em apenas dois anos, loteada para satisfazer exigncias de credores, fora reduzida a nada. Antes deste perodo, as recordaes
eram gratas e cheias de nuances. Maciel, um dos homens mais conceituados da cidade, agraciado com o ttulo de Baro pelo Imperador, com apenas trinta anos de idade,
era a personalidade mais brilhante e requisitada da sociedade paulistana. Os negcios eram prsperos e a fortuna da famlia, agora nas mos de Maciel, aumentava
a olhos vistos. Prevendo o crescimento rpido da cidade e seu desenvolvimento industrial, impulsionado pela instalao da usina eltrica da Light, Maciel comprou
vrias glebas nos arrabaldes. Em pouco tempo as terras triplicaram de valor devido a implantao de vrias fbricas. Surgiu a necessidade da construo de casas
e da criao de novos bairros. A populao aumentava espantosamente. Aplicando seu dinheiro em aes e na construo de casas populares, Maciel via sua renda aumentar
dia a dia. Tornou-se figura comentada e querida da classe operria quando se ops firmemente  realizao de um projeto de edificao de um bairro para trabalhadores.
Analisando as plantas das casas, Maciel descobriu que no ofereciam um mnimo de conforto e de higiene que a dignidade humana exigia e denunciou publicamente o plano,
ganhando com sua atitude milhares de amigos pobres e alguns 



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inimigos ricos. Dez anos aps, as inimizades j se tinham diludo, restando de concreto daguele episdio unicamente a animosidade que Jorge Amarante demonstrava 
contra
Maciel, sempre que tinha oportunidade. A ltima vez fora quando a chcara passara para as mos de Amarante. Barreto notara a impacincia, o nervosismo, o brilho
no olhar de Amarante. A transao correspondia a um revide ao golpe sofrido dez anos antes. E nada indicava que Jorge Amarante j estivesse" satisfeito.

Comeava a clarear. Um a um os lampies das ruas iam sendo apagados. Maciel pediu ao cocheiro que o levasse para casa.

A carruagem cruzava com os bondes apinhados de operrios e caixeiros que iam abrir as lojas, mulheres que saam das igrejas, leiteiros, verdureiros e vendedores.
Atravessaram o Viaduta do Ch e as rodas da carruagem produziam no madeirame do Viaduto um ronco contnuo, ritmado pelo trote dos cavalos. Tomaram a direo dos
Campos Elsios, para onde seguiram pela rua Rio Branco. A residncia de Maciel era a ltima casa, aps os Campos Elsios. Situada em meio a uma vasta rea ajardinada,
dava entrada pela prpria rua Rio Branco. Sendo uma das construes mais imponentes da cidade, no havia quem no a conhecesse.

A carruagem transps o porto e se aproximou da entrada principal da casa. Ao descer, Maciel se sentiu momentaneamente ofuscado pela claridade. Aturdido ainda, no
pagou o 

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cocheiro que fez meno de lembr-lo e se conteve a tempo - receberia outra hora. Subiu os poucos degraus  sua frente e viu a porta abrir-se e aparecer Barreto.
No o cumprimentou. Percebeu censura no olhar do procurador. Atravessou o salo e comeou a subir as escadas.

- Senhor Maciel, tentou Barreto.

- Agora no.

- Mas  importante...

- J disse: agora no!

- Mas eu preciso de uma deciso j! Como resposta, Barreto ouviu o rudo de uma

porta que se fechava violentamente.

O bater da porta acabou de despertar Ceclia.

O dia deve estar lindo, deduzil ela ao perceber a claridade que invadia o quarto atravs
das venezianas e cortinas. E, num instante, recordou os planos para o dia
que se iniciava: as nove horas, "caa  raposa", em companhia de Edmundo Amarante.

Tocou a campainha e aguardou a entrada de Narcisa. Havia anos que era a mesma coisa: era s tocar a campainha e Narcisa corria pressurosa, pronta a satisfazer a
vontade da sinhzinha. Nascida escrava, aps a libertao, Narcisa perdera os pais ainda menina e fora recolhida e criada na casa de Lineu Maciel, tornando-se ama-sca
de Ceclia, a quem se afeioara.

Narcisa entrou, dando incio ao ritual de todos os dias:

- Bom dia, sinhzinha. Mec dormiu bem?

E continuou:

- O dia hoje est uma lindeza.

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Se o dia estivesse feio, seria "uma tristeza". Abriu as cortinas e as venezianas e uma aragem fresca, primaveril, invadiu o quarto.

- Narcisa, quero tomar o caf na cama.

- J, j, sinhzinha, no demoro. Narcisa foi  cozinha buscar a bandeja e em

poucos minutos estava de volta, com um bule de caf fumegante, em meio a pes frescos, biscoitos, leite e gelia de frutas.

Terminada a refeio, Ceclia vai se aprontar para a "caa  raposa".

- Narcisa, mande preparar os cavalos. Vou sair s nove horas. Edmundo deve chegar s oito e meia. Hoje temos "caa  raposa".

Narcisa reagiu rpido:

- A mocidade de hoje tem cada coisa! "Caa  raposa"! Onde j se viu! Mec precisa tomar cuidado pr no cair do cavalo!

- Narcisa...

Ceclia sabe que se no a interromper, Narcisa vai continuar imaginando coisas e no pra de falar, fazendo conjecturas e previses, terminando com a concluso j
surrada: o mais seguro  mandar "fechar o corpo" pr no acontecer nada de ruim e evitar o mal feito das pessoas invejosas.

- Para mim, o Tufo, com o arreio novo; para Edmundo, o Estrela Branca. Edmundo gostou muito de mont-lo da ltima vez.

Narcisa saiu. Ceclia vai at  janela, respira fundo e comea a se vestir.

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O torreo  o refgio de Ceclia. Localizado a poucos metros do porto de entrada, dando diretamente para a rua,  ao mesmo tempo sala de msica, de jogos, de leitura
e o lugar preferido tambm para receber as amigas; os pais se dirigiam para a casa e as moas se reuniam no torreo onde conversavam, tocavam, cantavam e, sobretudo,
discutiam seus flertes, os olhares cruzados  sada da igreja, os bailes passados e futuros, os bons partidos da cidade, os noivados, os casamentos. Aprontando-se,
Ceclia vai para o torreo. Desce as escadas e encontra Barreto caminhando nervosamente pelo salo.

- Senhor Barreto, papai...

- Chegou h pouco, subiu e nem me respondeu, cortou Barreto, azedo. E tenho todas estas contas para pagar - mostrou vrios papis cheios de nmeros - e nem sei
o que fazer nem o que dizer aos credores. As coisas vo mal... vo mal. E pelo visto - referindo-se ao humor de Maciel - no teremos boas novas. Ceclia...

- Negcios, senhor Barreto,  com papai, cortou Ceclia jovialmente. No momento, o que mais me interessa  a "caa  raposa" - e, achegando-se a Barreto, quase
confidencial - e... em companhia de Edmundo!

Ceclia saiu e Barreto abanou a cabea, pensando: mais problemas... teremos muito mais



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problemas!... Ou, talvez... quem sabe? Amarante... Edmundo Amarante!

Tocar piano era um hbito matinal na vida de Ceclia. Toda moa tinha que saber piano e Ceclia tivera desde os dez anos aulas com os melhores professores de So
Paulo. Sentou-se e dedilhou toda a sua alegria numa esfuziante valsa de Chopin. S parou quando ouviu um forte tropel de cavalos na rua: eram os companheiros da
"caa  raposa" - alegres e buliosos os rapazes, joviais e mais recatadas as moas. Ceclia chegou junto da vidraa e todos acenaram para ela. Mas ela s viu Edmundo
Amarante, que lhe fez um aceno com o chapu. Acenou-lhe que esperassem um pouco. Um empregado trouxe-lhe os cavalos, arreiados como ela pedira. Montada em Tufo,
seu cavalo favorito, encontrou-se com Edmundo no porto.

- Bom dia, Ceclia, voc est mais linda que nunca!

- Bom dia... obrigada. Onde est Malu?

No veio?

- Malu est cada dia mais dorminhoca! Tinha sono...

- Pena! Tenho a impresso de que vamos nos divertir muito! Gostaria tanto que ela tivesse vindo. Mandei arreiar o Estrela Branca para voc. Voc gostou tanto
dele. ..

- Obrigado, voc teve uma grande idia!  um cavalo excepcional! gil e inteligente. D muito mais prazer cavalgar um animal assim!

Edmundo trocou de montaria e juntou-se, com Ceclia, ao alegre grupo de moas e rapazes. A



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brincadeira j estava planejada. Edmundo tomou a iniciativa:

- Amigos, ao Parque da Aclimao!

E partiram ruidosamente atraindo a ateno dos passantes, das mulheres que acorriam s janelas e das mocinhas que, com um pingo de inveja, eram foradas pelas mames
a voltar s lies de piano.

Moa de famlia que sasse de casa, deveria ser acompanhada por um membro da famlia - pai, me, irm ou irmo - ou por uma criada. Mas, ningum estranhava ver Ceclia
desacompanhada de um parente. Entre os jovens, muitos eram irmos e irms, primos e primas e todos pertenciam s mais tradicionais famlias paulistanas. Aquele mesmo
grupo se reunia frequentemente e havia um tcito assentimento dos pais para aqueles encontros. O parentesco e a amizade substituam os olhares vigilantes dos pais
na salvaguarda da reputao das suas filhas. Aquela juventude que exibia pelas ruas da cidade a abastana de suas famlias era vista com agrado e com condescendncia
pela populao.

Fernando Albuquerque ia saindo do Grande Hotel, na rua So Bento. J estava para subir  carruagem quando notou no fim da rua, um tropel e percebeu que alguns cavaleiros
trajavam roupas vermelhas. Quando se aproximaram, pde distinguir lindas moas, casacos de veludo escarlate, cartolas brilhantes e rapazes de sobrecasaca e culotes
pretos. Cavalgavam elegantemente,



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 causando rebolio nas ruas. No havia quem ficasse indiferente ao espetculo. Fregueses interrompiam suas compras e os caixeiros os acompanhavam  rua; pessoas
apareciam s janelas; mulheres surgiam s portas, enxugando as mos nos aventais; crianas faziam algazarra, acompanhando, aos magotes, os cavalos garbosos e bem
arreiados.

O olhar de Fernando Albuquerque se fixou numa s figura e a seguiu at que os cavaleiros desapareceram na rua Direita -- era Ceclia Maciel.

Fernando entrou na carruagem e ordenou ao cocheiro:

- Vamos at o fim da rua Rio Branco,

-  casa dos Maciel, senhor?

- Sim. Apenas quero ver a casa.. . dizem que vale a pena ir at l...

-  visita obrigatria para as pessoas de fora.

Ao chegar, Fernando no quis que o cocheiro parasse e pediu-lhe que contornasse a propriedade.

- No  possvel, senhor, um dos lados d diretamente para a estrada de ferro.

- Ento, vamos ver o que for possvel.

O cocheiro comeou a se informar, intrigado;

- Perdo, mas, por acaso o senhor est interessado na compra da casa dos Maciel?

- No,  apenas curiosidade. A casa est  venda?

- Parece que... ainda no, respondeu com um olhar significativo o cocheiro. Mas andam

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correndo uns boatos sobre a situao da famlia. No  das melhores. Consta que a fortuna de Lineu Maciel j no existe.

- Mas no  o homem mais rico da cidade? Uma das maiores fortunas do pas!

- H tempos que no  mais, senhor, h tempos. Bem se v que o senhor no  da Capital.

-  verdade: no sou da Capital. Venho de vez em quando.

O cocheiro ficaria bem mais intrigado se pudesse ouvir os pensamentos de Fernando Albuquerque. "Ento a fortuna de Lineu Maciel no existe mais.,. no esperava por
isto..."



A "caa  raposa", no fundo, nada mais era do que um pretexto para se cavalgar. Era assim: sorteava-se um cavaleiro para fazer o papel de "raposa". Ele partia na
frente e os outros lhe davam uma boa vantagem. A "raposa" deveria deixar rastro: galhos quebrados, pedaos de papel, marcas no cho. Os "caadores" perseguiam a
"caa" pelos arredores de So Paulo at encontr-la.

Edmundo, Ceclia e seus companheiros enveredaram pela rua So Joaquim e deram incio  brincadeira. A "caa" partiu, entrou por uma travessa da rua e desapareceu
no bosque. O bando saiu atrs, atento ao mais leve sinal da passagem da "caa". s vezes um indcio falso os desviava da trilha certa e, ento, voltavam ao ponto
de partida para tentar um novo caminho. E era uma



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alegria quando algum encontrava uma pista. Seguiam na direo indicada at surgir o obstculo seguinte. Ora se dividiam em grupos menores, ora em duplas e exploravam
vrias direes ao mesmo tempo, para facilitar a busca. Edmundo dava as ordens e era prontamente obedecido. O grupo inteiro se dispersou e Ceclia se viu, de repente,
s, em companhia de Edmundo. Trocaram um olhar cheio de amor.

- Dona Ceclia Maciel, como a senhora  linda, brincou Edmundo, descendo do cavalo. Ajudou Ceclia a apear e prendeu as rdeas numa rvore. Deveriam esperar ali:
quem encontrasse uma pista voltaria para relatar e os demais seriam chamados de volta pelo som de uma trompa. Edmundo se achegou a Ceclia. Pegou-lhe a mo.

- Meu amor, conto os dias que faltam para nosso casamento.

- Edmundo, meu bem, minha vida, quando estou com voc tudo o mais deixa de existir para mim. S vejo voc, s sinto voc, s quero voc!

- Como o amor pode ser profundo, meu amor, e como  profundo meu amor por voc! Eu vivo para voc, respiro para voc, penso para voc... sou para voc!

Beijaram-se com muito amor.

Com o amor grande dos verdadeiros apaixonados.

Risadas sonoras e um tropel de cavalos indicavam que a pista fora encontrada. Edmundo ajudou Ceclia a montar o Tufo. Passou-lhe as rdeas e montou tambm. A trompa
soou e minutos depois o grupo j estava novamente reunido.

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Eram onze horas quando chegaram ao ponto de encontro, no Parque. Encontrara a "raposa" dando boas gargalhadas por ter conseguido enganar a todos.

Barreto esperava a hora do almoo para falar com Maciel. Aguardava-se apenas a chegada de Ceclia. Uma criada entrou no escritrio e o avisou:

- Si Maciel est chamando vosmec. Barreto se surpreendeu. Subiu as escadas,

bateu na porta do quarto de Maciel e, no ouvindo resposta, entrou. Maciel, que estava recostado no travesseiro, sentou-se na cama. Estava abatido, aniquilado.

- O senhor est sentindo alguma coisa? Maciel fez que no com a cabea e com as

mos, ao mesmo tempo. Mal pde balbuciar:

- A casa... tenho que vender a casa!. .. Barreto enguliu em seco.

- Vender esta casa... ou a de Santos?

- Esta... a outra... vender. . . leiloar! O que for mais rpido! Preciso de dinheiro com urgncia!

- Mas, senhor Maciel, vender esta casa! Que ser que dona Ceclia vai dizer?

- Ser por pouco tempo... venda apenas esta casa. Preciso de muito dinheiro. Mudaremos para Santos. Em breve terei recuperado tudo...

- No jogo...

- No me critique. V cuidar de encontrar um comprador!



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Barreto compreendeu que no havia nada mais a fazer. Se o prprio Maciel admitira a hiptese da venda da casa,  porque no havia outra soluo - era a runa total,
j pressentida e de certo modo esperada h meses. Saiu, fechou a porta e se aprestava para ir  cidade, quando cruzou com Ceclia que chegava.

- Senhor Barreto, que cara  essa? Alguma tragdia?

Ceclia falava num tom de brincadeira.

- Desta vez, dona Ceclia,  realmente uma tragdia... seu pai vai vender esta casa... dvidas de jogo!...

Num segundo desapareceu do rosto de Ceclia aquela expresso de felicidade que ela irradiava quando entrava. Lvida, tentou balbuciar algumas palavras. No o conseguiu.
Aos poucos se dominou, recuperou-se e reagiu com a altivez que Barreto estava acostumado a ver na famlia Maciel.

- Esta casa... jamais! No permitirei! Nunca!. ..

Voltou-se e subiu as escadas, decidida. Barreto tentou dissuadi-la de ir procurar o pai.

- Dona Ceclia... o momento no  apropriado. .. Seu pai est muito abalado!

Ceclia no lhe deu ouvidos, o que no surpreendeu Barreto. Continuou a subir as escadas e bateu secamente na porta do quarto do pai. No esperou resposta. Entrou.
Maciel estava estirado na cama, olhar vago, alheiado.

- Papai, diga-me que no  verdade! Esperou e o pai no reagiu.

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- Papai! Papai, quero saber, tenho o direito de saber! O senhor no pode fazer isso, papai...

Os" soluos foram chegando de mansinho: primeiro, uma ligeira contrao dos msculos faciais, depois algumas lgrimas e por fim o choro descontrolado. Ceclia virou
as costas e saiu correndo para o seu quarto. Jogou-se de bruos na cama, aos prantos.

Narcisa entrou esbaforida no quarto. Levou muito tempo at que Ceclia conseguisse contarlhe o que estava acontecendo. Narcisa tentou acalmar Ceclia a seu modo.

- No vai acontecer nada. Vou fazer umas rezas fortes e espantar Exu. Sinhzinha vai ver... tudo h de dar certo.

- Narcisa... vender nossa casa.. que humilhao!

VIII

A iniciativa cabia a Barreto e ele bem o sabia. Decidiu-se. Pegou o chapu e saiu para a casa de Jorge Amarante.

No estava, mas no devia demorar, informou uma das empregadas. Amarante fora receber os aluguis das casas que possua para os lados do Brs.

Amarante, de fato, no tardou. Encontrou Barreto conversando com Edmundo. Foi seco como sempre.

- Boa tarde, senhor Barreto. Como vai aquela famlia de esbanjadores?

Ia falando e tirando o chapu e o palet.

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- O senhor Maciel e dona Ceclia... esto bem, mentiu Barreto. O senhor Edmundo ainda h pouco esteve com a noiva...

- , enquanto o pai se matava para receber uns mseros aluguis que aquela corja de vagabundos custa tanto a pagar...

Edmundo no quiz retrucar e pediu licena a Barreto; ia estudar. Amarante continuou com as lamrias.

- , senhor Barreto, os tempos esto duros e, se no se abre bem os olhos, fica-se limpo: ladres por todos os lados, exploradores!...

Barreto j estava acostumado e esperava o momento oportuno para entrar no assunto que o interessava. O prprio Amarante facilitou as coisas.

- Mas, senhor Barreto, que  que o traz por estas bandas?

Barreto lanou mo de toda a sua diplomacia.

- Bem, senhor Amarante, considerando que as famlias Amarante e Maciel esto para se unir, nas pessoas do senhor Edmundo e de dona Ceclia, parece-me que certos
assuntos passam a ser de interesse comum a ambas as partes e...

- Senhor Barreto, o senhor sabe que eu no fao segredo de que o noivado se fez contra a minha vontade.

- Mas o senhor respeita a vontade de seu filho. De certo modo, o senhor aceita o casamento,

- Aceito e no aceito. Correm certos rumores, senhor Barreto... a respeito da situao... financeira... da famlia Maciel. Se os boatos se

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confirmarem, ento proibirei Edmundo de se casar com Ceclia Maciel...

Barreto se esforava para corrigir a situao.

- Problemas passageiros, senhor Amarante, problemas passageiros, sem conseqncias. Alis,  sobre isso mesmo que vim falar com o senhor.

- Ah, ento  verdade. Maciel est em apuros!

- Dessas coisas que acontecem a qualquer um, senhor Amarante - questo de semanas, de dias at. E, como os nomes Amarante e Maciel esto para se unir, pensei contar
com a sua cooperao. ..

- Impossvel, senhor Barreto. Maciel  um gastador incorrigvel: jogo, mulheres, festas! No posso arriscar meu dinheiro nas mos de um homem assim... a no ser
que ele pretenda vender as casas... a um preo conveniente. Poderei considerar o assunto.

- Mas, senhor Amarante, trata-se de defender o nome da futura esposa de seu filho.  uma questo de famlia...

- No  mais! Agora que j sou sabedor dos fatos, posso tomar uma deciso: proibirei Edmundo de se casar com Ceclia... noiva sem dote!

Barreto no soube o que responder. Despediu-se e j ia saindo, quando Amarante o lembrou:

- Como j disse, se a casa dos Maciel for  venda...



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Maria Luiza tinha o apelido de Malu desde os primeiros anos, tendo ficado rf aos quinze anos. Veio morar com Amarante, irmo de seu falecido pai. Trabalhava como
uma criada - o tio lhe fazia ver constantemente que era preciso retribuir o que ela recebia na casa. Tinha o apoio de Edmundo que a protegia contra os exageros da
avareza do pai. Quando Edmundo comeou a cortejar Ceclia, Malu a conheceu tambm e as duas se consideravam mutuamente as maiores amigas. Os melhores vestidos que
Malu usava tinham sido presente de Ceclia - presente que Malu a princpio recebia com certo constrangimento, que desapareceu aos poucos  medida em que a amizade
entre as duas moas ia se solidificando. Aos dezessete anos, Malu  bonita, sem ser uma beleza excepcional.  uma criatura cordata e prestativa. Aparenta uma fragilidade
que o tio explica, com dureza, pela infncia miservel que Malu tivera.

Quando Barreto saiu, Amarante se apressou em comentar com Edmundo e com Malu as novas. Repetiu para Edmundo a proibio de casamento, ameaando deserd-lo, caso
desobedecesse. Malu, chocada com as notcias, decidiu ir fazer companhia a Ceclia; Edmundo se prontificou para acompanh-la.

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Um dos grandes prazeres da vida de Malu era sair a passeio com Edmundo. s vezes iam ao centro da cidade fazer compras e Edmundo  levava  confeitaria; tomavam
um refresco, ouviam msica, examinavam livros na Livraria Garraux, na rua Direita e, no raro, Malu participava da "caa  raposa", quando o servio em casa o permitia.

Desta vez, todavia, ambos iam calados e preocupados. Edmundo deixou Malu no porto da casa de Ceclia, prometendo voltar mais tarde para lev-la de volta.

- Malu, no deixe Ceclia sofrer... ela no merece o que est passando. Diga a ela que, haja o que houver, estarei sempre do lado dela, apesar do que meu pai disser.
Espero que o senhor Barreto no conte a ela o que se passou em nossa casa h pouco...

- Eu tambm no quero que Ceclia sofra, Edmundo, somos to amigas, ela  to boa para mim. Fique tranqilo. Vou fazer tudo o que for possvel para amenizar
o sofrimento de Ceclia.

Edmundo estava estudando Medicina mas h tempos vinha insistindo com o pai sobre a necessidade de ir  Europa para terminar os estudos, especializando-se em oftalmologia
com os grandes mestres da Frana e da Alemanha. Amarante se opunha, alegando no poder arcar com as despesas da viagem e estadia de Edmundo durante o perodo de
estudos, com o que o filho no concordava - Amarante era sabidamente um dos homens mais ricos da cidade. Agora, Edmundo pensava enquanto voltava para casa, 



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talvez tivesse chegado o momento de tomar uma deciso mais grave: seu amor por Ceclia era profundo e definitivo.

Pela primeira vez Edmundo considerou seriamente a hiptese de rompimento com o pai.

A idia veio de repente e Barreto agarrou-se a ela como a nica soluo para o problema que lhe cara nas mos. Afinal de contas no seria a primeira vez que algum
usaria de tal expediente para corrigir uma situao financeira delicada. Barreto, mesmo sem pensar muito, poderia citar prontamente dezenas de casos de famlias
cuja posio social se firmara graas a uma conjugao de interesses.

Todas as premissas levavam  mesma concluso.

A famlia Maciel estava arruinada - no havia dvida. H muito que acabara o crdito de Lineu Maciel. Os credores apertavam cada vez mais o cerco; a vergonha suprema
- leilo das casas de Maciel - tinha que ser evitada a todo custo.

Por outro lado, Amarante deixara bem claro que Maciel no podia contar com ele para um casamento salvador.

Expor a idia a Maciel? De nada adiantaria, no estado em que ele se encontrava. Convencer dona Ceclia? Era jovem demais e apaixonada: jamais compreenderia. Mais
uma vez, Barreto tinha nas mos uma importante deciso a tomar

para defender os interesses da famlia Maciel - o que no acontecia pela primeira vez.

A meio caminho de casa, Barreto resolveu no perder tempo. Tomou um bonde para o centro e desceu no largo de So Bento, dirigindo-se para a repblica onde morava
Larcio, seu afilhado, futuro bacharel de Direito, cujos estudos Barreto custeava.

- Boa tarde, padrinho. Grande idia teve o senhor em vir. Estava pensando mesmo em ir procur-lo.

Barreto pressentiu um golpe de Larcio - j estava habituado com os pedidos de dinheiro do afilhado.

- Bem, o que  desta vez?

- Padrinho,  um absurdo, mas aumentaram para quarenta mil ris o aluguel. Alm do mais, preciso de uns livros...

Barreto precisava da colaborao do afilhado, por isso no discutiu e deu-lhe o dinheiro que Larcio embolsou satisfeito, olhos brilhantes.

- Como vo os estudos?

- Bem.

Larcio pensava que diabos teriam levado seu padrinho a visit-lo assim inesperadamente, de mo aberta - Barreto de hbito no atendia plenamente a todos os pedidos
de dinheiro, exigindo de Larcio explicaes detalhadas sobre o fim que teriam os mil ris que entregava ao afilhado. No no bolso, segurando os cinqenta mil ris,
Larcio aguardava que o padrinho se abrisse.

- Larcio, sei que voc tem muitas 

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amizades. Preciso de uma informao que voc poder conseguir com muita facilidade...

- Uma informao...

- Sim, apenas uma informao. J ouviu falar em Fernando de Albuquerque?

- Como no?  o moo fazendeiro mais rico destas bandas. Gostaria de estar na pele dele... Vem  cidade todo ms e se hospeda no Grande Hotel. Deve ter seus trinta
anos.. .

- Bem, o que eu quero, atalhou Barreto,  saber quando ele vir  cidade. Procure saber. .. para isso voc tem ai uns dez mil ris extras. Converse, pague uns
tragos, d umas gorjetas ao porteiro do hotel...

Larcio se sentiu tentado a resolver a questo na hora mas lembrou-se a tempo de que deveria merecer, por seu esforo (ou pelo menos fazer o padrinho acreditar que
se esforara, por merecer) o dinheiro que acabava de receber, intimamente, arrependeu-se de ter falado demais - a coisa ia parecer muito simples. Era preciso encenar
um pouco.

- Bem, padrinho, vou fazer todo o possvel. Essa gente do Grande Hotel  escolhida a dedo, no sei se vo fornecer uma informao dessa natureza a qualquer pessoa...
mas, o senhor pode ficar sossegado: hoje mesmo vou procurar saber.

- Logo que souber de alguma coisa, telefone para mim. A informao  muito importante. Barreto ia saindo.

- A bno, padrinho.

- Deus o abenoe.

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Satisfeito, cantarolando, Larcio chegou junto da janela, que dava para o largo So Bento e pde ver Fernando Albuquerque saindo de uma casa de tintas com um pequeno
pacote nas mos. Dobrou a esquina, entrando pela rua So Bento, em direo ao Grande Hotel.

- Hoje vamos ter farra grossa, falou para si Larcio.

 


O que Larcio entendia por farra grossa era bebidas, msica e. .. mulheres. A msica no custava nada - Larcio era bom de voz e um dos seus companheiros de quarto
dedilhava bem o violo, instrumento apropriado para estudantes e estudantadas, banido das boas casas de famlia; as bebidas custavam dinheiro - problema que Barreto
acabava de resolver; mulheres, essas, s vezes... tambm custavam dinheiro.

Como um rapaz podia se divertir?

Nos fins-de-semana, podia ir ao Veldromo, junto da rua da Consolao, para assistir ou participar de corridas de bicicletas ou ento ver uma partida de um jogo
que estava se difundindo cada vez mais, chamado "foot-ball". Se o rapaz tinha namorada, uma vez ou outra por semana podia ir at  casa dela e ficar parado na rua,
 espera de que a amada surgisse por instantes  janela, quando a cumprimentava com um leve movimento da cabea, ao mesmo tempo que tirava o chapu ou ento, esper-la
 porta da igreja e trocar olhares furtivos durante a missa; ainda era possvel danar com a namorada uma



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ou, no mximo duas vezes, nos bailes do Clube Concrdia, realizados a cada trs meses, Havia as serenatas - o forte de Larcio. Dotado de boa voz, era sempre requisitado
para traduzir com suas canes a paixo de um corao enamorado que financiava uns tragos para o cantor e para o violonista, no raro acompanhados de amigos, colegas
da academia de Direito ou companheiros de repblica. Uma ou outra vez, porm, tinham necessidade de emoes mais fortes. Ento, se a situao financeira permitisse,
dava-se uma esticada at s penses das ruas Xavier de Toledo e Conselheiro Crispiniano residncias de gentis senhoristas, experimentadas distribuidoras de carinhos.
Se os tempos estivessem bicudos, havia o recurso das casas da rua Libero Badar, antiga rua de So Jos, cujas moradoras tinham o hbito de se promover nas janelas
e corredores, com Dortas abertas dando diretamente para a rua. s vezes acontecia de haver um desentendimento entre a dona da casa e uma moradora, a respeito da
comisso ou da renda diria. Se a pendncia no se resolvia amigavelmente e havia um rompimento, a moradora se mudava e anunciava seu novo endereo pelos
jornais - "Mie. Georgette sente-se honrada em anunciar aos seus amigos que se mudou da rua tal, nmero tal, para... etc., onde espera continuar a receb-los".

Larcio planejava ento uma farra grossa.

Acertaria os detalhes mais tarde com os companheiros de quarto. Antes era preciso passar pelo Grande Hotel e tirar informaes certas 

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sobre a estadia de Fernando Albuquerque. No dia seguinte, procuraria o padrinho: era preciso valorizar um pouco o trabalho...

No teve dificuldades com o porteiro. J se conheciam.

- "Seu" Silva, como vo as coisas?

Larcio, sempre alegre e simptico, tinha muitos amigos nas redondezas: caixeiros, porteiros de hotis, condutores de bonde - com ponto bem em frente da repblica
de Larcio - carteiros, alm dos amigos que fizera na Faculdade.

Conseguiu todas as informaes que queria. Agora, nada mais a fazer seno preparar-se para a noitada.

No seu apartamento, no segundo andar, Fernando Albuquerque escrevia uma carta a dona Vina, sua me, participando-lhe que se demoraria mais alguns dias na cidade,
para cuidar da venda de uma partida de caf.

Fernando dirigia a fazenda desde os quinze anos, quando o pai, falecendo, lhe deixava nas mos as terras que conseguira comprar aos poucos, depois de uma vida de
lutas e sacrifcios. Filho nico, coube a Fernando cuidar da me e de Sofia, sua prima. Interrompeu os estudos mas no perdeu a vontade de aprender. Seu entusiasmo
deu vida  fazenda. Cultivou as terras ainda no aproveitadas, plantou mais cafezais. Seu trabalho comeou a dar frutos. Comprou os stios vizinhos e, alguns anos
aps a morte do pai, Fernando j era apontado como um dos grandes fazendeiros da regio, responsvel pela produo de milhares de sacas de caf da melhor qualidade.



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Fernando escrevia  me e justificava sua demora pela necessidade de cuidar da venda de uma partida e caf - ele tinha certeza de que na fazenda todos acreditiriam.
O verdadeiro motivo, esse, Fernando no podia mencionar...



Larcio - o moleque Larcio - fez uma encenao.

- Padrinho, o senhor no imagina o que tive que fazer, as pessoas que tive que procurar (mal educadas!) e como tive que andar... Ah, padrinho, se no fosse
pelo senhor...

- Larcio, os fatos: quando Fernando Albuquerque vem  cidade?

- Padrinho, o senhor est com sorte! Deve ter sido a boa ao que o senhor fez ontem! Fernando Albuquerque est na cidade... (pausa, diante da estupefata alegria
de Barreto)... est hospedado no quarto 28 do Grande Hotel... e vai ficar por uns cinco dias!...

- Muito bom... muito bom.

Barreto saiu e deixou Larcio intrigado com a reao do padrinho. Larcio ainda estava deitado quando Barreto chegara, impaciente - no recebendo logo de manh o
telefonema de Larcio, viera acord-lo s dez horas. Larcio nunca vira o padrinho assim nem ao menos o criticara por se levantar to tarde, perdendo horas preciosas
de estudo. Alguma coisa, pensou Larcio, deve estar acontecendo.

No hotel, informaram Barreto que Fernando sara s nove horas.

 

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- Pelo que ouvi, senhor, o senhor Fernando deve ter ido  Casa de Sade Santa Anastcia.

- Mas, acrescentou Barreto,  um hospital para dbeis mentais...

- O senhor Fernando vem todos os meses e costuma ir sempre l.. .

O porteiro se mostrava prestativo e Barreto continou se informando.

- Ele tem algum parente... internado?

- No sei dizer, senhor

Barreto resolveu esperar. Comprou um jornal, para passar o tempo: quase as mesmas notcias de todo dia - extenso de uma linha de bonde a um bairro mais afastado,
demolio de prdios para a abertura de nova rua, alargamento da rua de So Joo e... - Barreto se interessou - um comentrio do Secretrio da Agricultura sobre
a excelncia do caf produzido por Fernando Albuquerque, jovem fazendeiro paulista.

De to absorto que estava na leitura do jornal, Barreto no percebeu quando Fernando chegou, deixou em embrulho na portaria e saiu novamente. O porteiro veio avis-lo.
Como todo bom porteiro, era observador: Fernando voltara com os sapatos sujos de lama - da rua onde ficava a Casa de Sade Santa Anastcia.

- Pode ser que me engane, senhor, mas o senhor Fernando Albuquerque provavelmente ter ido engraxar os sapatos no largo de So Bento.

- Graxa ou pomada, moo? Graxa, um tosto; pomada, duzentos ris, fora a gorjeta. . .

Fernando escolheu a pomada.



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O engraxate ajeitou o guarda-sol de tal modo que o fregus fosse todo coberto pela sombra, ficando com os ps expostos ao sol, o que facilitava o seu trabalho -
o sapato secaria mais rpido, a pomada penetraria melhor no couro e daria mais lustro.

Um homem de uns cinqenta anos, de barba densa e bigodes cuidados, j um pouco grisalhos, sentou-se ao lado de Fernando. O outro  engraxate repetiu a cantilena:

- Graxa ou pomada, moo? Graxa, um tosto; pomada, duzentos ris... fora a gorjeta.

Pomada. O homem estava interessado na leitura do jornal. Demonstrava um certo entusiasmo. Acabando de ler, voltou-se para Fernando.

- Ora, veja, senhor, se no  para alegrar a gente. Este moo - e apontava o jornal -  uma prova do que podem fazer a inteligncia e a tenacidade. Em poucos
anos de trabalho  frente de uma fazenda, j  alvo de comentrio do Secretrio da Agricultura, devido  qualidade excepcional de caf que est produzindo. O
senhor j deve ter ouvido falar... o nome dele ... deixe ver, Fernando Albuquerque...

- s suas ordens, senhor. Eu sou Fernando Albuquerque.

- O senhor... que feliz coincidncia! Senhor,  uma satisfao imensa conhec-lo. Meu nome  Barreto - e deu a Fernando um carto.

- Nicolas Barreto, leu alto Fernando.

- Procurador da famlia Maciel.

A reao pronta de Fernando surpreendeu Barreto.

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- Maciel... da famlia de dona Ceclia Maciel?

- Sim, o senhor a conhece?

- De vista.  muito bonita... Nunca nos fomos apresentados.

- Senhor Fernando, seria um prazer para mim arranjar isso. Vamos ver... amanh ter incio a temporada lrica no Teatro So Jos. Dona Ceclia comparecer com
o pai. Se o senhor estiver l, poderei fazer a apresentao.

- Senhor Barreto, no trouxe trajes apropriados ... casaca... o senhor sabe, vim a negcios.

- Ora, no d importncia a esses detalhes ... Ningum ir barr-lo, o fazendeiro mais importante destas bandas! Tenho certeza de que tanto Maciel como dona Ceclia
tero prazer em conhec-lo.

- Prometo fazer o possvel.

Pagaram os engraxates. Ocorreu a Fernando comentar com Barreto os boatos que ouvira a respeito de Maciel.

- Senhor Barreto, no me tome por indiscreto. Tenho ouvido rumores sobre a situao financeira da famlia Maciel, e acredite-me, tenho razes srias para justificar
o que pareceria bisbilhotice de minha parte. O que h de verdade em tudo isso?

Nos ltimos meses Barreto enfrentara tantos credores temerosos de perderem as dvidas de Maciel que o procurador da famlia criara um sistema de defesa que lhe escapava
quase que instintivamente. As frases variavam - "ora, 

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nada mais ridculo: Maciel na misria, ho, ho, ho, ho!" ou ento "Calnia! Infmia! Isto  obra dos desonestos que Lineu Maciel tem apontado", etc. Para pessoas 
como
Fernando Albuquerque, a resposta era mais ou menos assim:

- Coisas sem importncia, senhor Fernando, coisas de nada. Problemas que se resolvem em questo de dias! . . .

Fernando avanou mais um pouco:

- Senhor Barreto. Estou hospedado h alguns dias no Grande Hotel. Ouvi comentrios sobre o que se passou na noite de anteontem para ontem. Um dos presentes era
um fazendeiro amigo meu. . . tenho a impresso de que as coisas so graves. Perdoe-me se me intrometo tanto num assunto para o qual o senhor deve querer
muita discrio. . . Eu apenas gostaria de saber se posso ajudar de algum modo.

Barreto pareceu no compreender bem.

- Ajudar, senhor Fernando? O que  que o senhor quer dizer?

Entraram numa confeitaria, onde poderiam conversar melhor. Barreto percebia que no havia muito que ocultar a Fernando Albuquerque.



Fernando atraa a ateno das pessoas por duas razes. Primeiro, por ser Fernando Albuquerque, o fazendeiro; segundo, por ocupar sozinho um camarote e no estar
trajado de conformidade com a maioria absoluta dos homens presentes. Por estes dois motivos muitos binculos eram assestados sobre ele, o que no lhe passou

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despercebido. Um pouco antes de se levantar o pano, quando a orquestra, devidamente afinada, silenciava diante das batidas da batuta do maestro, Fernando viu Ceclia
entrar e ocupar um camarote do lado oposto. Seguiam-na o pai e Barreto, que, localizando Fernando, fez-lhe um leve aceno com a cabea.

Barreto estava eufrico. Parecia estar se deliciando com "Lcia de Lammermoor", apresentada por uma famosa companhia italiana; Maciel, quieto e reservado. Ceclia,
ah - e Fernando voltava para ela o binculo - Ceclia parecia ainda mais bonita, com aquele olhar em que se percebia uma certa tristeza. No primeiro intervalo Barreto
no pde interromper Ceclia para lhe apresentar Fernando - Maciel sara para cumprimentar umas pessoas e o camarote se enchera de amigas de Ceclia. Barreto esperava
por um momento em que Maciel e Ceclia estivessem juntos. Ento apresentaria Fernando, de modo que tudo parecesse casual. A ocasio surgiu no terceiro intervalo,
quando todos os amigos j tinham sido cumprimentados. Maciel e Ceclia permaneceram no camarote. Barreto saiu e encontrou-se com Fernando.

- Boa noite, senhor Fernando. Ento, est gostando?

- Excelente desempenho, senhor Barreto. Donizetti no poderia desejar melhor... se fosse vivo.

- Ah, surpreendeu-se Barreto, ento temos um conhecedor de peras tambm, alm de grande fazendeiro! Como se explica isso?



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- Sempre venho ver as peas mais importantes da temporada. Alis, senhor Barreto - Fernando falou quase em segredo - foi quando apresentaram "Carmen" que
vi dona Ceclia pela primeira vez. Desde ento, sempre tive vontade de ser apresentado a ela. Dona Ceclia tem uma beleza que a gente nunca esquece.

- Pois vamos at ao nosso camarote. Maciel tambm fez referncias elogiosas ao senhor, aps ler o jornal de ontem... O senhor est ficando comentado, sabe?

Quando -Ceclia se voltou e viu Fernando cumprimentando o pai, teve um choque - "como aquele homem tinha a coragem de vir  pera vestido como se sassse a passeio!"

- Dona Ceclia, este  Fernando Albuquerque.

- H muito que ouo falar de sua beleza, dona Ceclia, mas no acho que algum lhe tenha feito justia: no  possvel descrever com palavras um rosto to lindo!

- Muito obrigada.

Ceclia sorriu secamente - "que galanteio antiquado e sem gosto". E virou as costas aos homens.

- Parabns pelo seu trabalho na sua fazenda, senhor Fernando. Precisamos de mais moos como o senhor para fazer de So Paulo um grande estado.

- Partindo de um dos maiores empreendedores paulistas, senhor Maciel,  o maior elogio que j recebi. Vou me lembrar sempre de suas palavras. Foi uma honra para
mim conhec-lo.

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Fernando se dirigiu ao seu camarote impressionado com Ceclia - "ser... tmida? Ou demasiadamente recatada? Mas... Ceclia Maciel?..."

Ao final do espetculo Ceclia estava irritadssima e desabafou com Barreto.

- O senhor no devia ter trazido ao nosso camarote aquele homem... atrevido que passou o tempo todo me olhando de binculo! E o teatro, inteiro observando!... Vou 
cair no ridculo... um admirador caipira!

- Mas, dona Ceclia, um dos homens mais ricos do momento, moo, comentado pelos jornais ...

- Da prxima vez, consulte-me antes deapresentar as suas amizades!



 

Jacinto fora  vila buscar Fernando, que no chegara. Trazia uma carta dirigida a dona Vina.

- Fernando vai ficar mais uns dias, explicou Vina a Sofia, desejosa de notcias. Est cuidando da ltima partida de caf - parece que h uns estrangeiros interessados
em comprar tudo. Meu filho s volta depois que tiver resolvido tudo...

De certo modo, todos ficaram decepcionados com o adiamento da volta de Fernando. Vina, por j ter saudades do filho; Zuza, filho de Jacinto e Tico, seu amigo, juntamente
com Candinha, sentiam ter que esperar mais alguns dias para receberem os doces e brinquedos que Fernando


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lhes traria na certa; Jacinto precisava da presena do patro para decidir o que fazer das terras do outro lado do rio, recentemente adquiridas por Fernando; por
fim, Sofia... a calma e  eficiente Sofia, mo direita de Fernando... que nutria secretamente um profundo e sincero amor pelo primo, Sofia tinha, mais que ningum,
muitas razes para sentir a falta de Fernando.

- Fernando tem ido muito a So Paulo nos ltimos meses, comentou Sofia, esperando ouvir de Vina uma explicao que no viesse de encontro ao seu amor oculto por
Fernando.

- Os negcios da fazenda cada vez mais exigem a presena de Fernando na cidade. Bem sei que ele faz muita falta aqui, ainda mais agora que h muito que fazer com
as terras do lado de l do rio...

Sofia pareceu resignar-se. Foi cuidar de seus afazeres, aumentados pelo fato de ela tomar a si a responsabilidade da execuo das tarefas que normalmente cabiam
a Fernando.

- "Seu" Fernando no vem. Sinh Vina?

Tico puxava a saia de Vina, que relia a carta, sentada na cadeira de balano da ampla varanda. Zuza, parado  porta, aguardava tambm a resposta.

- Vem sim, mais vai demorar uns dias. Vocs dois no precisam se preocupar: Fernando vai trazer doces e brinquedos, como sempre.

- Tomara que "seu" Fernando volte depressa. ..

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- Interesseiro... v brincar com o Zuza. Mas nada de maltratar os animais, viu?

- Sinh Vina, no fui eu quem amarrou lata no rabo do gato. . .

- Ento vocs esto dando em cima dos gatos tambm, hein? Eu estava falando  das penas que vocs andaram arrancando do galo para fazer peteca! Onde j se viu! Se
eu pegar vocs fazendo isso de novo, vo levar uma sova com vara de marmelo!

- Foi o Tico!

- Foi o Zuza, Sinh Vina! Eu s segurei o galo!

Vina, a boa Vina, falava, mas era incapaz de dar um puxo de orelha. Nunca fora necessrio castigar Fernando ou Sofia, criada por ela desde os dois anos de idade,
quando a criana lhe foi entregue pelo cunhado, que se aventurou pelos sertes de Minas  procura de fortuna no garimpo, vindo a falecer. Sofia cresceu ao lado de
Fernando. Inteligente e laboriosa, interessava-se pelo trabalho da fazenda, dirigindo-a na ausncia do primo, o que acontecia muito a mide nos ltimos tempos.
No fundo, Vina acalentava a idia de que Fernando viesse a se casar com Sofia. Do ponto de vista de Vina, seria o casamento ideal para ambos. s vezes, em conversa
com Sofia, revelava-lhe seu desejo de ter a sobrinha como nora. Sofia apenas sorria. E Vina jamais pde saber ao certo o que significava aquele sorriso: Sofia era
altiva demais para permitir que Fernando tomasse qualquer iniciativa apenas por interferncia da me. Preferia no



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deixar transparecer seu amor por Fernando. Mesmo porque Sofia receava revelar um amor e... depois no ser correspondida - ultimamente Fernando andava fazendo frequentes
viagens a So Paulo. Sofia, conhecendo tanto como Fernando os negcios da fazenda, sabia que no eram apenas os negcios que levavam o primo  cidade. E, como se
no bastassem as viagens, havia o paiol...

O que todos na fazenda chamavam o "paiol", nada mais era do que a antiqa sede, transformada provisoriamente em depsito de milho e cereais, aps a construo do
imponente sobrado, atual sede da grande propriedade que se tornara a fazenda de Fernando Albuquerque. Com o passar do tempo, Fernando construiu um paiol, depsitos
adequados para cereais e uma tulha, desenhada especialmente pelo prprio Fernando; ali se armazenava a colheita de caf, j seco e o sistema de ventilao idealizado
por Fernando funcionou to bem que no se perdia uma saca sequer: o mofo desapareceu de vez. Fazendeiros das redondezas construam tulhas idnticas, com a aquiescncia
e superviso de Fernando.

Voltemos, porm, ao "paiol". Desocupado, serviu como depsito de ferramentas e ultimamente Fernando o mantinha trancado. Alegava guardar ali documentos e papis
que as crianas no deveriam tocar. Apenas Jacinto podia entrar, alm de Fernando. A princpio, nem Vina nem Sofia deram maior importncia ao caso. O "paiol" ficava
um pouco afastado da casa da

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fazenda, circundado por um pomar, tendo um bambuzal ao fundo. Alm do bambuzal, um pequeno bosque, paraso de Zuza e Tico, que ali armavam arapucas e procuravam
ninhos de passarinhos. Com o passar do tempo, Vina e Sofia comearam a notar um certo mistrio em torno do "paiol". Como Fernando sempre dava respostas evasivas
- " bom no irem l, pode haver aranhas e escorpies" ou ento "mais dia menos dia vou demolir tudo" - no insistiam. Uma vez, Sofia pediu a chave a Jacinto para
entrar no "paiol", sob o pretexto de procurar um remdio para um bezerro doente. Jacinto alegou no ter a chave em seu poder, o que Sofia percebeu claramente no
ser verdade.  medida em que esses pequenos incidentes iam acontecendo, mais aumentava em Vina e Sofia a curiosidade em torno do que podia haver dentro do "paiol".

- Sinhzinha, mandaram flores pr mec! Narcisa vinha se esforando para fazer Ceclia esquecer o sofrimento por que vinha passando, com a venda da casa. Maciel 
j tinha tomado a deciso e Barreto j tinha ordens no sentido de procurar um comprador
ou, em ltimo caso, promover o leilo, o que seria a humilhao suprema para o nome Maciel - vender tudo a qualquer preo para saldar dvidas de jogo.

- De quem ?

- Aqui tem um carto.

Narcisa retirou de entre as rosas vermelhas um pequeno envelope e o passou a Ceclia. E 



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arrependeu-se. Ceclia rasgou o carto e ordenou,, rspida:

- Devolva imediatamente! E d ordens para nunca mais ningum, nesta casa, aceitar flores que venham desse sujeito! Devolvem pelo mesmo mensageiro! Nem quero
ver! Caipira galanteador!

- Desculpe, sinhzinha. Eu no sabia -  do homem do teatro...

- Ele mesmo! Culpa de Barreto! Dar confiana para um tipo como aquele...

Barreto no podia esconder sua satisfao ao entrar em casa. Cruzou com Narcisa; notando as flores, ia perguntar de quem eram, quando Narcisa se adiantou.

- Do homem do teatro... Dona Ceclia est zangada com o senhor. No quer aceitar nada dele... Mandou devolver...

- O que seria um desastre. Deixe por minha conta. Eu cuido disso.

- Dona Ceclia mandou devolver!

- J disse que cuido disso! D-me as flores! Narcisa no teve outra sada. Entregou a

corbeille e repetiu:

-  melhor devolver - dona Ceclia anda muito zangada!

Devolver, Barreto no podia. Expor as flores pela casa, tambm no. Optou pela soluo mais simples: jogou a corbeille no lixo e foi  procura de Maciel, na biblioteca.
Estava to eufrico que agia de maneira inslita. Depositou diante de Maciel uns papis e ficou aguardando a reao.

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Maciel leu e se levantou, surpreso, tal qual Barreto previa.

- Mas... balbuciou.  muito mais do que a casa vale realmente!

- Exato. Basta assinar! E no  s: o comprador s vai precisar da casa dentro de uns seis meses. At l, ele prefere que a famlia Maciel a ocupe - acha que  a
melhor maneira de conserv-la. Maciel, a sorte est voltando!

- Mas, Barreto, quem  o comprador? Pagar mais do que a casa vale,  vista?

- Um ingls, acionista da Light. O homem veio a So Paulo inspecionar em nome dos demais acionistas as obras da Light e ficou to entusiasmado que vem morar no Brasil.
Ao ouvir falar que a casa da famlia Maciel estava  venda, comprou-a mesmo sem a conhecer - s pelas referncias! Vai voltar  Inglaterra para liquidar seus negcios.
S dentro de uns seis meses estar de volta.

- Barreto... Ceclia j sabe?

- No. O senhor  o nico, alm do comprador, claro. Pedi a ele que no espalhasse a notcia.  um tal de Mr. Thompson...

- Pois... deixe que eu conto  minha filha. Quando  que voc recebe o dinheiro?

- Hoje mesmo. Pago todos os credores?

- No. Deposite tudo na minha conta. Eu mesmo quero ter a satisfao de saldar minhas dvidas... Barreto, retire seus salrios atrasados. Agora... eu vou falar com
Ceclia...

Para Maciel, era o pedao mais amargo. Sentia em cada palavra, em cada olhar de 

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Ceclia a censura que a filha no podia esconder.

- No posso esquecer nem por um instante, papai, que o senhor liquidou toda a fortuna da famlia, acabando por vender a casa... o senhor no tinha o direito!
Que vergonha! Jamais terei coragem de encontrar minhas amigas! S desejo me casar logo com Edmundo para comear nova vida...

- Minha filha, bem sei que no tenho desculpas. .. Mas, prometo saldar todas as dvidas e comear vida nova com o que restar. Ainda tenho muitos amigos a quem
recorrer... Quero que voc tenha o casamento que merece. Vou falar com Jorge Amarante...

Barreto tentou dissuadir Maciel.

- O senhor no deve dar a Jorge Amarante uma oportunidade que ele tanto deseja de humilh-lo. Deixe a meu cargo cuidar desse assunto - Barreto escondia de Maciel 
a atitude de Amarante, opondo-se ao casamento
de Edmundo com Ceclia.

- J prejudiquei demais minha filha. Agora  hora de me sacrificar - no importa se Jorge Amarante deseja me humilhar. Estou disposto a enfrent-lo. Eu mesmo irei.

Barreto no teve sada: tinha que contar!

- Senhor Maciel... Eu j fui procurar Amarante... Tomei a iniciativa de pedir um emprstimo. .. por pouco tempo. Amarante se negou a ajudar a famlia Maciel e...
o pior: proibiu o filho de se casar com dona Ceclia, ameaando deserd-lo, se for desobedecido.

O golpe foi muito forte para Maciel. Sentou-se,

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 quase se dobrando, como se fosse esmagado por um enorme peso.

- Oh! meu Deus! A que ponto cheguei! Barreto.. . no sei o que fazer... estraguei tambm a vida de Ceclia!.. .



Malu estava ajudando a criada, Sebastiana, a recolher a roupa dos varais. Sentira uma vertigem e cara. Sebastiana correu a chamar Amarante e Edmundo, que a carregou
para dentro da casa.

- Ela precisa de um mdico, concluiu Edmundo, depois de fazer um ligeiro exame em Malu.

- Mas voc  quase um mdico! Para que chamar um outro, que certamente vai cobrar um bom dinheiro? Voc mesmo...

- Papai, eu vou ser um oftalmologista! Posso reanimar Malu, mas no posso fazer um exame clnico.  preciso um mdico!

Edmundo fez Malu cheirar uns sais e poucos minutos depois ela se sentava na cama, um pouco estonteada.

- J estou bem, Edmundo. O tio no precisa chamar mdico. Foi s um desmaio passageiro.

- Eu mesmo vou  procura de um mdico. .. talvez o doutor Vieira esteja em casa agora. .. mora perto daqui. . . J h tempos que voc vem sentindo vertigens. J
devia ter feito uma consulta h muito tempo.

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Amarante tentou demover Edmundo. - Ora, isso so coisas da idade! Uma xcara de caf forte.. 

Naquele mesmo instante Barreto ia chegando. Ao saber de Edmundo o que se passava, prontificou-se para ir buscar o mdico, partindo na mesma carruagem. Meia hora
depois estava de volta.

Doutor Vieira era um velho mdico que muito incentivara Edmundo nos primeiros anos de estudos, aconselhando-o a se fazer oftalmologista, que, a seu ver, era um dos
ramos mais bonitos da medicina.

O exame de Malu foi demorado. Conhecendo o Doutor Vieira de longa data, Edmundo percebeu que ele demonstrava um interesse fora do comum pelo caso que tinha em mos.
Quanto mais se concentrava em seu trabalho, mais Edmundo se convencia de que a prima apresentava algo de inquietador para o experimentado professor da Escola de
Medicina.

- Dona Maria Luiza, a senhora precisa fazer alguns exames. Doutor Vieira batia amigavelmente no ombro de Malu. Seu primo vai se encarregar de tudo. Vou deixar instrues.
Por enquanto, nada de remdios, a no ser um fortificante . . gostoso de tomar, no se preocupe.

- Doutor Vieira, esses exames.. . so caros? Amarante estava preocupado - "mdicos, mdicos.. . sempre a mesma coisa!"

- Por ora, senhor Jorge, no vamos nos preocupar com isso. Mais tarde, mais tarde . . Doutor Vieira conhecia Amarante muito bem e no dava muita importncia
 sua avareza. 

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Respondia-lhe sem se voltar, enquanto guardava na maleta os seus instrumentos. Pediu a Edmundo que o acompanhasse at seu consultrio, para lhe passar as instrues
e prescrever os exames. Malu se recuperou e voltara a ser a mocinha delicada e atenciosa de sempre: preparou um caf e o levou para Barreto e Amarante, que conversavam
na sala.

- Um cafezinho, senhor Barreto. Acabei de coar.

- Ora, no precisava se dar o trabalho. Procure descansar.

- Mas, no foi nada, senhor Barreto. Eu j estou bem.. 

Malu saiu e deixou os dois homens a ss.

Barreto estava procurando encaminhar a conversa para o assunto do casamento de Edmundo com Ceclia. Amarante lhe deu a oportunidade desejada.

- Ento, senhor Barreto, como vo as coisas para os lados de Maciel?

- Normal, tudo normal...

- Normal? Mas, e aquela dvida que o senhor mencionou da ltima vez que esteve aqui?

- Tudo acertado, senhor Amarante, tudo acertado. Era questo de dias, como lhe disse. A propsito: agora que as coisas voltaram  normalidade, poderamos tornar
a discutir o casamento de Edmundo com dona Ceclia...

- Senhor Barreto, considero o senhor muito esperto, mas o senhor precisa saber que tem diante de si uma raposa velha! No mudei nem vou mudar meu ponto de
vista sobre o assunto:

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oponho-me terminantemente a esse casamento. E estou decidido: se meu filho me desobedecer, eu o deserdarei. Embora o senhor ignore, eu estou perfeitamente a par 
da real situao de Lineu Maciel. Eu tenho os meus informantes, senhor Barreto!

- Mas, senhor Amarante, os dois jovens se

amam. . .

- Amor no vem ao caso, cortou Amarante. O amor passa, acaba. Sem amor se vive, mas, sem dinheiro, no. J gastei muito com meu filho, trabalhei muito para fazer
minha fortuna. No vou permitir que ela caia numa famlia de perdulrios. Veja o senhor: Maciel, jogador viciado, mulherengo - o senhor sabe que o primeiro andar
do Grande Hotel, o primeiro andar inteiro, senhor Barreto,  alugado a um grupo de ricos senhores para jogos e. . . bacanais? E que um desses senhores  nada
mais, nada menos que Lineu Maciel? Pois . E mulheres caras, senhor Barreto, mulheres caras - estrangeiras, daquelas refinadas que vo  Europa como se vai ao centro
da cidade!. . . No  de admirar que a fortuna da famlia Maciel tenha chegado ao fim!...

Barreto compreendeu que nada mais tinha a fazer na casa de Jorge Amarante. Despediu-se e saiu. Chegou  concluso de que aquilo que j lhe passara pela cabea como
uma mera possibilidade, agora era a nica sada possvel para a famlia Maciel.

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Ceclia e Malu, acompanhadas de Narcisa, entraram na confeitaria Parisiense, sentaram-se e pediram refrescos. Descansavam das compras. Ceclia escolhera um vestido
para seu aniversrio, que se aproximava. Malu lhe fazia companhia, simplesmente - era uma ocasio para conversarem, principalmente a respeito do casamento.

- Malu, vou pedir a Edmundo que marque a data. Preciso sair da casa o mais breve possvel. Penso anunciar o dia do nosso casamento na minha festa de aniversrio.
Ser o meu melhor presente!

- Ainda bem - Malu ria - porque Edmundo est se vendo em dificuldades para comprar um presente para voc. O tio no d dinheiro. . . No deixe o Edmundo saber, mas
eu desconfio que ele anda fazendo umas tradues para ganhar algum dinheiro. . . Acho que vai dar para comprar uns metros de chita! . . .

At Narcisa riu. Malu estava mostrando toda a sua jovialidade. A companhia de Ceclia lhe permitia dar vazo quela alegria que a presena do tio, quase sempre rabugento,
impedia que se expandisse. Ir  cidade com Ceclia era o passeio preferido de Malu. Vasculhavam todas as lojas, examinavam as novidades importadas da Frana, compravam
revistas e livros, tomavam



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refrescos e, invariavelmente, Ceclia comprava um ou outro presente para Malu. E geralmente era uma surpresa: Ceclia observava a reao da amiga enquanto examinavam
as mercadorias e, chegando em casa, telefonava  loja pedindo as suas encomendas e o presente de Malu.

- Agora, vamos a Livraria Garraux ver as revistas e depois, para casa. Ainda quero receber todas as minhas compras em casa hoje.

Narcisa fez um sinal e o garon atendeu:

- Pois no, minha senhora?

- A conta, por favor, pediu Ceclia.

- No h nada a pagar, senhora. Um cavalheiro j o fez.

Ceclia se surpreendeu.

- Um cavalheiro? E quem ?

- No o conheo, senhora.  aquele senhor, na mesa junto da janela...

Ceclia se voltou para agradecer, pensando tratar-se de algum conhecido da famlia. Fernando Albuquerque, sentado  mesa junto da janela, fez-lhe um ligeiro cumprimento
de cabea. Ceclia virou-lhe as costas. Saram. Na rua, Malu no conseguia conter sua curiosidade.

- Quem era, Ceclia? Um conhecido?

- Um atrevido, isto sim. Um caipira grosseiro e mal-educado que o senhor Barreto introduziu no nosso camarote, no teatro e que agora anda tentando me cortejar.

- Voc tem certeza de que ele tem a inteno de cortejar voc? Pode ser que ele apenas esteja querendo ser delicado, Ceclia. Ele no sabe que voc  noiva de
Edmundo?

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- No sei. S sei que  a terceira vez que o caipira se manifesta. A primeira, foi no teatro; depois, me mandou flores e agora... mas, vou acabar com isto de uma
vez. Chegando em casa, vou pedir ao senhor Barreto que tome uma providncia - afinal, tudo est acontecendo por causa dele mesmo. Voc j imaginou, Malu, que ridculo?
Ser cortejada por um caipira!.. .

Ceclia perdera o bom humor. No foram 

Livraria Garraux.

Se tivessem ido, teriam dado com Maciel, parado diante da vitrine da Livraria, aparentemente examinando os livros em exposio. Aparentemente, porque, na verdade,
Maciel cumpria um ritual que se repetia todos os dias, ali pelas quatro horas da tarde, quando o movimento na rua 15 de Novembro era mais intenso.  que, quela
hora, elas apareciam - umas que iam s compras, outras, apenas para se mostrarem e algumas... para se oferecerem. Ao transeunte desavisado, aqueles senhores bem
trajados, parados em frente da vitrine do Garraux certamente seriam intelectuais  cata de novidades literrias. A verdade, porm, era bem outra. Lineu Maciel
teria que puxar muito pela memria se um dia tivesse que recordar todas as conquistas que fizera, partindo da porta do Garraux. A coisa acontecia mais ou menos
assim: o distinto senhor, parado em frente da vitrine, examinava atentamente os livros; ou ento, podia comprar o Dirio Popular e l-lo, tambm atentamente,
enquanto espera o seu bonde. Seu ouvido experimentado capta as vozes femininas que se 

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aproximam ou distinguem nos passos dos transeuntes o andar diferente, amiudado, do elemento feminino. Seus sentidos se aguam - basta um rpido olhar, de soslaio, 
para
decidir: vale ou no a pena. Se no, continua-se a leitura ou o exame dos livros; caso contrrio, passa-se uma folha do jornal e lana-se um olhar mais prolongado;
o da vitrine, se apercebe de repente que o seu bonde acabou de dobrar a esquina - ou no ser o seu?  preciso se certificar. . . E vem para a beira da calada,
onde pode observar bem... se  mesmo o seu bonde ou no. Caso haja possibilidade de ser o seu, retira-se e limpa-se com um leno o "pince-nez", para que se possa
ver bem... o letreiro do bonde.

Eram trs os tipos de mulheres que por ali transitavam.

As que iam (ou fingiam) ir s compras -sempre acompanhadas de um parente: pai, me ou irmos, mesmo menores. Eram de famlia e, muito raramente, se fazia um galanteio
a uma delas.

Havia as que trabalhavam - criadas, a servio das patroas, professoras, a caminho ou de volta das escolas, costureiras, que atendiam sua clientela ou iam s compras.
Entre estas ltimas, algumas muito bonitas.

Por fim, as profissionais, que se aventuravam pelas ruas mais movimentadas, oferecendo discretamente seus encantos aos distintos senhores. Iam sempre desacompanhadas,
o que era o sinal convencional da classe. Sobre estas ltimas, os comentrios eram mais ousados e pitorescos,

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embora feitos discretamente, quase entre sussurros, que atingiam apenas os senhores mais prximos.

Fora justamente  porta do Garraux que Maciel conhecera h tempos atrs uma costureirinha chamada Hortnsia.



- Edmundo, j tomei uma deciso e no voltarei atrs. No darei meu consentimento! No vou permitir que a minha fortuna, feita com tanto suor e esforo, venha
a ser partilhada com uma famlia de perdulrios, como os Maciel. Eduquei voc  custa de muito dinheiro! Voc  um dos melhores partidos da cidade -  moo, rico
e quase formado. Voc merece uma noiva rica,  sua altura. Os Maciel esto na misria: sei de fonte limpa que Lineu Maciel, o baro falido, jogador e conquistador
de mulherzinhas, teve que vender a prpria casa para pagar dvidas!...

Amarante exultava. Edmundo mal podia acreditar.

- Papai, isso  uma infmia. A famlia Maciel  uma das mais ricas de todo o estado...

- Foi, meu filho, foi! Hoje Lineu Maciel deve possuir apenas um chal na praia, se  que ainda o tem...

- Ainda no acredito. E mesmo que fosse verdade, papai, eu amo Ceclia e quero me casar com ela, no com a fortuna da famlia Maciel. O que me importa  ter Ceclia...

- Bobagens, bobagens da juventude! Isso



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passa, amor passa. Mas, o dinheiro, se voc o conserva, consegue tudo, compra tudo!

- Papai, eu vou me casar com Ceclia, com ou sem seu consentimento!

- Se voc se casar, no ter um real do que  meu. Eu o deserdarei! Meu dinheiro jamais ir parar nas mos de Maciel! Nunca! Filho ingrato! Veja a paga que estou
recebendo por tudo quanto fiz por voc!... Mas, fique avisado: excluirei voc de meu testamento e no darei um tosto para o seu casamento. Quero ver como vo
se arranjar: noivo sem um nquel e noiva miservel! Ser um bonito casamento!

Edmundo se retirou para seu quarto. Malu, que ouvira a discusso, foi consol-lo.

- No ligue, Edmundo, o tio muda de idia, isso passa.

- No sei, Malu, nunca vi meu pai assim. Ele odeia a famlia Maciel h anos. Se  verdade o que ele disse.. . sobre a situao financeira do senhor Maciel, ento
vai ser difcil fazer meu pai mudar de idia. E como eu poderei me casar, do jeito que estou? No sou formado ainda, no trabalho.. . Manter a famlia, com que?

- Tudo se arranja.. . voc termina os estudos e comea a clinicar. Voc vai ganhar a vida, Edmundo, ento vocs se casam.

- Ceclia precisa de mim agora, Malu. Ela no pode esperar at que eu me forme. Falta muito tempo. Se for verdade o que meu pai disse, preciso me casar o mais
breve possvel

- Mas como pode ser? Ceclia e o senhor Maciel no podem estar em to m situao assim: voc precisa ver as compras que ela fez para o aniversrio! V falar com 
Ceclia, voc vai ver como ela desmente tudo...

- Acho boa idia, Malu. Acho que vou l antes do jantar.

Ceclia ainda examinava as mercadorias entregues uma hora antes, quando Narciso veio avisar que Edmundo acabava de chegar; surpreendeu-se e se alegrou ao mesmo tempo
com a visita inesperada.

Narciso voltou com a resposta de que Ceclia desceria num instante e Edmundo continuou conversando com Barreto.

- Venho justamente para falar com Ceclia sobre o que meu pai anda dizendo, senhor Barreto. Ela ainda no sabe que ele se ope ao nosso casamento... Ele afirma
que a situao financeira do senhor Maciel  das piores.  verdade, senhor Barreto?

O procurador Barreto estava numa situao delicada e no sabia o que responder. Preferiu responder  sua maneira: evasivamente.

- Bem, dificuldades, quem no as tem hoje em dia? O que importa  se sabemos ou no contorn-las e encontrar a soluo adequada para cada problema...

Olhou para Edmundo para ver se ele estava satisfeito: no estava, mas, tambm, no insistia, por isso, Barreto no continuou. Ceclia estava descendo a escada e
Edmundo se dirigiu para ela.

- Surpresa?

- Agradavelmente, Edmundo. Voc 

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adivinhou meu pensamento. Preciso falar com voc. Que bom que voc veio. Foi Malu que avisou

voc?

- Ela me aconselhou a vir falar com voc; no me disse que voc queria falar comigo.

Barreto se afastou discretamente.

Ceclia e Edmundo saram para o jardim. Conversavam, enquanto andavam. De longe, de uma janela da biblioteca, Barreto os observava, imaginando o que os dois poderiam
decidir - no havia muitas alternativas.

- Ceclia, papai andou dizendo uma coisas. .. sobre a venda de sua casa...  verdade?

A resposta foi um aceno de cabea. Ceclia, triste, mas j resignada, diante do fato consumado, continuou:

- J est feito, infelizmente. Papai perdeu tudo, Edmundo, tudo! S temos a casa da praia... vamos ter que mudar para l, dentro de uns meses.

- Meu amor, voc no merece sofrer esta humilhao... imagino quanto voc tem sofrido. Tenho que falar novamente com meu pai... ele tem que compreender que. ..

- Edmundo, por que falar novamente com seu pai? Por acaso ele...

Ceclia no precisou terminar a pergunta - os olhos de Edmundo revelavam tudo.

- Meu pai ameaou deserdar-me, Ceclia, se ns nos casarmos. Mas eu o convencerei, tenho que convenc-lo a mudar de idia!

- Mas, por que, Edmundo, por que?



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-- Eu tambm no sei bem.. . meu pai anda muito estranho ultimamente. Parece-me que ele guarda um certo ressentimento contra o senhor Maciel por causa de uns negcios
passados. . . coisa de muitos anos atrs. Mas, o importante, agora, meu amor,  que preciso de meu pai - sem ele, no tenho recursos para o nosso casamento, para
montar nossa casa.. . Quero dar a voc o que voc merece, Ceclia.

Ela apoiou a cabea no ombro de Edmundo - Ceclia pressentia uma tormenta e precisava da segurana que a presena de Edmundo lhe trazia.



- Senhor Maciel, sejamos prticos: Jorge Amarante no consente que o filho se case com dona Ceclia - j o disse mais de uma vez, ameaando deserdar o filho, caso
seja desobedecido. Portanto,  um casamento impraticvel, j que ambas as partes se encontram desprovidas de recursos para arcar com as despesas. . . Alm do mais,
dona Ceclia est acostumada a um alto nvel de vida, que o jovem Edmundo no poder manter. Senhor Maciel: a soluo  arranjar-mos outro partido para dona Ceclia!

Havia mais de uma hora que os dois homens conversavam. Barreto tentava convencer Maciel. Embora fosse generalizada a praxe dos casamentos arranjados entre as famlias,
para salvaguardar interesses, o pai de Ceclia lhe tinha muito amor, o que o fazia hesitar em concordar com a posio fria e realista de Barreto, temendo ferir



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a filha, a quem tanto fazia sofrer. Maciel tinha diante de si um dilema: se, de um lado a lgica o levava a reconhecer que Barreto tinha razo, de outro o respeito
pela filha o impedia de contrariar o seu amor por Edmundo.

- Se o senhor no quer tomar a deciso j, pelo menos permita que tentemos resolver a questo. Tenho um nome para..  noivo de dona Ceclia - Maciel o olhou surpreso
- e acredito, senhor Maciel, que o senhor no se opor.  o melhor partido da cidade... e tenho minhas razes para acreditar que no se incomoda se a noiva tem ou
no um dote.. .

- Barreto, no me faa segredos. Diga logo o nome!

-  um moo de quem o senhor certamente h de se lembrar: Fernando Albuquerque!

Maciel, estupefato, olhava Barreto.

- Fernando Albuquerque, o fazendeiro, a quem Ceclia tanto detesta?

- Exatamente: Fernando Albuquerque, o moo mais rico e capaz destas bandas, fazendeiro progressista, elogiado pelos homens do governo, comentado pelos jornais!
 o melhor marido para dona Ceclia Maciel!

- Mas, Barreto...

Barreto no deixou que Maciel o interrompesse.

- Alis, j tomei a liberdade de convid-lo para o aniversrio de dona Ceclia - Maciel ameaou reprovar - bem sei, bem sei que devia t-lo consultado antes, senhor
Maciel, mas como

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eu tenho estado freqentemente com Fernando Albuquerque. ..

- Voc tem estado freqentemente com ele?

- Bem, corrigiu Barreto, algumas vezes nos encontramos na cidade e nos cumprimentamos ou trocamos algumas palavras. Como Fernando Albuquerque tem demonstrado
muito interesse por dona Ceclia, convidei-o, certo de que receberia a sua aprovao...

- Ainda acho que voc agiu intempestivamente - minha filha deveria ter sido consultada. Afinal  ela quem organiza a festa. Mas, o que est feito, est feito. Deixe
por minha conta que eu a avisarei... Quanto ao casamento de minha filha...

- Sugiro que esperemos que o tempo coloque as coisas no devido lugar, senhor Maciel, Vamos esperar e ver o que acontece...

Maciel no respondeu, o que significava um assentimento tcito. Mcs uma vez Barreto usava da manha e esperteza que desenvolvera no decorrer dos anos, como procurador
da famlia Maciel: na verdade, no seu ntimo, Barreto no tinha a pretenso de esperar que o tempo definisse a situao e decidiu encontrar-se - casualmente - com
Jorge Amarante.

O que era muito fcil - Amarante passava todas as tardes pela farmcia So Pedro, no largo Corao de Jesus, aparentemente para bater um papo com amigos, mas, na
verdade, com a inteno de folhear os jornais que a sua extrema avareza no lhe permitia comprar.

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- Boa tarde, senhores.

- Boa tarde, senhor Amarante.

A farmcia era o ponto de encontro dos homens das redondezas do largo. O assunto das conversas comeava sempre com poltica e descambava invariavelmente para os
negcios. Era quando Amarante despregava os olhos dos jornais e se punha  escuta,  espera de uma informao que lhe permitisse qualquer investimento rendoso. Hoje
a conversa estava desinteressante e a chegada de Barreto viera, de certo modo, alegrar Amarante - era a ocasio de sondar o amigo, para ficar sabendo da reao de
Maciel.

- Ento, senhor Barreto, que novidades o trazem?

- Sade, senhor Amarante, sade. Tenho que admitir que os bons anos j esto para trs... agora  preciso fazer face  realidade e carregar o peso que a idade
traz. Veja o senhor: de uns dias para c, apareceu-me uma dor na espinha que me tem feito sofrer e um amigo me informou que esta farmcia tem um unguento que  tiro
e queda. Este  o motivo de minha vinda... Alm do mais, quero ver se acho um bom colrio para meus olhos, mais cansados a cada dia que passa. Tenho vontade de consultar
um bom oculista, mas o nico realmente capaz e que goza de boa reputao trabalha no Rio de Janeiro... e minhas ocupaes no me permitem fazer uma viagem apenas
para uma consulta. Por outro lado, no posso traz-lo aqui: esses especialistas so muito ocupados! Teria que pagar

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uma fortuna para trazer um mdico a So Paulo... por isso, vou remediando com colrios.. .

Amarante comeou a se interessar pela conversa e Barreto, percebendo, continuou:

- A propsito, seu filho est fadado a se transformar num desses mdicos endinheirados... nada como um curso na Europa para dar prestgio, senhor Amarante! E conhecimentos,
tambm! Ainda est de p o plano de enviar seu filho  Frana?

- Bem, na verdade, eu. . .

Barreto, a velha raposa, sabia que Amarante ia dizer que no tinha a inteno de enviar Edmundo  Europa porque os gastos seriam muito grandes e outras coisas. Mas,
antes que o velho avarento continuasse, Barreto o interrompeu, dando  conversa o rumo desejado.

- Ora, senhor Amarante, isso no  mais segredo! O senhor faz muito bem em dar a seu filho a oportunidade de aprender com os melhores professores da Europa! Um
mdico formado na Frana ou na Alemanha j comea a carreira com prestgio, tem clientela boa, selecionada, gente grada e. . . que pode pagar!  um grande investimento,
senhor Amarante, um grande investimento que comear a frutificar em menos de um ano! Alm do mais, o senhor daria a seu filho mais tempo para pensar melhor sobre
casamento - a distncia e a separao por uns meses faro bem tanto a Edmundo como a dona Ceclia!

- Vou pensar sobre isso, senhor Barreto. O senhor me surpreendeu: pela ltima conversa



que tivemos, pensei que desejasse o casamento de meu filho com Ceclia para breve. . .

- Sou realista, senhor Amarante. Na verdade, estou defendendo os interesses de dona Ceclia . . .



E Barreto estava sendo sincero.

O fato de estar tramando o rompimento ou a separao de Ceclia e de Edmundo no representava uma traio, aos olhos de Barreto. Sua funo de procurador da famlia,
acrescida das responsabilidades que Maciel aos poucos lhe passara, dava-lhe autoridade moral para agir de modo a preservar o nome e o prestgio dos Maciel, o que
s vezes o obrigava a jogadas arriscadas e astuciosas. Separar Ceclia e Edmundo? Eram jovens, podiam esperar uns meses. Se o amor fosse verdadeiro, resistiria.
Caso contrrio, melhor para os dois. Quanto a introduzir Fernando Albuquerque na famlia Maciel, nada mais normal - era um moo empreendedor, bem conceituado e rico,
 altura da posio social de Ceclia, embora no fosse um homem diplomado. Dera, porm, evidentes sinais de boa educao e de uma cultura muito acima daquilo que
geralmente se espera de um fazendeiro. Sabia fazer amigos e cativava as pessoas pela sua expontaneidade - ali estava a prova: Fernando Albuquerque, numa roda de
banqueiros, industriais e comerciantes, autoridades e intelectuais, perfeitamente integrado no mundo da alta sociedade.

Sucesso absoluto, o aniversrio de Ceclia -

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Lineu Maciel estava revivendo os tempos faustosos: abrira mo de boa quantia do dinheiro depositado no banco; queria dar a Ceclia uma festa da qual ela jamais se
esqueceria. Talvez fosse a ltima festa - mais razo para ser uma grande festa. A prodigalidade do pai surpreendera Ceclia, assim como o nmero de convidados. Ficara
ligeiramente aborrecida quando, recebendo as pessoas que chegavam, juntamente com o pai, foi anunciado o nome de Fernando Albuquerque, a quem Ceclia tratou com
a mesma frieza j demonstrada no teatro, o que Fernando parecia no perceber ou no saber interpretar: um sorriso seco, uma ligeira vnia e depois um olhar vago
para os lados. A chegada de Edmundo apagara o aborrecimento de Ceclia. Vinha acompanhado de Malu - Amarante no pudera vir e pedia desculpas. Malu trouxe flores
e Edmundo deu a Ceclia um embrulho, que ela disse querer abrir juntamente com o noivo, mais tarde - uma criada uniformizada recebia os presentes e os deixava na
biblioteca. Depois que a maioria dos convidados tinha chegado, a orquestra atacou uma valsa e os pares foram se formando no meio do salo. Em poucos minutos o baile
se animou e Ceclia teve que atender a vrios pedidos de dana, entremeando uma ou outra com Edmundo.

Quando, a orquestra recomeou, depois de um curto intervalo em que os convidados se refrescavam com uma taa de champanha francesa gelada, Fernando se aproximou
de Ceclia, aproveitando um momento em que ela estava



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desacompanhada - era a oportunidade que ele procurava:

- Dona Ceclia, a senhora me d a honra e o prazer desta dana?

Ceclia olhou-o sria e recusou:

- Perdo, senhor, mas estou muito cansada.

Virou-lhe as costas e se dirigiu para a biblioteca. Maciel e Barreto presenciaram a cena e trocaram olhares - o de Maciel parecia querer saber se Barreto ainda insistia
na idia de um casamento de Ceclia e Fernando Albuquerque.

Fernando voltou  roda de amigos e pouco depois se despedia de Maciel e Barreto.

- Magnfica festa, senhor Maciel. Sinto ter que sair j - amanh cedo tenho que voltar  fazenda.. .

- Foi uma honra t-lo em nossa casa, senhor Fernando. Venha nos visitar sempre que vier a So Paulo. Ser um prazer receb-lo.

- Muito obrigado. Senhor Barreto. . .

- Eu o acompanho at sua carruagem, senhor Fernando.

Barreto saiu com Fernando. Tentou explicar o procedimento de Ceclia.

- Senhor Fernando. . . quanto  recusa de Ceclia.. . talvez ela, como noiva de Edmundo Amarante, no tenha achado conveniente danar com outro moo. .
.

- Compreendo, senhor Barreto, compreendo. Barreto se esforava para ser prestativo e

apagar na mente de Fernando a m impresso da visita  casa dos Maciel.

- Senhor Fernando, casualmente vim a 

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saber que o senhor faz visitas a algum internado na Casa de Sade Santa Anastcia. Se eu puder ser til de alguma maneira, disponha deste seu amigo. O senhor sabe
- levar roupas, frutas. . .

- Fico muito agradecido, senhor Barreto, mas j no preciso mais fazer visitas  Casa de Sade... no vai ser mais necessrio.. . Dentro de alguns dias estarei
de volta a So Paulo. Eu lhe telefonarei. Boa noite.

Fernando entrou na carruagem, que se dirigiu para o Grande Hotel. Barreto voltou para a festa - a casa toda iluminada, as carruagens luzentes, puxadas por soberbas
parelhas de cavalos, cocheiros uniformizados, casais passeando pelo jardim - Barreto andava absorto e alheiado a tudo. Ao chegar perto da casa, pde ver, atravs
da janela da biblioteca, Ceclia e Edmundo - ela examinava os presentes que Edmundo abria, tendo o cuidado de ler os cartes que os acompanhavam.

- Aquele eu quero ver por ltimo, brincou Ceclia apontando o embrulho que Edmundo lhe trouxera. Quero que seja a ltima surpresa!

Edmundo passou a Ceclia um carto e ia abrir uma pequena caixa quando ela o interrompeu:

- Edmundo, esse no! No o abra - vou devolv-lo!

- Devolver um presente de aniversrio? Mas, por que?

-  de Fernando Albuquerque - um caipira atrevido que anda tentando me cortejar...

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coisa do senhor Barreto. J me mandou flores antes. ..

Edmundo se chocou com as palavras de Ceclia.

- Cortejar voc? Mas ele no sabe que voc j  noiva?

- Finge que no sabe ou no se importa. .. Quando ele me mandou flores, dei ordens a Narcisa para devolver mas o senhor Barreto, pelo visto, no o permitiu, do
contrrio Fernando Albuquerque no teria vindo aqui hoje. Vou falar com papai para que ele ponha um paradeiro nisso imediatamente... Edmundo, precisamos nos casar...
s vezes chego a ter medo, vergonha. . . quase me desespero!

Desaparecera a alegria do rosto de Ceclia. Ela se achegou a Edmundo, como a procurar proteo. Edmundo lhe pegou as mos e falou, olhando bem nos olhos de Ceclia:

- Meu amor, no h nada que eu deseje mais na vida do que casar-me com voc, t-la ao meu lado todas as horas do dia, faz-la feliz! Ningum impedir nosso casamento,
jamais! Fomos feitos um para o outro... voc  tudo o que eu quero! As coisas j comeam a melhorar - papai permitiu que eu v terminar os estudos na Frana - mais
alguns meses e eu volto formado! Ento poderemos nos casar! Eu estava ansioso para dar a voc a notcia.. .

Ceclia pareceu se entristecer mais ainda.

- Oh, Edmundo, voc se vai justamente

quando eu mais sinto necessidade de voc...

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no sei como vou conseguir ficar s tanto tempo!. ..

- Quem disse que voc vai ficar s? Edmundo fez uma expresso marota, intrigando Ceclia. Pegou o embrulho que trouxera, abriu-o e mostrou  noiva o seu presente:
um porta-jias dourado.

- Abra, disse Edmundo, aguardando a reao de Ceclia. Quando a tampa foi levantada, ouviu-se uma valsa, da caixinha de msica embutida no porta-jias. Na tampa,
uma fotografia de Edmundo.

- A nossa primeira valsa, exclamou Ceclia, emocionada. Edmundo, que idia feliz voc teve - nossa valsa e sua fotografia - o meu melhor presente!

Ceclia beijou carinhosamente Edmundo.

- Vou ter sempre o seu presente junto da minha cabeceira. Quero adormecer e acordar ouvindo nossa msica e olhando seu retrato. Quando voc parte?

- Ainda no estou bem certo, mas talvez leve uns dois meses - o ano letivo na Europa  desencontrado do nosso...

- Edmundo, voc ainda no me falou sobre seu pai... ainda continua contrrio ao nosso casamento?

- Est irredutvel... mas, no importa - depois que me formar no dependerei mais dele - ganharei a vida por mim mesmo. No vou permitir que nos separem, Ceclia!
Estou disposto a qualquer coisa para evit-lo!

Narcisa entrou esbaforida:



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- Sinhzinha, ela desmaiou. . . sinh Maria Luiza! Est no seu quarto. . .

Edmundo e Ceclia se entreolharam.

- Malu. . . que foi que houve, Narcisa?

- No sei, sinhzinha. Ela rodopiou e caiu. "Seu" Maciel levou o doutor Vieira.. . por sorte ele estava na festa!

Ceclia subiu s pressas para o quarto.

- Malu, que  que voc tm?

- Apenas um desmaio, dona Ceclia, respondeu o doutor Vieira. Dona Maria Luiza deve ter danado demais.

- j estou bem, Ceclia.. . desculpe o susto que lhe dei. ..

Malu estava recostada no travesseiro, plida, mas se esforava por sorrir.

-  aconselhvel a senhora tomar um dos comprimidos que lhe receitei. Mande busc-los em casa. Tome um, repouse um pouco.. . depois pode se levantar.

- Fique sossegada, Malu. Vou pedir a Edmundo que v busc-los.

Ceclia desceu e conversou com Edmundo. Para ganhar tempo, decidiram telefonar e pedir a Amarante que trouxesse o remdio. Ceclia subiu ao quarto para fazer companhia
a Malu e cruzou na escada com o doutor Vieira e Maciel, que levara o mdico ao quarto da filha. Enquanto descia a escada, doutor Vieira j tranqilizava os convidados
com sorrisos e acenos de mo, dando a entender que no era nada. E o baile recomeou. Pouco depois, chegava Jorge Amarante, acompanhando o filho, que tinha ido 

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esper-lo fora. Cumprimentou com acenos de cabea os convidados mais prximos. Maciel veio receb-lo.

- Boa noite, senhor Amarante.  um prazer receb-lo em minha casa. Lamento apenas as circunstncias que o trouxeram.. .

- Maria Luiza tem pouco juizo - est doente e teimou em vir ao baile. Eu quis impedi-la, mas ela est saindo ao primo: insistiu, mesmo contra a minha vontade.
.  a juventude de hoje no obedece aos mais velhos...

Amarante deixava claro que estava fazendo insinuaes a respeito de Edmundo. Maciel compreendeu. Levou Amarante at ao quarto de Ceclia e o deixou com a filha e
Malu.

- Se voc tivesse seguido meu conselho, no teria acontecido isto, disse Amarante para Malu, enquanto tirava do bolso o vidro de comprimidos. Teimou em vir danar,
apesar de doente como est... tenho gastado um bom dinheiro com os seus remdios e tenho o direito de esperar colaborao, j que obedincia eu no tenho nem de
voc, nem de Edmundo. ..

Amarante olhou significativamente para Ceclia - continuava com as insinuaes. Ceclia se sentiu ofendida e respondeu seco:

- Se o senhor se refere ao meu casamento com Edmundo, fique certo de que no adiantar nada se opor: ns vamos nos casar. No vou permitir que os atos de meu pai
nos prejudiquem - no sou responsvel por eles!

- Nem meu filho, foi a resposta dura de Amarante.



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Vina e Sofia j estavam preocupadas: Jacinto sara com a charrete para ir buscar Fernando na vila e h mais de duas horas j devia estar de volta.

- Pode ser que o trem esteja atrasado, tentou explicar Sofia.

- No ser melhor mandar um colono  vila. para saber?

Sofia estava para seguir a sugesto de Vina quando Tico veio correndo, acompanhado de Zu.za e gritando:

- Sinh Vina. . . dona Sofia! Meu pai vem trazendo "seu" Fernando... Candinha! "Seu" Fernando chegou!

Foi um rebolio. Se a chegada de Fernando sempre era aguardada com ansiedade, desta vez foi uma verdadeira festa, devido  sua ausncia prolongada. Vina abraou
longamente Fernando.

- Meu filho, eu estava to preocupada! Voc demorou tanto! Ns sentimos muito a sua falta! Foi tudo bem na cidade?

- Muito bem, me. Depois ns conversaremos com calma. Temos muito o que falar.

Sofia esperava sua vez de cumprimentar Fernando.

- Sofia, tem trabalhado muito? Fernando deu um abrao na prima.

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- Como sempre... e voc, fechou o negcio como queria?

- Em todos os detalhes... e tenho garantia de colocao de nossa safra de caf por cinco anos, a preos reajustveis!

A boa notcia aumentou a alegria geral, com exceo das crianas, que no se importavam com negcios.

- "Seu" Fernando, o que  que o senhor trouxe pr mim?

Tico estava impaciente e Zuza tambm. Fernando acariciou as cabeas das crianas e se dirigia para dentro de casa.

- Espere, Tico, que eu j vou abrir as malas. Vina queria saber tudo - por que Fernando

chegava to tarde: o trem estava atrasado?

- No, me, o trem chegou na hora.  que aproveitei e fui dar uma olhada nas terras do outro lado do rio - o Jacinto queria saber o que vou fazer l. Temos muito
trabalho pela frente. Vamos precisar empregar mais colonos...

Sofia se interessou:

- Podemos empregar l o dinheiro do negcio que voc fez, Fernando! Precisamos fazer casas para os colonos, limpar a terra para os cafezais ...

- Sofia, o dinheiro do negcio eu j empreguei. ..

Como Fernando no explicasse como nem onde, Sofia entendeu que no devia perguntar e calou-se, estranhando a atitude do primo. Vina no se interessou, j que no
tinha por hbito tratar de negcios da fazenda.



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Fernando subiu ao seu quarto e abriu as malas, diante dos olhos arregalados de Tico, Zuza e Candinha, a primeira a ser presenteada com uma boneca que fechava os
olhos, quando deitada. Zuza ganhou um trenzinho com dois vages, que tocava um sininho. Tico pegou o seu presente e o olhou, sem compreender: tinha quatro rodinha?,
como uma carruagem, uma capota sobre um banco e uma caixinha na frente, mas no tinha lugar para prender os cavalos. Fernando teve que explicar:

-  um automvel, Tico.  como uma carruagem que no precisa de cavalos - anda sozinho e faz um barulho dos diabos!

Tico notou uma chavinha ao lado do brinquedo. Fernando deu corda no automvel e o ps no cho - saiu andando em zigue-zague, passou debaixo da mesa, sob a cadeira
e se chocou contra a parede. Foi um sucesso - at Vina e Sofia vieram observar o brinquedo.

- Isto  que  um automvel, Fernando? E tem gente com coragem de andar nessa coisa louca? Eu jamais porei os ps numa coisa assim!

Vina parecia horrorizada e Fernando a tranquilizou:

- Me, isso  um brinquedo. O automvel  muito mais prtico e rpido do que uma carruagem. Muito breve vamos ter um por aqui. l h vrios em So Paulo.. . alguns
chegam a correr at quarenta quilmetros por hora!

As palavras de Fernando causaram espanto: um carro correndo a quarenta quilmetros por hora era uma coisa inimaginvel, difcil de 

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acreditar, mas, se Fernando Albuquerque falava, ento  porque era assim. No havia nada de que duvidar.

- Jacinto, disse Fernando, temos muito que fazer estes dias: vamos passar quase todo o tempo do outro lado do rio. Apronte as canoas porque vamos ter que transportar
muita coisa. Quero deixar tudo em ordem antes de voltar a So Paulo, dentro de dez dias.

Vina estranhou:

- Voc vai voltar para So Paulo, meu filho? Mal chegou e j fala em partir novamente. . .

-  preciso, me. Tenho muito o que fazer l. Os dias seguintes foram de muito trabalho.

Fernando, Jacinto e vrios colonos se levantavam de madrugada e s voltavam  noite. Transportavam para o outro lado do rio ferramentas, arados, carroas, mveis
e utenslios. As terras eram extensas e mal cultivadas - Fernando tinha que comear queimando o mato abundante e limpando depois, o que consistia em arrancar razes,
aplainar o terreno e, por fim, levantar cercas, para proteger dos animais as mudas de caf que seriam plantadas. Outra tarefa importante era determinar lugares adequados
para a construo de casas e de tulhas. Fernando pretendia tomar todas essas providncias em dez dias, para que o trabalho fosse executado mesmo sem a sua presena.

- Me, amanh eu volto para So Paulo. Devo ficar l uma semana, mais ou menos. Jacinto j est informado de tudo o que deve fazer do outro lado do rio. Voc, Sofia
- Fernando se 



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dirigia  prima, sentada  sua frente, durante o jantar - mais uma vez far o meu trabalho... s tenho voc...

Sofia concordou com um aceno de cabea - j estava habituada e sabia tudo o que tinha que providenciar: limpeza dos cafezais, pagamento dos colonos, compras, mas
no estava certa quanto ao que Fernando pretendia realizar com asterras recentemente adquiridas e o inquiriu:

- H alguma providncia a tomar a respeito das terras novas?

- No, Sofia, o Jacinto j sabe o que deve ser feito. No quero que voc atravesse o rio -  muito perigoso e h muito mato do outro lado. Deixe que o Jacinto cuide
de tudo. D a ele o que for preciso.

Fernando falava sem olhar para Sofia.

- Voc precisa mesmo ir  cidade, meu filho?

Fernando olhou lentamente para a me e deu

a resposta estranha:

- Preciso, me... H um ano que venho lutando e estou conseguindo o que quero... Dentro de pouco tempo no precisarei mais ir frequentemente a So Paulo.

Vina e Sofia se entreolharem - as duas tinham a mesma dvida...


Larcio estava generoso: decidiu procurar o padrinho por conta prpria, sem pedir recompensa. Entrou no Caf Girondino e foi direto ao dono no, seu conhecido.

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-  "seu" Tavares, me d licena de usar o telefone?

- Esteja  vontade, rapaz, respondeu o portugus.

Larcio retirou o fone do gancho, deu vriasvoltas na manivela, aguardou um instante e falou:

- Ligue-me, por favor, com a casa de Lineu Maciel.

Esperou que atendessem.

-  da casa do senhor Lineu Maciel? Pois, ento, chame por favor o senhor Barreto.. . sim, quem vai falar  o afilhado dele, o Larcio.

Outra espera, que Larcio aproveita para saudar com um aceno de mo um amigo que passa.

- Padrinho? A bno... olhe, padrinho, talvez o senhor tenha interesse em saber que Fernando Albuquerque est na cidade novamente... sim... eu o vi agorinha
mesmo... , no Grande Hotel, como da outra vez... at logo, padrinho.

Ceclia descia do seu quarto quando ouviu Barreto, ao telefone, repetir bem alto o nome Fernando Albuquerque, o que a fez parar por um instante e depois continuar.
Entrou na biblioteca no momento em que Barreto acabava de falar com Larcio. Ceclia ironizou:

- Ento, sempre falando a respeito de seu protegido, senhor Barreto? O caipira?

- Fernando Albuquerque, caipira? Fernando  um moo bem educado e culto, inteligente, rico e trabalhador... o melhor partido de que se tem notcia no momento...

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Ceclia ficou intrigada:

- Senhor Barreto, o senhor por acaso est insinuando que eu deveria escolher Fernando Albuquerque para marido?  isso o que o senhor quer dizer?

- Eu no disse isso, respondeu Barreto manhosamente. Mas a concluso a que a senhora chegou me parece muito feliz. Se a senhora se casasse com Fernando Albuquerque,
desapareceriam de vez todos os problemas da famlia Maciel. Ele j deu mostras de desejar cortej-la . . meio caminho andado.. .

Ceclia se enfureceu:

- Considero sua atitude, senhor Barreto, uma intromisso imperdovel na minha vida! Vou reclamar a meu pai. . . Eu sou noiva de Edmundo Amarante e vou me casar com
ele - j decidimos, Edmundo e eu - custe o que custar. Ningum nos impedir. Se Edmundo for deserdado pelo pai, aquele avarento, far a vida por si mesmo.
.. Edmundo tambm  inteligente e trabalhador!

Ceclia virou as costas a Barreto e subiu novamente para o quarto. Narcisa subiu atrs. Pouco depois, j inteirada do que se passara, voltou e recriminou Barreto
 sua maneira:

- Mec est fazendo a sinhzinha sofrer. .. Sinhzinha nasceu pr se casar com o moo Edmundo . . . Mec no deve molestar sinhzinha. . . Ela j tem sofrido muito
e mec fica piorando as coisas...

E se afastou, resmungando, j que Barreto no lhe respondia:

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- As pessoas invejosas lanaram mau olhado na sinhzinha... Vou fazer umas rezas fortes pr afastar os maus espritos desta casa...

Barreto deu de ombros - no adiantava responder a Narcisa. O que lhe interessava era encontrar Fernando Albuquerque e prend-lo na cidade o mximo possvel - Barreto
no desistira de fazer Fernando marido de Ceclia - apenas precisava de tempo, apenas tempo, pensava ele. E se dirigiu para o Grande Hotel.

- Senhor Fernando, como tem passado? Como vai a fazenda?

- Em ordem, senhor Barreto... mas, como o senhor me descobriu? Eu acabo de chegar... Haver por a algum servio de espionagem?

Apesar de Fernando estar pilheriando, Barreto explicou:

- Uma coincidncia, senhor Fernando. Meu afilhado, que mora aqui por perto, o viu chegar e me telefonou... J falei a seu respeito com ele, que precisa de um bom
exemplo - anda um pouco bomio, estuda pouco...

- Est na Academia?

- No terceiro ano de Direito... mas sei que perde muitas noites em serenatas... as notas andam baixas.

Fernando pareceu se interessar.

- O senhor disse, senhor Barreto, que seu afilhado faz serenatas... por acaso ele sabe cantar?

- Ah, nisso ele  exmio! Tem excelente voz e  muito requisitado para festas e serenatas... Pena que no estude com afinco...

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- Gostaria muito de conhecer seu afilhado, Onde posso v-lo?

- No largo So Bento. Ele mora l numa repblica. Podemos ir l agora, se o senhor quiser.

Seguiram pela rua So Bento, at ao largo, dobraram  direita e entraram pela segunda porta. Subiram a longa escadaria. Barreto bateu numa porta e entrou, sem esperar
resposta.

Um companheiro de Larcio dedilhava um violo e Larcio cantarolava. Estranhou a visita inesperada do padrinho:

- Ns estvamos descansando um pouco do estudo, desculpou-se Larcio, apontando os livros abertos sobre a mesa e a cama.

Barreto fez Fernando entrar tambm e o apresentou:

- Larcio, este  o senhor Fernando Albuquerque, o fazendeiro sobre quem j falamos. O senhor Fernando deseja conversar com voc...

- Muito prazer, senhor Fernando,  realmente uma satisfao conhecer pessoalmente uma pessoa em cuja pele se deseja estar...

Fernando riu com a piada de Larcio e simpatizou logo com ele.

- Larcio, preciso de sua ajuda. .. ou de seus prstimos: depende de como voc encarar a coisa. Eu gostaria que voc fizesse uma serenata. O senhor Barreto me
informou que voc tem excelente voz...

Larcio anteviu uns cobres extras.

- Pois no, pois no, senhor Fernando. Meu

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companheiro me acompanha. Sabemos vrias msicas...

- A msica eu j tenho, interrompeu Fernando. Voc teria que aprend-la.  composio minha...

Larcio se surpreendeu, o mesmo acontecendo com Barreto.

- O senhor comps a msica? E escreveu a letra? Ora, vamos ver... vamos ver!

Fernando passou a Larcio um papel pautado, com a msica e a letra da sua cano. Larcio solfejou a msica - "laara, larilarilalala..." - bonita, bonita! Muito
bonita mesmo... em meia hora j a terei decorada... Para quem vai ser a serenata, senhor Fernando?

- Para Ceclia Maciel, Larcio, Ceclia Maciel. Faa hoje  noite a serenata...

A nica coisa que ocorreu a Barreto  que Ceclia iria ficar furiosa, mas, que fazer? A idia no era sua... era do prprio Fernando Albuquerque.


Ceclia puxou o cordo da campainha e pouco depois Narcisa entrou.

- Bom dia, sinhzinha. Dormiu bem? O dia est uma lindeza!

Narcisa abriu as cortinas e o quarto clareou com a luz que penetrava pelas venezianas.

- Narcisa, voc ouviu a serenata esta noite? A msica era linda!

- Ouvi, sinhzinha. O cantor era o Larcio, o afilhado do senhor Barreto. Quem ser que mandou fazer a serenata?

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- No sei, talvez Edmundo... no... Larcio. Barreto...  isso, foi ele... s podia ser ele, Narcisa! Vou me levantar e falar com o senhor Barreto - ele deve
saber!

Narcisa tentou descobrir!

- O fazendeiro que chegou ontem?

- Ele mesmo. Isto j est se tornando muito desagradvel! Vou acabar com isto de uma vez por todas!

Narcisa ajudou Ceclia a se vestir, sem conversar - quando estava zangada, Ceclia no admitia a tagarelice de Narcisa. E parecia que estava muito zangada.

- Narcisa, meu pai j se levantou?

- Sinhzinha... seu pai chegou de manhzinha. .. estava bravo... no falou com ningum - subiu para o quarto e no saiu ainda.

Foi um choque para Ceclia - da ltima vez que acontecera a mesma coisa... Os pensamentos se sucederam com rapidez extraordinria: o pai passara a noite fora...
estava de mau humor. .. se fechara no quarto sem falar com ningum! Ceclia correu para o quarto do pai e bateu. No ouviu resposta. Abriu a porta e entrou. Mal
o viu, gritou:

- Narcisa! Chame o senhor Barreto! Depressa!

Narcisa correu escada abaixo. Ceclia mal acreditava no que via. o pai, surpreendido, se voltara e olhava a filha de um modo estranho - parecia um animal acuado.
Tinha na mo um envelope aberto, com uma folha dobrada. Sobre a escrivaninha, o revlver. No trocaram uma 

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palavra - Ceclia entendeu tudo e Maciel o percebeu. Aquela descoberta repentina da pequenez e da misria do pai enterneceu Ceclia at ao pranto - as lgrimas brotaram
e escorreram mansamente pela face da moa, que se aproximou do pai, tirou-lhe lentamente o envelope da mo, rasgou-o e jogou os pedaos na cesta de papis. Quando
ia guardando o revlver, Barreto surgiu  porta e tambm compreendeu o que se passara. Ceclia abraou o pai e ambos desataram em prantos. Entre os soluos, Ceclia
ia dizendo ao pai o que tinha acontecido, como se tivesse presenciado todos os fatos:

- O senhor jogou esta noite... perdeu.. . o resto do dinheiro... a casa da praia... tudo. .. tudo! Tudo!...

Barreto voltou para a biblioteca. Pouco depois Ceclia descia. Parecia outra mulher - firme, decidida.

- Senhor Barreto, quero falar com Edmundo. Por favor, me deixe s por uns instantes...

Barreto saiu e fechou a porta. Ainda pde ouvir Ceclia pedir  telefonista a casa de Jorge Amarante.

Meia hora depois, Edmundo chegava. Ceclia o encontrou no jardim e comearam a conversar. Ora andavam, ora se sentavam. Estiveram juntos a manh inteira. Quando
Edmundo partiu, perto do meio-dia, estava abatido e pensativo. Ceclia procurou Barreto e lhe disse simplesmente:

- Senhor Barreto, quero que o senhor 

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convide Fernando Albuquerque para jantar conosco... hoje!

Barreto, o calmo, o ponderado, o inabalvel Barreto, teve um sobressalto. Estava preparado para tudo, menos para ouvir de Ceclia Maciel aquelas palavras. Para se
refazer, apoiou o rosto nas mos, com os cotovelos sobre a escrivaninha e ficou quieto, ouvindo os passos de Ceclia que subia a escada. Recuperou-se do choque,
levantou-se e se dirigiu ao Grande Hotel.

Por fora da sua funo de procurador da famlia Maciel h anos, Barreto desenvolvera com o tempo uma capacidade rara de observar e tirar dedues, baseado no que
se poderia quase chamar de intuio. Acostumado que era a ver os fatos interligados com coerncia, Barreto estava preocupado: no caso presente, as peas no se encaixavam.
Por exempfo: Fernando Albuquerque,, moo, rico, inteligente e simptico, sem favor o meinor partido de todo o estado, insistindo em cortejar uma moa que o despreza
publicamente; Ceclia, a altiva, aps se entender com o noivo, convida Fernando para sua casa, dando a entender que aceita a corte do fazendeiro - o que de certo
modo era o desejo do prprio Barreto - mas, o que mais se estranhava era a mudana repentina de Ceclia; por fim, Edmundo... estaria de acordo com a noiva? Quanto
mais Barreto repassava mentalmente todos os fatos, mais convencido ficava de que havia algo de anormal - incoerncia total.

" - Quero falar -com o senhor Fernando 

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albuquerque, disse Barreto ao porteiro. Meu nome  Nicolas Barreto.

- Pois no, senhor. Vou mandar chamar o senhor Fernando.

Poucos instantes depois, Fernando desceu as escadas e se encontrou com Barreto no saguo do hotel. Cumprimentaram-se e saram para a rua. Quando Fernando soube do
convite, no pde esconder uma certa satisfao ntima que no passou despercebida  argcia de Barreto.

- Senhor Barreto, o convite que o senhor me traz  uma honra imensa. Estarei na casa de Lineu Maciel s seis da tarde.


Jorge Amarante voltava para casa excitado aps ler no jornal a notcia do noivado de Ceclia Maciel e Fernando Albuquerque. - "Ento  por isso que Edmundo anda
arredio e calado ultimamente", pensava ele, "meu filho decidiu seguir meu conselho e romper o noivado... e deixou transparecer que o rompimento partira da noiva...
ainda bem, assim ela no fica em m situao... Edmundo foi esperto... est saindo ao pai..."

- Edmundo, estou satisfeito com voc, por ter rompido com Ceclia Maciel... apenas estou sentido por saber dos fatos atravs dos jornais. Malu... tambm j sabe?

Edmundo fez que sim, com a cabea.

- Ah, ento era um compl... todos sabiam, menos o pai... que paga tudo, que sustenta todos. Mas, no vou me amofinar por causa disso.

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estou contente, muito contente com a sua deciso. Voc deu prova de ser esperto aquele casamento no convinha aos Amarante .. Edmundo ouvia sem dizer
palavra.

- Pai, j  tempo de fazermos os exames mdicos de Malu... o senhor prometeu que em algumas semanas disporia do dinheiro necessrio, no podemos esperar mais
.

- Est bem, est bem! Pois faa os exames ... seu pai paga .. afinal  s para isso que recorrem a mim nesta casa!

Realmente Amarante prometera a Edmundo dar-lhe o dinheiro logo aps a recomendao do doutor Vieira, mas, as semanas se passaram e Amarante sempre alegava que no
tinha a quantia suficiente, que se aguardasse mais uns dias. Na verdade, Amarante tentou de todos os modos conseguir fazer os exames de graa, atravs da recomendao
de amigos, mas sempre encontrou dificuldades pela frente, devido ao fato de ser notria a sua avareza. Agora, no havia outra sada: tinha que pagar.

Edmundo passou a sair freqentemente com Malu, para acompanh-la ao mdico. Tornaram-se mais amigos ainda, passeavam pela cidade e Edmundo levava a prima quase todos
os dias  casa de Ceclia, sem entrar, todavia - no lhe ficava bem voltar  casa da ex-noiva, aps o rompimento.

 medida em que se aproximava a data do casamento de Ceclia e Fernando, mais se amiudavam as visitas de Malu a Ceclia. As duas amigas passavam horas juntas, acertando
detalhes do

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casamento, visitando costureiras, fazendo compras, acompanhando a confeco do enxoval

Sabedor da real situao dos Maciel, Fernando autorizara Barreto a pagar todas as contas da famlia e lhe enviava dinheiro de tempos em tempos. A altivez costumeira
de Maciel e Ceclia se mantinha atrs de uma cortina de silncio - ningum comentava o fato de que Fernando Albuquerque sustentava a casa dos Maciel. No ntimo,
tanto Ceclia como Maciel, sofriam terrivelmente com a humilhao, mas escondiam o seu amargor, numa tentativa desesperada para destruir pelo esquecimento a desgraa
que se abatera sobre aquela casa. Neste estado de coisas, Fernando Albuquerque era considerado como um mal necessrio - todos recorriam a ele, detestando-o, era
o que Barreto pensava.

Vina estranhara profundamente o fato de Fernando voltar de So Paulo e avisar simplesmente que estava noivo e que ia se casar - Fernando jamais procedera assim -
sempre consultara a me sobre os assuntos mais corriqueiros. Agora, quando decidia se casar - a deciso mais importante da vida de um homem - Fernando nada mais
faz que avisar que j tem noiva e data marcada para o casamento. Sofia tambm teve um abalo e no pde esconder sua tristeza - intimamente, esperava um dia casar-se
com Fernando. Comentou com Vina a deciso de Fernando, censurando-o levemente por escolher uma moa da cidade, que jamais se acostumaria com a vida da fazenda.

Sempre que tinha oportunidade Vina falava



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de Ceclia com Fernando, tentando formar uma imagem da futura nora atravs da descrio do filho. Chegando s vsperas da partida para So Paulo, Vina foi acometida
de fortes dores na espinha, impedindo-a de andar e, consequentemente, de partir com o filho para So Paulo. Fernando a consolou, prometendo mandar fotografar todas
as fases da cerimnia para a me ver como tinha sido o casamento. Como Sofia no podia acompanh-lo, devido ao trabalho na fazenda, Fernando partiu s. Jacinto
foi levar o patro  vila, na hora do trem. Fernando acertou com Jacinto o dia de sua volta - no dia do casamento, aps a recepo na casa de Maciel, tomaria o noturno
com Ceclia e chegaria de manhzinha. Ficaria dois dias e depois comearia a viagem.

Chegando a So Paulo, Fernando chamou Barreto, para saber como iam os preparativos.

- Tudo em ordem, senhor Fernando. Tudo como foi planejado. Vai ser o casamento do ano. A cidade no comenta outra coisa...

- E Ceclia... mais tranqila? Barreto pensou para responder.

- Bem... dona Ceclia parece muito cansada. .. o senhor sabe, os preparativos - enxoval, festa, convites, convidados... felizmente dona Maria Luiza a ajuda muito:
costura muito bem e ajuda dona Ceclia a supervisionar o trabalho das costureiras.

- Malu  uma moa muito prestativa... como est ela de sade?

- Ainda no se sabe ao certo... parece que Jorge Amarante no permite que a menina faa



todos os exames prescritos pelo mdico. Comentou-se at que o filho de Amarante - Barreto olhou para Fernando - Edmundo, adiou a partida para a Europa e gastou parte
do dinheiro da viagem com os exames da prima...

Fernando estranhou todos estes detalhes:

- Como  que o senhor sabe de tudo isso, senhor Barreto? Quem comenta essas coisas?

- Bem... dona Ceclia. Como ela e dona Maria Luiza esto sempre juntas,  muito normal que fique sabendo desses fatos... o senhor sabe como so as mulheres...

Fernando ficou pensativo e no conversou mais. Barreto julgou melhor se despedir.

- Ento, at logo, senhor Fernando. Ns o esperaremos para o jantar.

De fato, Fernando combinara que iria  casa de Maciel  noite, quando se encontraria com Ceclia - acertariam os ltimos detalhes para o casamento, no dia seguinte.
O resto da tarde seria aproveitado para uma ltima visita ao alfaiate, que j devia ter pronta e ajustada a casaca, encomenda um ms atrs. Era preciso tambm contratar
os fotgrafos, segundo promessa feita a Vna, comprar presentes para as crianas e encomendar as ferramentas para a fazenda. Fernando tinha uma tarde cheia - se
no se apressasse, no faria tudo o que tinha que ser feito.


Apesar de todo o seu temperamento extrovertido, Larcio estava preocupado: nunca cantara para uma multido como aquela... muito menos para uma multido reunida dentro
de uma 

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igreja. O pedido de Fernando Albuquerque no podia ser recusado, por isso, l estava ele, Larcio, o farrista, o bomio, pronto para cantar no coro da igreja. Parado
junto da janela cheia de vidros coloridos, Larcio viu quando dobrou a esquina a primeira carruagem, toda enfeitada de flor de laranjeira, trazendo Ceclia e Maciel.
Atrs, os outros carros dos convidados - uns trinta, calculou Larcio.

A igreja estava cheia de gente e fora havia mais pessoas que se esforavam para entrar. Quando todos os convidados ocuparam os seus lugares, o rgo atacou a marcha
nupcial e Ceclia, levada pelo pai, se dirigiu para o altar, onde Fernando a esperava - deu-lhe o brao e subiram juntos os degraus do altar, at ao genuflexrio.

O padre deu incio  cerimnia.

Comeou falando sobre o Sacramento do Matrimnio e dos deveres e compromissos que os nubentes assumiam no momento - "o marido ser o pai, o amigo, o amparo e o abrigo
da esposa, que o seguir onde quer que v, por toda a vida, partilhando das suas alegrias e das suas dores, at que a morte os separe".

Se algum pudesse chegar bem perto de cada uma das pessoas que circundavam o altar e examinar-lhes as fisionomias e sondar-lhes os pensamentos, certamente teria
uma grande surpresa. Aquele figuro do governo, que vez por outra distribua sorrisos  esquerda e  direita, estava aborrecido com a cerimnia, desejoso de que
ela tivesse fim; a senhora, a seu lado pensava, 

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hipcritamente, se aquele casamento, cujo noivado no durara seis meses, no estaria escondendo alguma coisa; uma mocinha admirava o vestido da noiva; a outra, na 
idade
de casar, censurava Ceclia por aceitar Fernando Albuquerque, homem do interior, sem cultura; j uma terceira invejava a noiva; Maciel estava acabrunhado e se esforava
por parecer contente - acusava-se de entregar a filha por dinheiro, para sanar os males provocados por seus atos; Ceclia - e isto era o mais estranho - dominava
a custo uma raiva difcil de conter, uma revolta contra as circunstncias que a tinham levado at ao altar com Fernando Albuquerque, alvo de toda a sua repulsa;
por fim, o prprio Fernando - olhar vago, triste - parecia no ser o noivo, no ter nada a ver com o que se passava ao seu redor: o pensamento de Fernando Albuquerque
estava longe dali; recordava fatos distantes... emoes passadas que lhe tinham transtornado a vida...

Quando o sacerdote iniciou as oraes em voz baixa, ouviu-se do coro a voz bonita de Larcio, cantando: "Ave-Maria, gratia plena, Dominus tecum..." Barreto se surpreendeu
com a interpretao do afilhado: Larcio punha toda a sua alma na orao, apagando com sua voz os sussurros da multido que enchia a igreja.

Findara a cerimnia.

Fernando levava Ceclia pelo brao, at  carruagem enfeitada com flor de laranjeira, na qual Maciel trouxera a filha, que agora voltava com o marido.



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Iniciou-se o cortejo de volta  casa dos Maciel.

Os convidados saam na mesma ordem em que entraram, encontrando sua carruagem j  espera na porta da igreja.

Era noite e as ruas estavam cheias de curiosos que j tinham deixado o trabalho e vinham admirar o cortejo de belas carruagens. Reuniam-se em maior nmero junto 
dos
lampies de gs, cuja luz lhes permitia ver melhor o desfile de convidados para a festa de casamento de Ceclia Maciel.

A recepo foi feita no grande salo.

Fernando e Ceclia receberam os cumprimentos e se sentaram  ponta da mesa. Os convidados eram servidos pelos criados. Aos poucos as taas de champanha estrangeira
animaram o ambiente: o silncio formal do incio da recepo foi desaparecendo, dando lugar ao alegre bulcio das grandes reunies, misturado  msica alegre de
uma orquestra, colocada ao lado da escada.

Os pequenos discursos se sucediam, seguidos de brindes.

De um lado, Fernando conversava com um ou outro conhecido; do outro, Ceclia fazia o mesmo com amigas e senhoras de suas relaes. Os dois recm-casados mal tinham
tempo de trocar um olhar. As horas iam passando. Iniciou-se o baile, que entrou pela madrugada.

Maciel pediu licena aos amigos com quem conversava e subiu ao seu quarto - tinha uma surpresa para Ceclia: o colar de ouro que 

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pertencera  sua esposa passaria agora para a filha.

A porta do quarto estava aberta. Entrou esurpreendeu Narcisa colocando alguma coisa sob o travesseiro. A criada se assustou - no esperava que o patro subisse ao
quarto naquele momento.

Maciel percebeu algo de estranho no procedimento de Narcisa.

- Narcisa, o que voc est fazendo em meu quarto? O que voc ps a, sob o meu travesseiro?

Narcisa tinha dificuldade para responder:

- "Sirih" Maciel... Sinhzinha mandou.. .

Maciel empurrou Narcisa e levantou o travesseiro, sob o qual havia um envelope. Abri-o. Narcisa tentou impedi-lo de ler o que estava escrito:

- Patro... sinhzinha no quer que vosmec leia agora... Sinhzinha vai ficar brava comigo... no leia, patro.

Maciel no deu ouvidos  criada. Enquanto lia, deixou-se cair sentado na cama e Narcisa, pela primeira vez na vida, viu seu patro chorar. Saiu s pressas e foi
ter com Ceclia.

- Sinhzinha - Narcisa estava nervosa - o patro j sabe... j leu a carta... eu no tive culpa.. . fiz tudo como sinhzinha mandou, mas, o patro foi ao quarto
dele e me viu... o patro. .. est chorando!

Ceclia entrou no quarto do pai e fechou a porta.

Maciel, sentado na cama, dobrado para a



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frente, com as mos no rosto, sacudia-se em soluos incontrolados. Mais uma vez Ceclia se apiedou do pai. Achegou-se a ele, acariciou-lhe a cabea, abraou-o e
enxugou as lgrimas que lhe -corriam pelo rosto. Maciel se recobrou e, instantes depois, j podia falar.

- Ceclia, minha filha... sei que s tenho trazido infelicidade a esta casa, humilhao para o nome Maciel, tristeza para voc... mas, isto, Ceclia - Maciel
mostrava a carta - no faa isto, filha, pelo amor de Deus, no faa isto!

Ceclia continuava abraada ao pai, chorando baixinho.

- Tenho sido mau pai, um dissipado, viciado no jogo, sei que no tenho o direito de pedir a voc um sacrifcio, sei que no tenho autoridade moral para aconselhar
voc, minha filha, a agir de um ou de outro modo, mas posso lhe dar minha palavra de que jamais fui infiel  sua me! Por isso eu lhe peo, filha, no fuja com
Edmundo Amarante! Siga seu marido! No permita que .mais essa desgraa se abata sobre nossa famlia!

Fugir com Edmundo era o que estava decidido desde que Maciel tentara se matar. Ceclia compreendera que, para salvar o pai, a nica sada seria seu casamento com
Fernando Albuquerque, o fazendeiro rico que restauraria com sua fortuna a economia abalada da famlia Maciel, recolocando-a no lugar de destaque que sempre ocupara
na sociedade. Edmundo se opunha a princpio e Ceclia levou horas para convenc-lo: depois de casada com Fernando, fugiria com Edmundo - pouco importava o escndalo!


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Fernando, que j teria saldado todas as dvidas de Maciel, que fizesse o que bem entendesse.

Durante os meses em que estiveram sem se ver, Narcisa e Malu faziam s vezes de mensageiros entre Ceclia e Edmundo. Malu, chocada a princpio, custara a acreditar
que a amiga e o primo pusessem em execuo um plano to ousado. Com o passar dos dias, porm, embora a contragosto, levava e trazia recados, acertando detalhes do
plano de fuga. Edmundo, sob o pretexto de se preparar para a viagem para a Europa, conseguia do pai pequenas quantias de dinheiro, que, somado ao que conseguia ganhar
como tradutor de artigos cientficos, permitiria aos dois comearem uma vida modesta em algum lugar fora de So Paulo. Por que fugir aps o casamento e no um dia
antes? Porque, pensou Ceclia, aps o casamento, havia a possibilidade de Fernando abrir mo de parte de sua fortuna para conseguir uma separao. Se assim acontecesse,
Ceclia deixaria Maciel em boa situao financeira; escreveria uma carta ao pai, que s tomaria conhecimento do fato aps a fuga.

Aquela hora, Edmundo estava perto da casa de Lineu Maciel, escondido dentro de uma carruagem, que, aparentemente, esperava os convidados. Havia dezenas de carruagens
paradas. Ceclia deveria trocar de vestido e vir ter com Edmundo - nem o cocheiro a reconheceria no escuro. A bagagem, reduzida, j estava na estao - tomariam
o trem que ia para o norte, uma hora antes que sasse o outro no qual Fernando planejava viajar com Ceclia, de volta  fazenda,



Maciel j estava mais calmo. Levantou-se, abriu uma gaveta do armrio, tirou de l um estojo, contendo o colar de ouro guardado cuidadosamente desde a morte da
esposa. Sem dizer nada, aproximou-se de Ceclia e lhe colocou no pescoo o colar. Por uns instantes ficou parado, olhando Ceclia. Depois, recomps-se e saiu do
quarto, voltando para a festa.

Mal viu Maciel descer, Narcisa foi ter com Ceclia e a encontrou triste e pensativa.

- No vou mais, disse Ceclia. Avise Edinundo que no vou mais.

- Mas, sinhzinha... j est tudo preparado... "sinh" Edmundo est esperando... sinhzinha precisa ir, no pode partir para o mato . l sinhzinha vai ser infeliz!
Ainda  tempo. . .

- J decidi, Narcisa, no vou mais. Vou acompanhar Fernando Albuquerque.. . meu marido. .. para a fazenda. V avisar Edmundo e diga a ele que sempre ter
o meu amor. Jamais amarei outro a no ser ele!...

No havia o que discutir. Narcisa saiu pelos fundos e foi  procura de Edmundo, que j estava impaciente - se esperassem mais, perderiam o trem.

- Onde est Ceclia? Precisamos partir j" disse Edmundo ao ver Narcisa.

- Sinhzinha no vem mais... mandou dizer pr mec que no pode mais partir... "seu" Maciel descobriu tudo, sinhzinha ficou com pena dele... no vai mais fugir.
..

Edmundo mal podia acreditar.



- Impossvel, j est tudo planejado! Quero falar com Ceclia! V cham-la!

-- No adianta... Narcisa conhece sinhzinha. .. ela no volta atrs! Mas mesmo assim, Narcisa vai falar com ela... se ela no quiser vir, Narcisa d um sinal: fecha
a janela do quarto de sinhzinha.

Narcisa voltou para dentro de casa. Edmundo ficou de olhos na janela do quarto de Ceclia. Esperou. De repente viu o vulto de Narcisa surgir  janela... e fech-la.
Deu ordem ao cocheiro para lev-lo para casa.


Ceclia tentava dormir mas os solavancos do trem e as emoes vividas nas ltimas horas a impediam: cochilava e acordava aos sobressaltos. Fernando conseguira conciliar
o sono, recostado na poltrona - estava habituado a fazer aquela viagem todos os meses.

Cansada e abatida, Ceclia se julgava a pessoa mais infeliz do mundo - s e desamparada, longe do seu amor, casada com um homem a quem no amava, viajando para uma
fazenda, onde deveria morar, longe do conforto a que estava sempre acostumada.

Quando clareou, o chefe do trem veio avisar que o restaurante j servia o caf-da-manh. Como Ceclia recusasse comer qualquer coisa, Fernando foi s ao restaurante.
Quando voltou, trouxe consigo um garon, que serviu uma xcara de caf quente a Ceclia. Notando que a jovem 



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esposa estava um pouco retrada, Fernando atribuiu o fato ao cansao e deixou-a  vontade.

Na prxima estao, deveriam descer.

Quando o trem diminua a velocidade, j entrando na vila, Fernando, da janela, reconheceu ao longe a carruagem da fazenda parada perto da estao e distinguiu a
figura de Jacinto, na plataforma.

A vila inteira estava sabendo do casamento de Fernando e havia muitos amigos esperando o casal - a maioria, amigos de infncia de Fernando, que hoje o tinham em
grande estima. Tratavam-se com muita camaradagem, com abraos e palmadas nas costas. "Demorou mas escolheu bem", dizia um, referindo-se  beleza de Ceclia; "continua
o mais exigente da turma toda", dizia outro.

Esta faceta da personalidade de Fernando, Ceclia no conhecia ainda - estava se revelando alegre e jovial, agora que estava se revelangos. Na cidade sempre mantivera
uma atitude sria e formal.

Despediram-se dos amigos, entraram na carruagem e partiram para a fazenda. Fernando no tivera tempo de apresentar Jacinto a Ceclia. Quando saam da vila  que
se lembrou de falar sobre o empregado.

- Esse que est guiando os cavalos  Jacinto, o melhor empregado da fazenda... de confiana. Meu brao direito.

Ao chegarem junto duma porteira toda enfeitada com bandeirolas, Jacinto parou a carruagem - vrios colonos, com suas mulheres e filhos, 

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queriam cumprimentar os recm-casados. Fernando desceu e cumprimentou a todos. Abriu a porta da carruagem e apresentou Ceclia, que fez um aceno de cabea, retribuindo
os cumprimentos.

- A partir daqui, so nossas terras, disse Fernando apontando os cafezais dos lados da estrada. Ceclia parecia alheia a tudo e lanou para fora da janela um olhar
desinteressado.

Ao descortinarem a fazenda, Jacinto fez um aceno de mo e ouviram-se os primeiros fogos espoucando no ar. Os estouros se amiudaram  medida em que a carruagem se
aproximava da casa da fazenda.

Estavam todos reunidos,  espera.

Vina, Sofia, Candinha, Tico, Zuza e as famlias dos colonos.

Fernando desceu, abraou Vina e ajudou Ceclia a descer.

- Me, esta  Ceclia, sua nora.

-  muito bonita, meu filho. Ceclia, seja bem-vinda nesta casa que agora  tambm sua.

Fernando cumprimentou Sofia.

- Ento, Sofia, como vo as coisas?

- Vo bem... meus parabns, Fernando. Ela  muito bonita.

Vina apresentou Sofia:

- Esta  Sofia, minha sobrinha...

- Muito prazer, disse Sofia.

- Prazer, respondeu friamente Ceclia. Fernando, aps receber os cumprimentos da

gente grande, se via s voltas com as crianas. Tico lhe agarrava as pernas:

- Que bom que o senhor est de volta, dizia

 - -

Tico. Foi bonito o casamento? Foi? Dona Ceclia  muito bonita...  a moa mais bonita que eu j vi!

- Obrigado Tico, venha aqui com o Zuza que eu vou apresentar vocs dois a dona Ceclia - e. chegando-se com as duas crianas at  esposa - estes so Tico e Zuza..
. Zuza  filho de Jacinto. ..

- So bonitinhos, comentou Ceclia.

- Voc deve estar muito cansada, minha filha. Vamos entrar que eu vou mostrar o seu quarto... vocs precisam descansar. .. mais tarde ns conversamos.

S ento Vina deu por Candinha, parada, olhando Ceclia, boquiaberta. Vina estranhou:

- Que  que voc faz a, menina? Venha cumprimentar dona Ceclia!

- Nossa, sinh Vina, como dona Ceclia  bonita! Olha s o vestido dela que beleza! E as rendas... deve ter custado um dinheiro, no dona Ceclia? Por aqui
no h dessas coisas, no... ningum est acostumado... quando algum quer um vestido bonito mesmo tem que mandar buscar na cidade...

Ceclia olhava para Vina e para Candinha, sem saber o que dizer.

- Pr que  que eu fui mexer com voc, Candinha?. . . bem, Ceclia, agora voc j conhece Candinha, disse Vina. E continuou num tom de malcia:

- Sabe... ela  muito calada!... Jacinto - Jacinto ia passando com as malas - pode levar tudo para cima.

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Subiram direto para os aposentos destinados ao casal: trs cmodos pegados - o quarto de dormir, o de vestir e uma sala de trabalho para Ceclia, com uma pequena
biblioteca, que dava para os fundos da fazenda, com vista para o rio. Ceclia percorreu os aposentos com olhar crtico - instintivamente os comparava com os de
sua casa. Mostrava-se indiferente, o que era percebido por Vina e Sofia.

- Voc parece muito cansada, minha filha, disse Vina. Descanse  vontade. Ao meio-dia temos um almoo com todos os colonos - hoje  feriado na fazenda. Fernando
- Fernando acacaba de entrar no quarto - descanse tambm, filho.

- Eu deso daqui a pouco, me. Consegui dormir no trem. Preciso conversar com Jacinto.

Fernando ficou s com Ceclia. Fechou a porta do quarto. Ceclia desprendia o chapu de viagem, que protegia os cabelos contra a poeira. Fernando a olhou por uns
instantes e se aproximou dela, colocando-lhe as mos sobre os ombros. Ela se voltou bruscamente:

- Por favor, no me toque!

- Mas, Ceclia... - Fernando no compreendia a reao da mulher.

- "Dona" Ceclia, por favor, acentuou Ceclia.

- Voc deve estar cansada da viagem...

- A "senhora", insistiu Ceclia. Fernando estava cada vez mais confuso.

- Ceclia, ns estamos casados! Voc  minha esposa, eu amo voc!. . .



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- E eu amo Edmundo Amarante!

- Mas... ento, porque voc se casou comigo?

- No havia escolha, respondeu Ceclia, friamente. Meu pai estava na misria e ameaara se matar.

- Ento, concluiu Fernando, eu fui usado como o salvador da famlia Maciel. E por que ento a "senhora" no recorreu a Edmundo Amarante? O pai dele  rico...

- Jorge Amarante  um velho avarento. .. opunha-se ao casamento...

- E o filho, atalhou Fernando com certa ironia, muito espertamente obedeceu ao pai, temendo ser deserdado...

- Ns amos fugir, gritou Ceclia, furiosa com a insinuao de Fernando. Edmundo me ama!

- Iam fugir... quando?

- Esta madrugada!

- E por que no partiram?

Ceclia se ps a chorar de repente. Fernando insistia:

- E por que no fugiram? Os dois se acovardaram!. ..

- Eu... eu no tive coragem... meu pai descobriu durante a festa... e me pediu para no ir com Edmundo! Mas eu devia ter ido. .. devia ter ido!

Ceclia se estirou na cama, em prantos. Fernando andava de um lado para outro, no quarto. Quando Ceclia se acalmou, Fernando j sabia o que fazer.

- Minha me, - falou calmamente, - no

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deve saber de nada do que se passou aqui. Ningum deve saber. Vamos fingir que vivemos bem, at decidirmos o que fazer... passarei a dormir no quarto pegado. . .
assim no haver desconfianas. . .

Ceclia concordava com ligeiros acenos" de cabea.

Fernando desceu e foi ter com Jacinto, que j o esperava.

- Patro, preciso falar com o senhor sobre o "paiol". Acho melhor, agora que o senhor est casado, acabar com aquilo l. . .

Fernando estava pensativo e demorou a responder:

- No, Jacinto. . . deixe como est. . .

- Mas, patro. . .

- No importa, o "paiol" continua fechado. No deixe ningum entrar l, a no ser voc. Nem dona Ceclia. . . Como  que vai o trabalho do outro lado do rio?

- Tudo como o senhor mandou ... a casa j limpa e pintada. . . j levei os mveis. . . ningum da fazenda sabe. . .

- Muito bom, Jacinto. Vou dar um pulo at l agora. Venha comigo.


Edmundo estava decidido a partir o mais cedo possvel. Antes, porm, queria saber do real estado de sade de Malu, para tomar as providncias necessrias - sabia
que, se houvesse a necessidade de gastos, o pai certamente oporia alguma resistncia. Foi procurar o doutor Vieira,



que lhe prometera o diagnstico final aps receber os resultados dos exames. Voltou do consultrio tristonho e abatido, a ponto de Amarante notar. Mostrou ao pai
vrios papis.

- Segundo o doutor Vieira - Edmundo falava com dificuldade - Malu no tem muito tempo mais de vida...

Amarante examinava os papis sem entender. . . Edmundo continuou:

- Talvez um ano... dois no mximo.  uma anemia incurvel, progressiva. . . doutor Vieira j teve alguns casos iguais. Edmundo falava de costas para o pai, olhando
para longe, atravs da janela. Quando se voltou, viu Malu parada  porta.

- Malu! Voc... no ouvi voc chegar! Est c h muito tempo?

Malu chegou perto dele, preocupada:

- Edmundo, voc est plido! Est se sentindo mal?

- No  nada, - desculpou-se Edmundo, - estava discutindo com meu pai detalhes de minha viagem.. .

Amarante saiu da sala, perturbado.

- A verdade  que voc no pode esquecer Ceclia, no , Edmundo?

- Nem um minuto, Malu. . . jamais amarei outra mulher. Que surpresas a vida nos traz: a estas horas j devamos estar longe daqui, os dois, juntos para sempre,
no entanto. .. no entendo o que pode ter acontecido! Ceclia j tinha concordado em vir comigo...

Malu tentava consolar Edmundo:

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- Agora voc viaja e esquece tudo isso... Voc encontra outra moa...

- No igual a Ciclia, no igual a Ceclia, Malu. Meu amor por Ceclia  definitivo - jamais terei outro igual!

- Quando voc parte?

- Na prxima semana... Malu, voc precisa me ajudar - quero saber por que Ceclia desistiu de tudo  ltima hora. Escreva a ela ou, melhor, v passar uns dias
com ela na fazenda e depois me escreva tudo. Vou pedir permisso a meu pai. O passeio far bem a voc... o ar puro, o sol...

- Por que? Eu no estou doente. .. Edmundo caiu em si:

- No - mentiu - no est doente, mas precisa tomar sol. Voc est um pouco anmica... alm do mais Ceclia vai gostar da sua companhia. .. ela deve se sentir muito
s, sem amigas, sem o conforto a que est acostumada... casada com aquele sujeito...

- Est bem, Edmundo. Se o tio deixar, eu vou, se algum me levar. Vou falar com Narciso: quando algum for  fazenda, eu irei junto. Escreverei a voc toda
semana... o tio no vai gostar .. voc sabe: envelopes, papel, selos. . .

- No importa, deixo dinheiro com voc. Quando voc souber meu endereo - eu escrevo logo que chegar em Paris - avise Ceclia: quero que ela me escreva. Preciso
de voc, Malu.. .

Malu concordou com a cabea.

- Vou hoje mesmo encontrar Narcisa, disse Malu.



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Aquela hora Narcisa estava guardando em uma grande caixa a roupa que Ceclia no pudera levar. A caixa deveria ser despachada por trem. Continha vestidos, roupas
de cama e de banho, peas que faziam parte do enxoval novo de Ceclia. Enquanto trabalhava, Narcisa ia falando, sem ligar ao fato de estar s:

- Sinhzinha precisa das roupas dela... com certeza aquela gente da roa nem toalha decente usa... lenol deve ser de americano... sinhzinha vai ter tudo a
que ela est acostumada... enquanto ela estiver l...

- Ceclia vai morar sempre l, disse Maciel, parado  porta. Ela agora  esposa de Fernando Albuquerque...

Narcisa lanou a Maciel um olhar acusador:

- Contra a vontade dela... sinhzinha no vai se acostumar a viver no meio do mato... ela vai sair de l... sei de uma rezas fortes pr fazer sinhzinha feliz de
novo...

Maciel se impacientou:

- L vem voc de novo com essas rezas e mandingas... se ao menos adiantasse alguma coisa...

- Se minhas rezas no ajudam, pelo menos nunca prejudicaram sinhzinha, insinuou Narcisa.

Maciel se irritou com a indireta da criada, mas no disse nada: no fundo, sentia-se realmente culpado de ter entregue Ceclia a um estranho a quem a filha no s
no amava, como chegava a detestar.

Encontrou Barreto na biblioteca - Barreto queria falar-lhe.

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- Tenho uma encomenda do senhor Fernando, lhe disse Barreto. Ele me pediu que a entregasse somente aps o casamento.

Barreto passou a Maciel um envelope. Maciel abriu-o e se surpreendeu.

- Voc j sabia disso, Barreto?

Maciel tinha nas mos a escritura da casa... em seu nome - a casa era novamente sua!

- Senhor Maciel, s ontem eu fiquei sabendo da deciso do senhor Fernando de entregarlhe a casa... na verdade, o senhor Fernando  que a comprara... a estria do
ingls foi inveno minha - exigncia do senhor Fernando... no queria, a meu ver, conquistar a simpatia da famlia Maciel  custa de dinheiro.  um homem de muito
bons sentimentos...

- Estou surpreso, Barreto, estou muito surpreso, confessou Maciel, guardando a escritura na escrivaninha. Fernando Albuquerque  um homem singular.

"Singular", pensou Barreto, "hoje em dia  singular quem  honesto e bem intencionado".


- Ceclia est um pouco indisposta, Sofia; no vai descer para o caf. Decidimos suspender a viagem.

Fernando explicava  me e Sofia que a planejada viagem de npcias no mais ia ser feita. Sofia chamou Candinha e mandou-a preparar uma bandeja com o desjejum, para
levar a Ceclia.

- No  nada, me, apenas uma ind

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indisposio, disse Fernando, tentando tranqilizar Vina, Se houver necessidade, mandarei chamar o mdico.

Sofia subiu ao quarto de Ceclia com a bandeja de caf. Bateu levemente na porta e entrou depois de ouvir a voz de Ceclia.

- Seu caf... Fernando diz que voc no est se sentindo bem. Tome um pouco, voc vai se sentir melhor.

- Obrigada, disse Ceclia, recostando-se na cabeceira da cama.

Percebendo que Ceclia no dava mostras de querer conversar, Sofia se apressou em sair,

- Se voc precisar de mais alguma coisa, toque a campainha e a Candinha vir atend-la. Ela vai ficar  sua disposio...  um pouco tagarela mas  muito boa menina
e.. . outra coisa: agora que voc  a dona-da-casa, tudo deve ser feito  sua maneira -  s voc determinar...

- Se voc no se importar, respondeu Ceclia, gostaria que voc continuasse a dirigir tudo. No tenho a prtica que voc tem...

- Est bem... se voc prefere assim. .. Sofia ia saindo do quarto quando lhe ocorreu

algo: voltou-se e se certificou - na cama s havia um travesseiro, o de Ceclia!

Vina estava preocupada com o estado de Ceclia. Sofia a tranqilizou:

- Ela no est doente...  apenas uma indisposio passageira. O que talvez no seja passageiro  o desinteresse que ela mostra por tudo que diga respeito  fazenda
- Sofia lanou um olhar significativo a Vina - inclusive as pessoas. ..

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Vina no levou a mal a insinuao de Sofia, No seu ntimo, atribuiu o fato a algum ressentimento - no fundo, Ceclia era uma rival vitoriosa, uma estranha que se
tornava senhora da situao de um momento para outro. Vina compreendeu Sofia e tentou faz-la ver que ainda era muito cedo para formar um juizo a respeito de Ceclia:
a moa tinha tido tantas emoes nas ltimas horas, estava cansada da viagem, num ambiente estranho para ela, como era a fazenda - havia que esperar mais.

- Alm do mais, - concluiu Vina, - Fernando no escolheria a moa errada para se casar... eu o conheo muito bem.

Sofia no concordava, mas preferiu no discutir mais o assunto - o tempo diria quem tinha razo.

Os dias se sucederam e os fatos robusteceram em Sofia a opinio de que Ceclia se encontrava na fazenda a contragosto.

Primeiramente, a recusa de Ceclia de participar dos trabalhos da casa - ela se fechava horas e horas no seu quarto, lendo livro aps livro, sem conversar com ningum;
mesmo quando falava com Fernando, mostrava-se fria e lacnica. Logo no primeiro dia na fazenda, obrigara Candinha a usar um uniforme,  maneira das criadas da cidade,
o que era motivo de muita brincadeira da parte de Tico e Zuza. Certo dia Ceclia entrou em seu quarto e surpreendeu as duas crianas mexendo em suas coisas e as
proibiu de entrarem l sob qualquer pretexto, antipatizando-se



tambm com elas. Foi quando Tico, que no tinha papas na lngua, lhe declarou guerra:

- Nem eu nem o Zuza gosta da senhora. .. "Seu" Fernando devia de ter casado com dona Sofia que  boa pr ns... a senhora  muito ruim!...

A resposta desabusada valeu um castigo, imposto por Vina.

- No d importncia, disse ela a Ceclia, estas crianas so muito mal educadas.. .

- Eu no tinha pensado nisso ainda.. . disse Ceclia, divagando.

- Pensado em que?

Vina se fazia de mal entendida.

- Em Fernando e Sofia, respondeu Ceclia. Ela deve me detestar, roubei-lhe o futuro marido...

- Ora, no ligue a isso.. .  idia de criana. .. no sabem o que fazem.. .

- Justamente por isso so sinceras, emendou Ceclia. Todos aqui devem me ter na conta de uma intrusa...

- No pense nisso, Ceclia. Para mim voc  a esposa de meu filho e eu quero bem a voc como a uma filha...

O afeto de Vina no interessava a Ceclia e ela o deixou bem claro: virou as costas  sogra e foi ler seu livro na varanda. De l se podia ver o telhado do "paiol".
Como Candinha estivesse passando, Ceclia a interrogou:

- Candinha, aquele telhado  da casa de algum colono?

- No senhora,  do "paiol"... s "seu" Fernando e "seu" Jacinto entram l.. . "seu" Fernando guarda muita coisa l... s vezes ele 

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fica horas e horas l dentro... "seu" Jacinto tem uma chave mas no empresta pr ningum... nem pr dona Sofia.

A nica maneira de fazer Candinha parar de falar era mand-la fazer alguma coisa bem longe - foi o que Ceclia fez: mandou-a pegar uma carta que estava sobre a escrivaninha
do seu quarto e lev-la para Jacinto, para que ele a pusesse no correio. A carta era endereada a Maria Luiza Amarante.

Ceclia, pensativa, estranhou o fato de Fernando no permitir que Vina e Sofia entrassem no "paiol" e se ps a imaginar o que haveria l dentro... Decidiu consigo
mesma observar Fernando. ..

Realmente, aps chegar do trabalho  tardinha, Fernando se dirigiu para o "paiol" e l ficou mais de uma hora, at que soou o sino chamando para o jantar. Como j
escurecia, Ceclia viu l ao longe, pelas frestas do telhado, que uma luz se apagava e pouco depois Fernando chegava.

Vina se esforava sempre para animar a conversa durante as refeies. O assunto para o jantar foi o seu sonho:

- Sonhei que vocs - ela se dirigia a Fernando e Ceclia - tinham uma criana linda e brincalhona que era louca por mim.. . tinha olhos verdes como voc, Ceclia
e era morena como Fernando! Ah! Estou ansiosa pelo netinho!...

Vina olhou interrogativamente para Ceclia e depois para Fernando, que se julgou no dever de responder:



113

- Me. . . ainda no tive oportunidade de conversar com a senhora a respeito, mas. . . Ceclia no pode ter filhos!

A resposta de Fernando foi um choque apenas para Vina. Sofia, j certa de que os dois no se davam bem, tinha previsto a soluo, nica soluo,  qual Fernando
apelaria mais cedo ou mais tarde. Era o que acabava de acontecer. Vina terminou o jantar visivelmente decepcionada: nada falou mais, o que equivale a dizer que no
se conversou mais durante o jantar.


O navio respondeu ao apito do rebocador. Soltaram-se as ltimas amarras e, lentamente, o grande barco se afastou do cais. Uma banda tocava, atiravam-se serpentinas,
ouviam-se apitos, ordens gritadas, adeuses. Lenos e chapus eram abanados. A amurada estava atulhada de passageiros; entre eles, Edmundo acenava o chapu para Malu
e Amar ante. Malu chorava. Amarante estava impassvel.

Alguns minutos aps, o "Clyde", um dos grandes transatlnticos da Royal Mail, desaparecia na curva do canal.

Amarante e Malu tomaram o trem junto ao cais, em frente  alfndega.

A viagem de volta foi dolorosa para Malu. Edmundo tinha sido nos ltimos meses um refgio - servia-lhe de companhia, fazia s vezes de conselheiro, protegia a prima
como se ela fosse sua irm. Agora, Malu estava s, com 

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Amarante e toda a sua avareza - os dias  frente seriam mais negros do que nunca.

Chegando em casa, algumas horas mais tarde, Malu encontrou a carta de Ceclia. Abriu-a avidamente: dentro havia algumas folhas de papel e um envelope, destinado
a Edmundo. Malu se arrependeu de ter aberto a carta perto de Amarante. Ele pegou o envelope, abriu-o, sem ligar ao olhar de censura de Malu e leu a carta.  medida
em que ia se inteirando dos sentimentos de Ceclia para com Edmundo, dava risadinhas de satisfao, at chegar ao ponto em que Ceclia se dizia arrependida de no
ter fugido no dia do casamento. Foi quando Amarante deu vazo a todo o ressentimento que tinha h anos contra Lineu Maciel: ria, mostrava a Malu a carta, andava
pela casa, relia trechos, tornava a dar gargalhadas - Malu nunca vira o tio assim: parecia um louco. - Lineu Maciel... o baro... - entrecortava sua palavras com
gargalhadas - ... o baro conquistador de mulherinhas... a filha saiu ao pai!... Tal qual o pai!... Casada com um... quer fugir com outro... Maciel precisa saber
disto...

Malu no tinha o que dizer nem sabia o que fazer. S alguns minutos depois  que pde ler a carta que Ceclia lhe escrevera. Pedia-lhe que entregasse o envelope
a Edmundo e se confessava mais apaixonada que nunca por ele. "Isto aqui  horrvel, Malu! No tenho companhia, sinto-me isolada do mundo, no converso com ningum.
J li todos os livros que encontrei. A fazenda  totalmente isolada: no h vizinhos por



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perto e a vila fica a uns dez quilmetros... Meu nico divertimento  cavalgar de vez em quando  beira do rio. Espero trazer Narcisa para c o mais breve possvel.
Logo que Edmundo partir para a Europa, venha tambm ficar comigo. O ar do campo lhe far muito bem. Vamos ter muito que conversar".

Telefonar no resolvia: Amarante tinha que mostrar a Maciel a carta de Ceclia. Era o que ia fazer.

- Desejo falar com o senhor Maciel, disse ele  criada que o atendeu. Ele est?

Amarante no quis se sentar - estava nervoso, excitado: no era todo dia que se apresentava uma oportunidade como aquela! Maciel deveria corar de vergonha!

- Boa tarde, senhor Amarante, em que posso servi-lo?

Maciel e Barreto no esperavam boa coisa.

- Senhor Maciel, tenho a tratar um assunto de bastante gravidade... Talvez fosse melhor a ss com o senhor - Amarante mentia: na presena de Barreto a conversa seria
mais interessante para ele.

- No tenho nada a esconder de Barreto, respondeu Maciel. Ele  como se fosse da famlia. . . esteja  vontade.

Amarante estava  vontade. Tirou do bolso do palet o envelope e o apresentou a Maciel, enquanto falava:

- Recebi hoje, aps a partida de meu filho para a Europa, esta carta... felizmente meu filho no a leu.. .

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Maciel leu a carta. Sentou-se. As mos tremiam. Passou a carta a Barreto. Maciel suava e comeou a arquejar - era uma vergonha grande demais.

Os olhos de Amarante brilhavam de satisfao - conseguira o que queria: humilhar Lineu Maciel, o baro. Despediu-se cinicamente:

- Julguei de meu dever, senhor Maciel, preveni-lo do que se passa; do mesmo modo, peo-lhe chamar a ateno de sua filha, para que ela no estrague o futuro de meu
filho.. . Passe bem.

Barreto rasgou a carta e jogou os pedaos na cesta de papis. Reanimou Maciel com um pouco de conhaque.

- Quanto mais conheo esse senhor Amarante, mais o detesto, disse Barreto, enquanto abria a vidraa da biblioteca, para entrar ar fresco. No h dvida
de que  anormal: estava se deliciando em humilh-lo, senhor Maciel.

- Isto j vem de longe, Barreto. . . vem de muitos anos. . . e vai durar muito tempo ainda!!

O telefone tocou e Barreto atendeu. Era Malu.

- Muito boa tarde, dona Maria Luiza disse Barreto. A senhora como est passando? Pois no... vou chamar Narcisa.

Malu estava dando as notcias de Ceclia - queria saber quando Narcisa iria para a fazenda, para mandar notcias a Ceclia e avis-la do acontecido.

Ficou decidido que Narcisa iria para a fazenda o mais cedo possvel - Maciel e Barreto concordaram que a ida da criada faria muito



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bem a Ceclia. Escreveram para a fazenda, pedindo a Fernando que mandasse algum esper-la na vila, na semana seguinte.

Ceclia recebeu a notcia com alegria - a companhia de Narcisa lhe daria novo nimo para suportar a vida da fazenda.

No dia marcado, Jacinto estava na estao esperando por Narcisa. Foi fcil reconhec-la, pela descrio de Ceclia.

- Mec deve ser Narcisa, disse Jacinto. Pode me dar suas malas... a charrete est ali perto.

Narcisa no conversou durante o trajeto at  fazenda. De certo modo, partilhava do orgulho de Ceclia - considerava pouco a gente simples do interior. Como Jacinto
no a conhecia, pensou que talvez ela julgasse no ficar bem conversar com um estranho.

Ceclia mandara preparar um cavalo. Quando viu ao longe a charrete, montou e saiu em disparada ao encontro de Narcisa. Parou ao lado da charrete, apeou do cavalo
e abraou Narcisa, coisa que nunca fizera antes.

- Que bom que voc veio, Narcisa, estou to s... sinto tanta falta de companhia... tenho tantas saudades de nossa casa!

Ceclia se emocionou at s lgrimas. Narcisa tambm.

- Nunca mais Narcisa vai se separar da sinhzinha. . . Nunca mais!.. .

Fizeram o restante do trajeto at  fazenda lado a lado, caminhando. Jacinto atrelou o cavalo de Ceclia  charrete e seguiu na frente.

- Dona Ceclia vem vindo a p com Narcisa, explicou Jacinto a Vina e Sofia, que estavam esperando.

Levou as malas de Narcisa para dentro e foi ter com Fernando, do outro lado do rio.

- Dona Vina e Sofia, disse Ceclia apresentando Narcisa. Narcisa, a partir de hoje, vai substituir Candinha, que pode voltar ao servio normal da casa. Narcisa cuida
de mim desde que nasci...

Sofia concordou e foi mostrar a Narcisa o quarto.

- Ao lado fica o quarto de Candinha. . . se precisar de alguma coisa, fale com ela.. .

A primeira mala que Narcisa abriu continha velas e, por incrvel que parecesse a Sofia, uma garrafa de cachaa. Narcisa percebeu estranheza no olhar de Sofia e explicou
atrevidamente:

- Vou tirar os maus espritos da vida de sinhzinha... sei de umas rezas fortes que nunca falham... sinhzinha est infeliz... vai voltar a ser feliz como era...
antes do casamento...

- Aqui na fazenda ningum acredita em feitiaria. Todos ns somos catlicos e no temos supersties.  bom voc no praticar em pblico suas crenas para no
impressionar os colonos: so gente muito simples.

Sofia sabia o que significava ter uma feiticeira na fazenda - Narcisa poderia causar muitos problemas desagradveis.

- Sinhzinha Ceclia tambm no acredita, mas nunca me proibiu de fazer as minhas rezas. .. alm do mais eu s vou aceitar ordens

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aqui da dona da casa, que  sinhzinha. . . de mais ningum!

Em vista da disposio de Narcisa, Sofia procurou Ceclia:

- Acabei de falar com Narcisa, Ceclia; ela pretende fazer feitiarias. Proibi-a de praticar as crendices dela publicamente para no impressionar os colonos, que
so gente simples. Ela se recusou a me obedecer - diz que s recebe ordens de voc. Por isso eu peo a voc que no permita a prtica de feitiarias na fazenda.
. .

- Narcisa  inofensiva.. . nunca fez mal a ningum, respondeu Ceclia, defendendo abertamente Narcisa.

- Ela no faz mal a quem no acredita em feitiaria. . . Mas a gente da fazenda  muito impressionvel, principalmente as mulheres e crianas e tm vivido muito
bem at hoje, sem feitios e mandingas.  melhor que continuem assim ...



Pouco mais de dois meses aps a partida de Edmundo, Malu recebeu a primeira carta do primo. Como ela esperava, dentro do envelope havia um outro, fechado, para Ceclia.
Malu o escondeu para que Amarante no o encontrasse

Edmundo lhe dava o endereo definitivo e lhe pedia para fazer chegar s mos de Ceclia o outro envelope. Estava encantado com a Frana e principalmente com Paris.
Comeava os estudos com muito entusiasmo, prometendo voltar

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ao Brasil logo que terminasse o curso, uns dezmeses depois.

A vida de Malu era a cada dia que passava mais atribulada - Amarante a fazia trabalhar muito e, sempre que era necessrio comprar novos remdios, segundo a prescrio
do doutor Vieira (e Malu prometera a Edmundo tomar todos os remdios recomendados pelo mdico Amarante se tornava simplesmente insuportvel, regateando de toda
maneira os mnimos gastos.

Agora que chegara a carta de Edmundo, Malu decidiu partir para a fazenda, para passar uns tempos com Ceclia, longe do tio. Aguardava apenas uma companhia e a conseguiu
quando Fernando, atendendo a um chamado de uma firma exportadora de caf, foi a So Paulo por um dia. Voltou com ele para a fazenda.

No fundo Malu se sentia constrangida por receber de Fernando tanta ateno e ter que levar a Ceclia uma carta de Edmundo, colaborando na trama contra Fernando.
Enfim, promessa era promessa, pensava Malu. J que ela se comprometera com Edmundo e Ceclia, teria que ir at ao fim.

Tudo era novidade para Malu: a viagem de trem, as paisagens, o jantar no vago-restaurante, as paradas em pequenas cidades, com estaes cheias de vendedores de
doces, frutas, salgados, que Fernando comprava e lhe oferecia.

Chegaram  noite na fazenda.

Foi uma surpresa para Ceclia, que no estava esperando a amiga.

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Malu, ao contrrio do que acontecera com Ceclia e Narcisa, cativou a todos com seus modos suaves e sua delicadeza. Aps as apresentaes, Ceclia a levou para seu
quarto - estava ansiosa para saber das novidades.

- Voc tem tido notcias de Edmundo?

- Claro, eu vim por isso mesmo. Tenho uma carta de Edmundo para voc!

Ceclia leu avidamente a carta e teve um sobressalto: Edmundo lhe pedia para cuidar muito bem de Malu... que estava condenada a morrer breve! Fez um esforo tremendo
para no deixar transparecer seu choque. Respirou fundo e disfarou:

- Como  bom saber que Edmundo gosta de mim, Malu!... Ele deixa transparecer isto em todas as linhas... est mais apaixonado ainda!

- Mas, Ceclia, e a sua situao com Fernando?

- Ele jamais me encostou a mo e jamais o far - isto j est bem claro e definido entre ns. Apenas fingimos que nos damos bem por causa de dona Vina. Sofia, ao
que me parece, j sabe que Fernando e eu no temos nada um com o outro.

Malu no compreendia bem aquele estado de coisas.

- E voc tem planos, Ceclia? Pretende se separar de Fernando? Vocs no podem continuar assim a vida toda.. .

- Claro que no! Vou me separar de Fernando e me casar com Edmundo assim que ele voltar. Formado, ele poder ganhar a vida por

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si mesmo e no precisaremos depender de ningum. . .

Com o passar dos dias, Malu se fez amiga de Sofia e ganhou a estima de Vina, pelo respeito com que a tratava. Participava das brincadeiras de Tico, Zuza e Candinha,
a quem ensinava passatempos novos.

Num dos passeios que Malu fazia com Ceclia, depararm com o "paiol". Narcisa, que nunca simpatizara um instante siquer com Fernando, j tinha sua opinio formada
a respeito daquela casa:

- Ningum me tira da cabea que no tem mulher metida nesse meio, dizia ela apontando o "paiol". "Seu" Fernando faz muito segredo. .. quem entra l  s ele e "seu"
Jacinto - s homens.

- Mas, sinh Vina e Sofia.. . - Malu no compreendia como na fazenda pudesse haver um lugar assim to misterioso. Ceclia a interrompeu, explicando:

- Elas j perceberam que existe alguma coisa fora do normal, mas no insistem com Fernando, que tem muita ascendncia sobre elas. . . Ele sempre diz que  perigoso
entrar l dentro, por causa de cobras e escorpies, mas s vezes ele mesmo fica fechado l por horas e horas. .. h dias em que vejo luz l dentro tarde da noite.
Fernando explica que fica cuidando dos livros da fazenda, mas eu tenho minhas dvidas...

A temporada na fazenda fazia bem a Malu. Tornara-se corada e mais alegre ainda. Fazia com Ceclia longos passeios a cavalo e 

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caminhadas pelos bosques, em companhia das crianas. Aprendeu com Tico e Zuza a armar arapucas e todas as tardes percorria com eles os locais onde se encontravam 
as
armadilhas, para recolher pombas-rlas, nhambs e as saracuras da beira do rio. Sempre que havia um mensageiro, enviava um recado ao tio, em So Paulo, dando contas
de que tudo estava correndo bem e pedindo vez por outra um remdio que se esgotava, pedido que Amarante atendia com atraso, alegando escassez de tempo. Na maioria
dos casos, Ceclia ou Vina encomendavam na farmcia da vila o remdio desejado. Se o farmacutico no o tinha, mandava vir da cidade. Tudo corria muito bem para
Malu. Ela ganhara nova disposio para viver. Engordara um pouco, longe da vida difcil que tinha na casa do tio. Mas, um dia, chegou uma carta de Amarante chamando-a
de volta - as criadas tinham deixado o emprego e ningum queria trabalhar para ele. Malu precisava voltar para cuidar da casa.

A notcia entristeceu a todos na fazenda.

A presena de Malu facilitara muito as boas relaes de Vina e Sofia com Ceclia. Agora que a menina voltava para So Paulo, talvez tudo piorasse novamente.

Ao mesmo tempo, Fernando recebeu de Barreto um chamado  cidade, para cuidar de um assunto urgente: o jovem fazendeiro iria ser alvo de grande homenagem, em cerimnia
promovida conjuntamente pela Secretaria da Agricultura e a Associao dos Cafeicultores, como re-

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conhecimento pelo trabalho profcuo de Fernando no desenvolvimento e melhoria do padro do caf.

Durante a viagem, Fernando dirigiu a conversa com Malu para o assunto sobre os estudos de Edmundo e sua volta.

- Seu primo, Edmundo, tem dado notcias?

- Escreve de vez em quando. . . vai indo bem nos estudos, - respondeu Malu - estranhava que Fernando se interessasse por Edmundo.

- E quando volta?

- Se tudo correr bem, dentro de seis meses . . j volta formado e pretende montar consultrio em So Paulo.

- Dentro de seis meses, repetiu Fernando. Seis meses . . 



- Sugiro a Vossa Excelncia adiar por seis meses a homenagem, devido s razes apresentadas, disse Barreto ao deputado que encabeava a comisso encarregada de coordenar
a homenagem a Fernando Albuquerque. Os resultados que o senhor Fernando Albuquerque espera obter dentro de seis meses justificaro ainda mais o ato de reconhecimento
que os senhores querem lhe prestar.

O deputado concordou com a argumentao de Barreto, devidamente instrudo por Fernando. Realmente, as perspectivas eram as melhores possveis - a prxima safra de
caf da fazenda deveria ser a consagrao dos mtodos introduzidos por Fernando no cultivo do caf.



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Fernando voltou para a fazenda mais disposto do que nunca: estava decidido - a prxima safra deveria ser a melhor j conseguida em todos os anos. Reorganizou as
turmas de servio e intensificou os trabalhos nos cafezais - queria fazer js  homenagem que lhe prestariam alguns meses depois.

Quanto a Malu, sua vida voltou a ser mais dura que nunca. Amarante se queixava de que havia um compl contra ele: nenhuma empregada aceitava trabalhar em sua casa,
o que era verdade - a sua fama de avarento corria de boca em boca e comentava-se muito a maneira desumana com que ele tratava as criadas. Malu estava mais s
do que nunca - no tinha Ceclia, no tinha Edmundo, que a levava a passeio, no tinha amigas, pois no podia receber ningum em casa e no podia visitar as moas
de sua idade, por no ter vestidos. Passava os dias lavando, passando e cozinhando. S saa de casa uma vez por semana, para ir  missa, em companhia de uma
famlia vizinha. A princpio, Edmundo lhe escrevia longas cartas, contando sobre os lugares que visitava, os passeios que fazia. Com o tempo, as cartas foram ficando
mais curtas, contendo apenas algumas palavras e o pedido para que Malu encaminhasse a Ceclia o envelope que vinha sempre  junto. Para evitar que Amarante interceptasse
a correspondncia de Edmundo, Malu acertou com Larcio que ele deveria receber as cartas, que seriam enviadas para a penso onde ele morava. Quando recebia alguma
carta, Larcio se encontrava com Malu,

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no domingo seguinte,  porta da igreja e lhe passava o envelope enquanto a cumprimentava. Malu apreciava muito Larcio mas se viam poucas vezes devido ao mau gnio
de Amarante, que afastava de sua casa as pessoas. O esprito folgazo e alegre de Larcio o incompatibilizava com Amarante, alvo de gracejos e brincadeiras por parte
de Larcio. Faziam sucesso as quadrinhas que Larcio compunha glosando Jorge Amarante e trocando-lhe o nome por Jorge Avarento. De pouco valeram as admoestaes
de Barreto: as stiras de Larcio corriam de boca em boca e no havia festa ou reunio em que no se cantasse numa rodinha fechada de amigos a ltima quadrinha sobre
Jorge Avarento. Vez por outra os moleques da rua passavam em frente da casa de Amarante, cantavam rapidamente uns versinhos maliciosos e saam em disparada rua abaixo.

Tudo isto tornava mais amarga a vida de Malu.

No poucas vezes era ela apontada, em meio de comentrios e cochichos e era uma moa sensvel demais para no se perturbar com esses fatos.

Quando Barreto preveniu Larcio de que as brincadeiras do afilhado poderiam afetar Malu, j era tarde. A cidade inteira j conhecia as quadrinhas. A coisa se alastrara
como uma epidemia.



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- Menino malvado e sem educao! Ah, se ponho as mos em voc!

Zuza corria desabaladamente, enquanto Narcisa, toda ensopada, tentava agarr-lo. Desistiu e foi para dentro para se trocar.

- Que foi isso, Narcisa? Toda molhada... - Vina deixou o tric e veio para junto de Narcisa.

- Foi aquele capeta, respondeu Narcisa, aquele capeta do Zuza! Empurrou Narcisa dentro do crrego... aqueles dois andam sempre arreliando Narcisa!... Qualquer
dia Narcisa d uma surra neles. . . pr valer! Aqui ningum d educao s crianas mesmo!.. .

Narcisa estava furiosa.

No momento em que se abaixara para pegar o balde cheio, Zuza lhe chegara por trs e a empurrara dentro do crrego. Narcisa mergulhou de cabea e se debateu na gua
at apanhar p: a gua lhe vinha at ao peito. S compreendeu o que se passara quando ouviu a gargalhada estridente de Zuza, que se dobrava de tanto rir.

Narcisa a custo saiu da gua.

Quando Zuza a viu levantar-se e encar-lo, julgou mais prudente dar tudo quanto suas pernas podiam dar: correu o mais que pde e livrou-se de Narcisa perto do bambuzal,
junto do "paiol".

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Foi ter com Tico e lhe contou o que se passara. Os dois estavam rolando de rir, quando sentiram umas mos firmes em suas orelhas: era Vina.

- Isto no se faz a ningum, Zuza! E, como castigo, voc no come do doce de leite que eu fiz. pr voc aprender!

Diante do castigo de Zuza, Tico se sentiu com sorte de ter sofrido apenas o puxo de orelha e ficou calado.

As duas crianas se antipatizaram com Narcisa desde que ela chegara, vrios meses antes e nunca lhe tinham dado trgua: ora era cobra na cama de Narcisa, ora eram
sustos, ratos soltos no quarto, aranhas de cera presas  parede. Para Narcisa foi um alvio quando soube que Ceclia ia para a casa do pai, juntamente com Sofia,
que ia cuidar da festa que Fernando pretendia fazer para receber a sociedade, no dia em que seria homenageado pela Associao dos Cafeicultores. Vina iria mais tarde,
com Fernando. Sofia estava um pouco atemorizada com a incumbncia que Fernando lhe dera - preparar uma recepo  melhor sociedade de So Paulo, ela que sara poucas
vezes da fazenda. Sabia que no podia contar com a colaborao de Ceclia e esperava obter ajuda de Malu.

H muito que a situao com Ceclia estava definida.

Sofia sabia que Fernando e Ceclia no se davam e que mal podiam esconder o fato de Vina, j desconfiadssima de que alguma coisa no ia bem. Ceclia continuava
afastada de Vina e Sofia e falavam apenas o mnimo necessrio. O

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mundo de Ceclia consistia na companhia de Narcisa, nos livros e nas cartas que escrevia a Malu, Nos ltimos meses Edmundo no mais tinha dado notcias. Ceclia
escrevia e aguardava resposta, inutilmente. Explicava o fato para si mesma com uma possvel mudana de endereo ou uma viagem de Edmundo pela Europa. Por isso, Ceclia
estava ansiosa para encontrar Malu.

Ao chegarem a So Paulo, Maciel e Barreto as esperavam na estao. Ceclia abraou longamente o pai.

- H quanto tempo, papai! Tenho tantas saudades do senhor! Continua o mesmo . . no mudou quase nada!

- Mas seu pai mudou muito, Ceclia, respondeu Maciel, por fora e por dentro.

Sofia aguardava a vez de ser apresentada a Maciel. Barreto se aproximou dela.

- A senhora deve ser dona Sofia... muito prazer! Barreto, s suas ordens.

- Muito prazer, respondeu Sofia. Fernando fala sempre do senhor.

- E da senhora tambm, dona Sofia. Mas, deixe-me apresent-la ao senhor Maciel. Senhor Maciel, esta  dona Sofia, prima do senhor Fernando.

Ceclia se alheiou. Dirigiu-se para a carruagem, em companhia de Narcisa. Maciel e Barreto perceberam que Ceclia e Sofia no eram amigas.

Logo que chegaram em casa, Ceclia telefonou a Malu e marcaram um encontro:  tarde Ceclia iria  casa da amiga.

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Ceclia estava eufrica com a volta  cidade.

Percorreu a casa toda e s mais tarde se inteirou de que o prazo dado  famlia Maciel para desocupar a casa h muito se extinguira. Procurou o pai, para se informar.

- Mas voc no sabe, minha filha? A casa  minha outra vez, respondeu Maciel.

Ceclia mal podia acreditar - era bom demais para ser verdade.

- Oh, papai, mas por que o senhor no me avisou? S agora  que o senhor me diz? Como foi que aconteceu, papai? Conte, que estou curiosssima.. . no v me dizer
que foi no jogo...

Maciel hesitou antes de responder. Pensou que se Fernando no contara a Ceclia era por que deveria ter alguma razo especial Mas acabou revelando a verdade:

- Minha filha, o ingls, a venda da casa ao turista ingls... tudo era inveno do Barreto, na verdade... Fernando foi o comprador!

Foi um choque para Ceclia - ela podia esperar tudo, menos aquilo que o pai acabava de lhe contar.

- Fernando? No  possvel! E ele no me disse nada - a raiva costumeira que Ceclia tinha de Fernando se apossou dela - me humilhando todo esse tempo, o salvador
da famlia Maciel! Quanto mais tempo passa, mais o detesto com aquela mania de salvar todo o mundo!.

O que irritava Ceclia era o fato de tentar escapar da influncia de Fernando e no o conseguir. Quando se julgava livre da presena do marido, descobria que estava
na casa que a 



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magnanimidade de Fernando conservara para a famlia Maciel, o que lhe feria profundamente o orgulho.

Malu estava mais magra e tristonha.

- Tenho trabalhado muito porque as criadas no ficam mais na nossa casa, explicou Malu. Todas se foram embora e ningum mais quer trabalhar aqui...

Conversaram muito, sobretudo a respeito de Edmundo.

- J deve estar a meio caminho, explicou Malu. J  doutor: formou-se h um ms atrs e h uns vinte dias tomou o navio de volta ao Brasil. Meu tio e eu vamos
esper-lo em Santos em companhia de uma poro de gente, no sbado da outra semana.

- No sbado da outra semana? Mas  o dia da festa que Fernando vai fazer l em casa! Tudo foi preparado de propsito! No dia da chegada de Edmundo a sociedade estar
reunida em minha casa para homenagear Fernando Albuquerque! Agora voc sabe, Malu, por que eu detesto Fernando! Por trs daquela mscara de generosidade e altruismo
est o verdadeiro Fernando - o astuto, quase diablico homem com quem me obrigaram a casar.. . Mas como  que ele sabia a data certa da volta de Edmundo? No
compreendo.. .

- Talvez Larcio, sugeriu Malu, talvez Larcio tenha contado ao senhor Barreto! Larcio sabe da volta de Edmundo - eu conversei com ele a respeito!

- Pois, se Fernando pensa que vai me 

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fazer esquecer da volta de Edmundo com a recepo que vai oferecer, est muito enganado: quero me encontrar com Edmundo no mesmo dia da chegada dele!



Do alto da amurada do navio Edmundo via Malu junto de Amarante e lhes acenava. Achou-a mais frgil ainda do que quando partira.

Amarante estava mais satisfeito do que nunca: tinha um filho doutor e j montara para ele um consultrio na cidade - queria que Edmundo comeasse a trabalhar imediatamente:
a vida estava cara e Edmundo seria o nico especialista em doenas dos olhos em So Paulo, portanto poderia ficar rico em pouco tempo.

Na viagem de volta Amarante contou ao filho todos os planos que tinha para ele, sem se preocupar em saber se Edmundo os aprovava ou no. Malu quase no pde falar
com o primo. Quando desceram do trem na cidade Edmundo percebeu um certo ar de festa: bandeirolas, arcos de bambu enfeitados com papis coloridos espalhados pelas
ruas.

-  para Fernando Albuquerque, explicou Malu. Est sendo homenageado hoje pela Associao dos Cafeicultores e vai dar uma recepo  sociedade na casa do senhor
Maciel. Hoje de manh ele foi recebido na Cmara Municipal. No se fala de outra coisa . Ns tambm fomos convidados por Ceclia.

- Ceclia, repetiu Edmundo. Como est ela? Malu no precisou responder: olhou para Edmundo de tal modo que ele compreendeu que Ceclia continuava infeliz.

- Papai, disse Edmundo, gostaria muito de ir  festa na casa do senhor Maciel.

Amarante no esperava outra coisa: era a oportunidade de exibir o seu maior investimento - o filho doutor, recm-formado na Europa.

A festa era um sucesso que Sofia no esperava.

Trabalhara muito nos ltimos dias para organizar uma recepo  altura dos convidados que Fernando pretendia reunir naquela noite. Tivera a sorte de contar com
a ajuda valiosa de Larcio, que a instruira sobre os detalhes e exigncias da etiqueta: confeco de convites, elaborao da lista de convidados, preparao do buffet,
contratao da orquestra e outras medidas que Sofia sozinha no tomaria por falta de experincia. Barreto a ajudara sempre. Maciel se mantivera afastado e Ceclia
declaradamente contra ela. Nos primeiros dias, sabendo que Sofia precisava ir  cidade, deixou que ela fosse desacompanhada, o que foi uma humilhao: Sofia foi
abordada na rua como se fosse uma mulher de vida fcil, ignorando que uma moa sria jamais saa  rua desacompanhada. Ceclia se divertiu com o incidente, antipatizando-se
mais ainda com Sofia. Felizmente tudo passara e Sofia estava mais do que contente com o resultado do seu trabalho. Vina nunca vira tanta gente importante e estava
pasmada, sentada a um canto do salo, observando os vestidos e chapus ostentados por lindssimas mulheres acompanhadas por homens

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encasacados, que cumprimentavam e elogiavam seu filho, Fernando. Fora da casa, Candinha, Tico e Zuza estavam de olhos arregalados: nunca tinham visto coisa igual
- carruagens, cocheiros uniformizados, com botes dourados, homens com o peito coberto de fitas e medalhas, militares de uniformes coloridos, a msica que a orquestra
tocava e os instrumentos, principalmente os violinos, com sua msica to diferente. Como Ceclia os proibira de entrarem no salo durante a festa, ficavam no jardim
observando a chegada dos convidados e, atravs das grandes janelas, podiam ver o movimento dentro do salo, apinhado de gente. De repente Tico avistou Malu:

- Olha dona Malu l dentro, com aquele homem de bigode!

-  mesmo, concordou Candinha, e tem urn moo bonito com ela!

Era realmente Malu, que acabava de chegar, acompanhada de Amarante e de Edmundo. Houve um murmrio geral no salo e Edmundo se viu alvo de quase todos os olhares.
Cumprimentou com acenos de cabea alguns conhecidos, apertou a mo de Maciel e Barreto e se dirigiu para o fundo do salo, onde estava Ceclia. Beijou-lhe a mo
e a olhou serenamente nos olhos.

- A senhora est muito linda, disse Edmundo, formal.

Ceclia estranhou a maneira de Edmundo se dirigir a ela - "deve ser por causa das pessoas que nos olham", pensou. Fez um ligeiro aceno de cabea e sorriu, agradecendo.
Estava extasiada. De uma roda de amigos Fernando observava 



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Ceclia - nunca a vira sorrir daquele modo, com aquele brilho no olhar. Ao ver Malu chegar e pegar no brao de Edmundo, compreendeu que aquele era o seu rival, a 
paixo
de Ceclia, sua esposa. Fingiu no perceber e continuou a conversa com os amigos.

O que jamais poderia passar pela cabea de Ceclia era a possibilidade de no mais existir no corao de Edmundo amor por ela. Estava to certa de ser amada quanto
de amar Edmundo. O ano que passara na fazenda, isolada das pessoas, fizera com que Ceclia se voltasse para dentro de si e vivesse do seu amor por Edmundo. Era um
amor revivido a cada instante e que aumentava de minuto a minuto, que se arraigava cada vez mais em Ceclia  medida em que a separao se prolongava. No podia
imaginar que outra coisa acontecesse com Edmundo, mas estava enganada. Se o prprio Edmundo no estava certo de amar ou no Ceclia, pelo menos de uma coisa tinha
certeza: sua paixo no era mais aquela paixo desenfreada que o levaria at  fuga, se fosse necessrio. Ao contrrio de Ceclia, Edmundo no passara um ano isolado,
voltado para dentro de si mesmo. A vida em Paris podia ser tudo, menos uma vida montona. A viagem, a mudana de ambiente, os estudos, as novas amizades, a nova
dimenso que se abria para Edmundo com a temporada na Europa fizeram dele um homem ponderado e apagaram nele o fogo da paixo que o dominava antes de partir para
o estrangeiro. Edmundo no se acovardara - voltava disposto a enfrentar todas as

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conseqncias de seus atos, caso descobrisse amar Ceclia.

Por tudo isso Edmundo tratara formalmente Ceclia, ao cumpriment-la.

No se demorou muito na festa: alegou cansao proveniente da viagem, cumprimentou rapidamente Fernando e saiu, no que foi acompanhado por Amarante e Malu, sem participar
do baile.

Ceclia se transformou repentinamente.

De alheia que estava, passou a participar ativamente da festa, percorrendo as rodas e bailando sempre que era solicitada. A um momento, porm, em que Fernando lhe
pediu uma dana, alegou cansao, negando-se a bailar com o marido, o que no passou despercebido s pessoas mais prximas, que trocaram olhares significativos e
sorrisos maliciosos. Pouco depois Ceclia estava danando novamente, sem dar ateno a Fernando, deixando-o Intimamente furioso. Ceclia estava conseguindo o que
queria: estragar a festa de Fernando.



Uma semana aps sua chegada, Edmundo j estava clinicando em seu consultrio, na rua So Joo, nos altos de um sobrado que tinha no andar trreo uma loja de armarinhos.
Diariamente os jornais vinham publicando o seguinte anncio: "Doutor Edmundo Amarante - especialista em doenas dos olhos. Rua So Joo, 86, altos." Mais adiante
um jornal noticiava uma recepo dada na vspera, por ocasio de um 



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aniversrio - "... e, entre os muitos convidados, notava-se o par Dr. Edmundo Amarante e sua prima Maria Luiza Amarante, que tm sido vistos juntos nos ltimos dias, 
tudo
levando a crer que breve se ter anncio de um noivado..." Era o que faltava a Ceclia: decidiu ir ver Edmundo naquele dia mesmo.

Narcisa chamou uma carruagem e as duas saram de casa discretamente. Fernando e Barreto estavam na cidade; Maciel sara para dar o seu costumeiro passeio da tarde.
Sofia era a nica que ficara em casa: Vina e as crianas tinham voltado alguns dias antes para a fazenda. quela hora Sofia devia estar costurando as roupas que
queria levar para os filhos dos colonos quando voltasse para a fazenda. S notou a ausncia de Narcisa quando precisou da ajuda dela e no a encontrou. Uma criada
informou que Narcisa sara com Ceclia - no sabia aonde tinham ido - possivelmente estariam fazendo compras na cidade.

Ceclia mandou o cocheiro parar diante do nmero 86, na rua So Joo. Desceu s - no queria que Narcisa a acompanhasse. Subiu a longa escada que levava a uma porta
com uma placa que tinha o nome de Edmundo - "Dr. Edmundo Amarante". Entrou sem bater. No havia ningum na sala de espera. Entrou devagar no consultrio e fechou
a porta atrs de si. Edmundo se voltou e a viu:

- Voc aqui? Mas Ceclia... voc veio s?

Ceclia acenou que sim.

Ela caminhava lentamente, emocionada, 

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quase extasiada, sem despregar os olhos de Edmundo.

- Ceclia, voc precisa pensar no que est fazendo. - Edmundo fez um gesto com as mos como se tentasse impedir Ceclia de chegar perto dele. Ceclia parou, estranhando
a atitude de Edmundo.

- Tenho esperado tanto por voc, Edmundo, tenho aguardado um chamado seu em cada hora, em cada minuto.. . e voc sempre mudo. preciso falar com voc! Edmundo, h
um ano que espero por voc! Um ano inteiro!

Edmundo no respondeu e Ceclia continuou:

- Hoje eu li no jornal que voc e Malu... iam ficar noivos.. . no posso acreditar, Edmundo, no posso!

- Ceclia, acalme-se, vamos conversar com calma.. . o assunto  muito srio para ser discutido nesse estado emocional em que voc se encontra! A paixo.. .

- Paixo, interrompeu Ceclia. Mas eu estou apaixonada! Loucamente apaixonada por voc Edmundo! Voc foi a nica razo que tive para viver um ano inteiro longe
de minha casa, isolada numa fazenda que eu detesto. . .

As lgrimas j rolavam pelo rosto de Ceclia.

- Edmundo, fale que me ama, pelo menos uma vez, fale.. . como antigamente - Ceclia, transtornada, implorava.

Edmundo lhe virou as costas e falou alto:

- Ceclia, agora no! Por favor, v-se embora!

Ceclia se sentiu petrificada. Numa frao de



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segundo rememorou as palavras de Edmundo, analisando uma por uma: no havia dvida - Edmundo a mandava embora. Cobriu o rosto com as mos, ficou assim por uns instantes,
voltou-se e deixou o consultrio, atravessou a sala de espera e saiu, sem fechar a porta. Foi quando Edmundo ouviu o ruido do corpo de Ceclia rolando pela escada.
Correu e ainda pde ver Ceclia rolar os ltimos degraus e se estender no assoalho. Desceu a escada aos pulos, levantou Ceclia nos braos e saiu com ela para a
rua. Bem em frente da sada do prdio, viu Narcisa dentro da carruagem - subiu com Ceclia e mandou que o cocheiro seguisse para a casa de Lineu Maciel. Explicou
 assustada Narcisa o que acontecera, enquanto limpava da testa de Ceclia o sangue que lhe brotava de um corte no superclio.

Sofia fez s pressas um curativo, enquanto Edmundo chamava um mdico para assistir Ceclia e fazer-lhe um exame geral. O mdico chegou e ainda encontrou Ceclia
inconsciente. Como o seu estado clnico era bom, limitou-se a fazer-lhe um curativo definitivo e aplicou-lhe um calmante que a faria dormir at ao dia seguinte,
quando voltaria para um segundo exame.

Pouco depois que Edmundo saiu com o mdico, chegaram Maciel, Fernando e Barreto, que se inteiraram do acontecido atravs de Sofia. O fato de Ceclia ter-se avistado
com Edmundo irritou profundamente Fernando e envergonhou Maciel - fecharam-se em seus quartos e no mais saram.

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Sofia e Narcisa se revezaram a noite toda.

J tinha amanhecido e Narcisa estava cochilando na cadeira, quando um ligeiro gemido de Ceclia a fez despertar.

Ceclia estava acordando. Narcisa lhe passou a mo pelos cabelos.

-  voc, Narcisa? perguntou Ceclia. Que aconteceu? Me di tanto a cabea!. ..

- Sinhzinha caiu da escada . . machucou a cabea. Mas o doutor disse que no  nada, que vai passar logo.

Ceclia levou a mo  testa e sentiu o curativo.

- Narcisa, que horas so?

- J so sete da manh.. . sinhzinha dormiu a noite toda... o mdico deu um remdio pr dormir. . .

- Abra as cortinas, Narcisa, est muito escuro, pediu Ceclia.

Narcisa puxou as cortinas das janelas e da porta que dava para a sacada.

- Abra as janelas tambm, Narcisa. Narcisa abriu as vidraas e venezianas e uma,

aragem invadiu o quarto. Quando ela se voltou, Ceclia estava sentada na cama, com as mos no rosto.

- Narcisa! gritou ela, est tudo escuro! No consigo enxergar nada!

O grito ecoou pela casa toda. Sofia correu para o quarto de Ceclia.

- Sinhzinha no est enxergando, explicou Narcisa. Chame "seu" Maciel...

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No foi preciso: Maciel tambm j acudira. Sofia foi avisar Fernando.

- Ceclia no pode enxergar, Fernando, parece que foi a queda de ontem...

- Chame o mdico imediatamente... e avise-o de que se trata.

Sofia desceu para telefonar e Fernando foi ao quarto de Ceclia. Maciel estava acabrunhado. Ceclia chorava, recostada em Narcisa. Fernando nada tinha o que fazer
ali: retirou-se para seu quarto e aguardou a visita do mdico, que chegou pouco tempo depois.

- Os olhos, concluiu o mdico, no apresentam nenhuma leso externa. Este caso, dado que o estado geral da paciente  bom, deve ser tratado por um especialista...
e para felicidade nossa, temos um grande, talvez o melhor do pas, aqui em So Paulo: o doutor Edmundo Amarante!

- No, gritou Ceclia, Edmundo, no! Jamais permitirei que ele me toque! Prefiro ficar cega!

O mdico receitou um calmante e aconselhou Maciel a no retardar muito o exame dos olhos de Ceclia, que deveria ter sido feito na vspera, se tivesse sido possvel.
"Com o calmante, explicou o mdico, ela ficar mais sossegada e ento ser fcil convenc-la a se deixar examinar".



Havia mais de uma hora que Edmundo examinava Ceclia.

A princpio hesitou em voltar  casa de 

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Marciel, mas Fernando o convenceu, impressionando Edmundo com sua atitude.

Como o mdico previra, Ceclia no se opunha mais ao exame, mas limitava-se a responder sim ou no s perguntas de Edmundo.

Edmundo guardou seus instrumentos, fechou a maleta e saiu do quarto sem dizer uma palavra. Maciel o acompanhou.

- Doutor Edmundo, quis saber, minha filha... que  que o senhor acha?

-  primeira vista parece uma compresso do nervo tico, senhor Maciel. Se assim for, ser uma cegueira temporria... que talvez dure alguns meses. Dona Ceclia
precisa descansar e seguir  risca o tratamento que vou prescrever.  um mtodo moderno para casos assim, que tem dado grandes resultados, mas teremos que pedir
uns remdios que so fabricados somente na Europa, num laboratrio da Blgica. Felizmente eu trouxe comigo algumas caixas.. . Preciso de uma pessoa para fazer
diariamente a aplicao do remdio...

- Sofia poder fazer isso, disse Fernando, que ouvira o final da conversa. Minha prima est habituada a tratar das pessoas na fazenda.

- Seria conveniente que ela viesse comigo ao consultrio para que eu lhe ensinasse o que tem a fazer, sugeriu Edmundo,

Maciel acompanhou Sofia at ao consultrio.

Quando voltaram, Sofia fez a primeira aplicao do remdio em Ceclia: consistia em pingar algumas gotas em cada olho, levantando-se as plpebras para que todo o
globo ocular fosse



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atingido e, em seguida, aplicar uma compressa, que deveria ser trocada duas vezes por dia.

- Amanh partiremos todos para a fazenda, senhor Maciel. Dona Ceclia ficar l at se curar. Depois.. . eu a devolvo.. . tal como a recebi: em troca, quero minha
liberdade.

Fernando olhava firme para Maciel, esperando uma resposta. Maciel no sabia o que responder: no fundo concordava com Fernando e at o achava magnnimo demais. Concordou
com acenos de cabea. Sentia-se humilhado.

Uma criada veio avisar Barreto que Larcio queria v-lo. Mal viu o padrinho, Larcio lhe estendeu um envelope aberto, e disse rspido:

- A partir de hoje eu viverei por mim mesmo, sem sua ajuda! Por favor, nunca mais me procure!

E saiu sem esperar resposta.

Barreto no entendia o que se passava. S depois que Larcio ganhou a rua  que lhe ocorreu verificar o que continha o envelope: era uma carta annima, escrita em
letra de frma. Eram poucas palavras: "Voc ainda no desconfiou que Barreto  seu pai?"

No fosse a atitude de Larcio e Barreto teria dado boas gargalhadas. Colocando-se, porm, na posio do afilhado, compreendeu que o moo tinha razes para estar
zangado, se acreditasse na carta. Decidiu esperar para ver se Larcio mantinha a mesma atitude de ressentimento.

No dia seguinte, Fernando partiu para a fazenda com Ceclia Narciso e Sofia. A cegueira de Ceclia consternou a todos, especialmente Vina.

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Comeou para Ceclia a fase mais amarga de toda a sua vida. Casada com um homem que no amava, isolada numa fazenda, longe do ambiente alegre que conhecera desde
criana, repudiada por Edmundo, a quem devotava todo o seu amor e agora cega, no meio de gente estranha.

Os primeiros dias foram cheios de sobressaltos: descer ou subir uma escada, evitar os mveis, fazer as refeies, vestir-se eram atos que quase a desesperavam. Tornou-se
mais mal-humorada ainda e s Narcisa tinha permisso para entrar em seu quarto, de onde Ceclia saa raramente. Quando lhe vinha vontade de andar, Narcisa a ajudava
a descer e davam pequenos passeios pela varanda e pelo pomar, mas Ceclia se irritava quando percebia que Tico e Zuza as seguiam de longe, com curiosidade.

Passou-se a primeira semana. Ceclia j se habituara a andar pela casa sem o apoio de Narcisa.

Uma tarde em que Ceclia estava sentada na varanda, Narcisa chegou pressurosa, com novidade.

- Sabe, sinhzinha? Dona Sofia est esquisita e quase no fala mais com "seu" Fernando e sinh Vina!.. . Ela recebeu uma carta que diz que o pai do "seu" Fernando
matou o pai dela para ficar com a fazenda e que ela  a legtima herdeira! Eu escutei quando ela conversou com sinh Vina. . . Sinh Vina chorou, mas dona Sofia
no se importou.. . "Seu" Fernando ficou furioso! A carta diz que os documentos da fazenda esto no "paiol" e tudo est no nome do pai de



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dona Sofia! Por isso  que "seu" Fernando no deixa ningum entrar l...

A estria fazia sentido, os fatos se interligavam. Ceclia reconheceu que havia uma certa lgica em tudo: realmente, o que poderia estar escondido no "paiol", que
s Fernando e seu fidelssimo Jacinto sabiam? Deveria ser algo de muito grave, pensava Ceclia. A possibilidade de desvendar um segredo que Fernando guardava com
tanto cuidado trouxe para Ceclia uma satisfao ntima - era a ocasio para se desforrar.  noitinha, quando Sofia lhe fazia a troca de compressas, Ceclia tocou
no assunto:

- Se eu fosse voc, disse Ceclia inesperadamente, exigia de Fernando que lhe permitisse entrar no "paiol". .. Talvez ele no queira que se saiba o que h l dentro
para no ter que entregar a fazenda  legtima dona - voc, Sofia!...

Sofia se surpreendeu: olhou para Ceclia, que tinha nos lbios um sorriso estranho; olhou tambm para Narcisa e compreendeu como Ceclia tomara conhecimento da carta
annima. Percebeu a inteno de intriga nas palavras de Ceclia e preferiu no responder. Ceclia esperou pela resposta, que no veio. Continuou:

- S pode ser isso, Sofia! Voc no percebe que no h outra razo para tanto mistrio em torno do "paiol"? Voc j viu a escritura da fazenda?

Sofia no tinha muita vontade de falar, por isso respondeu com poucas palavras:

- J pedi a Fernando que me mostrasse a

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escritura. . . mas ele no consegue ach-la . . Parece que a perdeu.

- Est vendo, Sofia? Muito conveniente: perder a escritura da fazenda. . . Voc acredita nesta estria? Tudo leva a uma concluso: quem escreveu a carta sabe o que
diz: voc  a dona desta fazenda, na qual voc tem vivido de esmola!... Voc precisa defender os seus direitos, Sofia! Tem que reagir!


- Senhor Barreto, o senhor tem idia de quem teria escrito esta carta? perguntou Fernando mostrando a Barreto a carta annima enviada a Sofia.

Mais de uma semana se passara desde que Sofia recebeu a carta. O ambiente na fazenda estava de tal modo que Fernando decidiu partir para So Paulo para descobrir
o autor da carta -- no suportava as suspeitas de Sofia, a quem queria como a uma irm. Por sua vez, Ceclia no perdia nenhuma oportunidade de ironiz-lo, desafiando-o
a abrir o "paiol". E o pior: Fernando percebia que Sofia apoiava Ceclia. Vina andava calada e tristonha. Fernando decidiu a dar fim quela situao de uma vez,
descobrindo e desmascarando o autor da carta caluniosa.

- Deve ser uma pessoa que nos conhece bem, continuou Fernando. No sei quem poderia ter o requinte de maldade de inventar uma coisa dessas,

Barreto examinava a carta cuidadosamente. Tirou do bolso uma carteira e, de dentro dela,



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duas folhas de papel, que confrontou com a carta - letra idntica  da carta de Sofia. Chamou a ateno de Fernando:

- No  a primeira carta, senhor Fernando. Eu j recebi uma e Larcio tambm da mesma pessoa, como se pode ver. E graas a uma infmia, meu afilhado deixou os
estudos, no fala mais comigo e se empregou como caixeiro, imagine, senhor Fernando, um quartanista de Direito abandona os estudos e vai ser caixeiro de uma loja
de tecidos! Tudo por causa de uma mentira: apontaram-me como pai de Larcio.

S depois de ter desabafado  que Fernando se lembrou de perguntar por Maciel:

- Esteve muito mal mas j est convalescendo, explicou Barreto. Foi tifo - caso muito srio! Se no fosse um homem resistente como , senhor Fernando, talvez no
tivesse resistido. Est muito debilitado... o mdico o aconselhou a passar uma temporada no campo. Eu pensei na sua fazenda. . .

Barreto estava jogando uma cartada: sabia que Maciel precisava de descansar e sabia tambm que Fernando no tinha nenhum motivo para querer o sogro na fazenda, mas
tinha certeza de que Fernando no se oporia  idia. E tinha razo - depois de pensar um pouco, Fernando lhe deu seu consentimento:

- Est bem, senhor Barreto. Pelo menos assim acabamos com tudo de uma vez!.. .

Fernando subiu com Barreto ao quarto de Maciel. Explicou ao sogro a que viera e lhe mostrou a carta. Pela reao de Maciel, percebeu que

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no tinha razo de ser aquela leve suspeita que nutria contra ele - na verdade, Fernando viera  cidade certo de que o autor da carta s poderia ser Maciel, a nica
pessoa que teria algum interesse em prejudic-lo. Ao saber, porm, que Barreto e Larcio tambm j tinham sido alvos daquelas infmias, ficou confuso e se arrependeu
intimamente de ter suspeitado do sogro. Restava Edmundo: tambm ele teria motivos para querer mal a Fernando - afinal, eram rivais.. . Todavia, se Edmundo desejasse
ofender Fernando, que recurso melhor que fazer com que Ceclia traisse o marido? E, no entanto, Edmundo agira de modo diverso, afastando-se de Ceclia. Amarante
e Malu? Impossvel. No havia a menor possibilidade de serem autores daquelas calnias por no haver uma justificativa para procederem assim.

A ida do pai para a fazenda foi uma grande alegria para Ceclia. Logo que se viu a ss com ele, colocou-o a par de tudo quanto acontecia na fazenda, especialmente
do mistrio em torno do "paiol" e da carta que Sofia recebera, o que j era do conhecimento de Maciel.

- Realmente  estranho, comentava Maciel mais tarde com Barreto,  muito estranho que exista nesta fazenda uma casa onde nem a me de Fernando possa entrar!  um
verdadeiro mistrio. . .

A Barreto parecia difcil que Fernando escondesse no "paiol" algo de vergonhoso ou desonesto, como a carta annima afirmava. Era um profundo conhecedor da natureza
humana e Fernando, a seu ver, era um bom.

Nos dias seguintes Barreto notou que  



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tardinha, quando todos voltavam do trabalho, Jacinto abria o "paiol" e guardava l algumas ferramentas. Uma tarde, levado pela curiosidade, postou-se debaixo de 
uma mangueira,
munido de uma luneta que encontrara na casa da fazenda, de tal modo que, quando a porta do "paiol" fosse aberta, pudesse ver o que havia dentro. Montou a luneta
no trip, apontou-a para a porta do "paiol", focalizou e se ps a esperar, torcendo para que Jacinto voltasse antes de escurecer. E teve sorte. O sol j estava quase
se pondo, quando Jacinto apareceu com vrias ferramentas nos ombros. Dirigiu-se para o "paiol", depositou no cho as ferramentas, tirou do bolso uma chave e abriu
a porta, depois de olhar ao redor - jamais veria Barreto, que se achava distante e encoberto pelos galhos da mangueira. No havendo ningum por perto, Jacinto empurrou
a porta. O sol fraco do entardecer iluminou o interior do "paiol". Barreto colou o olho no visor da luneta - teve um dos maiores choques da sua vida: uma mulher,
uma linda mulher era o que ele via!

Jacinto fechou a porta, depois de guardar as ferramentas e ento Barreto no via mais nada. O que acabara de acontecer tinha sido surpreendente demais! "Uma mulher,
pensava Barreto, ser que Fernando Albuquerque mantm uma mulher fechada naquela casa? Ento deve ser por isso que ningum entra l, a no ser ele e Jacinto, seu
empregado de confiana! Ora, sim senhor. . . uma mulher!..."

Quando, depois do jantar, Barreto pde falar com Maciel sem que outros escutassem, contou-lhe o que vira. Maciel mal podia acreditar - foi

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necessrio que Barreto lhe repetisse algumas vezes a mesma estria, para que ele passasse a admitir a possibilidade que Barreto j aceitara - que uma mulher, talvez
amante de Fernando Albuquerque, vivesse ou mantivesse encontros com Fernando no "paiol".

- Em qualquer um dos casos, concluiu Maciel,  uma anormalidade, uma situao inadmissvel: trazer a amante quase para dentro de casa! Um desrespeito para com a
prpria famlia, sem mencionar a esposa, Ceclia! Vou pedir satisfaes a Fernando!. . .

Maciel esperou por Fernando na varanda. Estava escuro: um lampio dependurado perto da porta iluminava mal a extremidade da varanda, onde Maciel andava de um lado
para outro, impaciente e nervoso. Barreto, sentado numa cadeira, fumava, calmo, como de hbito. Fernando tinha ido  casa de Jacinto e no tardaria. Quando voltou,
Maciel se dirigiu para ele:

- Senhor Fernando, chamou Maciel. Preciso falar com o senhor...  um assunto de certa gravidade. No gostaria de entrar, para no sermos ouvidos?

Maciel fez urn sinal a Barreto, chamando-o e saram os trs para o jardim, ao lado da varanda. A noite estava to escura que os trs homens mal se podiam ver. Fernando
notara pelo tom de voz de Maciel que o sogro estava emocionado.

- Tive a surpresa, senhor Fernando, a desagradvel surpresa de saber que existe uma mulher no "paiol"... o senhor Barreto a viu por uns instantes. Quero que o senhor
saiba o quanto estranho e lamento o fato! Protesto e exijo respeito



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do senhor! J que no posso falar em nome de sua famlia, ao menos o fao por minha filha, a quem o senhor no tem o direito de ofender dessa maneira! Exijo tambm,
em nome de minha filha, uma satisfao!.. .

A voz de Maciel estava trmula.

Fernando no respondeu imediatamente, mas quando o fez, falou num tom que nem Maciel nem Barreto esperavam!

- Senhor Maciel, no senhor" eu no reconheo autoridade moral para fazer nenhuma exigncia porque  do conhecimento de todos que o senhor no leva uma vida que possa
servir de exemplo para ningum! Quanto a desrespeitar sua filha, saiba o senhor que eu  que fui desrespeitado e h muito tempo, senhor Maciel, desde o dia do meu
casamento, quando sua filha planejava fugir com outro, como  do seu conhecimento!

Fernando comeou a levantar a voz e j era ouvido dentro da casa.

- Alm do mais, continuou ele, no h nenhuma mulher dentro do "paiol"!.. .

- Mas eu vi, ajuntou Barreto. Tenho certeza de ter visto uma mulher jovem l dentro!

- Pois bem, senhores - Fernando falava alto, quase gritado - eu preferiria no lhes revelar o que h no "paiol", mas os senhores me obrigaram! Vamos at l i...

Virou-se, foi at  porta, apanhou o lampio e se dirigiu para o "paiol", acompanhado por Maciel e Barreto.

Vina e Sofia saram  varanda, depois de ouvir as ltimas palavras de Fernando e olhavam espantadas. Ceclia tambm ouvira. Narcisa, da

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janela do quarto, informava Ceclia do que acontecia:

- Esto chegando ao "paiol", sinhzinha. "Seu" Fernando est abrindo a porta.. . esto entrando!. . .

Bem diante da porta, encostado  parede, havia um quadro grande, com uma mulher linda, em tamanho natural. Maciel viu o quadro e ficou como que petrificado:

- Hortnsia! balbuciou a custo.

- Dona Hortnsia! repetiu Barreto e olhou interrogativamente para Fernando.

- A mulher que o senhor viu, disse Fernando olhando para Barreto e apontando o quadro. Hortnsia... o nico amor que tive na vida e que o senhor - voltou-se irado
para Maciel - e que o senhor destruiu levianamente! Desde ento no pensei em outra coisa seno vingar-me!

- Vingana!. . . Ento o senhor se casou com minha filha por vingana! exclamou Maciel. O seu procedimento  monstruoso! Admito que conheci Hortnsia. . . que
tive um caso com ela, mas eu a deixei como a recebi. . .

- E eu, atalhou Fernando, vou lhe devolver sua filha como a recebi! J lhe fiz esta promessa antes. Mas no  exato que o senhor deixou a mesma Hortnsia que
conheceu: o senhor a destruiu! O senhor a enlouqueceu e em vo tentei recuper-la! Internei-a numa casa de sade, mas no adiantou. Tentei ento reviv-la neste
quadro para t-lo para o resto da vida - estou certo de que jamais amarei outra mulher. Assim me lembrarei sempre da que amei.

Maciel estava amargurado e se via gue 



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sofria com o relato que Fernando acabava de fazer - recordou-se de Hortnsia, de quando a conhecera, na porta da Livraria Garraux, de como a conquistara e dos momentos
que vivera em sua companhia, at o dia em que ela falara em casamento. . . Foi um dos maiores problemas que Barreto tivera nas mos: livrar Maciel do assdio de
Hortnsia, convenc-la a esquec-lo e a no fazer o escndalo que vinha ameaando fazer, caso Maciel no concordasse em se casar com ela. E, de repente, Hortnsia
desaparecera como por encanto. Maciel e Barreto julgaram que ela desistira e que se mudara de So Paulo, mas Fernando lhes dizia que ela enlouquecera, o que explicava
tudo.

Fernando j no estava to arrebatado.

Percebendo o sofrimento de Maciel, confessou tudo o que fizera desde o dia em que perdera Hortnsia:

- Reconheo que agi por vingana e me envergonho disso, disse ele. Arrependi-me no dia mesmo do meu casamento - diante do altar descobri que tinha procedido como
um louco. Intimamente decidi levar o casamento a srio, mesmo sem amor. Eu esperava que o amor viesse com o tempo, mas Ceclia se recusou . . contou-me que pretendia
fugir aps o casamento!... Eu tambm tenho amor prprio, senhor Maciel e ento deixei que o tempo passasse. O que eu mais desejava nos ltimos dias era separar-me
de Ceclia e esquecer tudo. Nem pretendia que o senhor soubesse do meu amor por Hortnsia... mas as coisas se precipitaram... agora o senhor j est a par de tudo:
pode tomar a deciso que quiser.

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- A deciso  uma s, senhor Fernando - Maciel tinha a voz fraca - amanh mesmo partiremos para So Paulo e ento trataremos da separao legal.

 Uma chuvinha fina os obrigou a correr at  casa.

Sofia foi buscar uma toalha para Maciel se enxugar: ainda estava convalescendo da doena que tivera recentemente. Sentaram-se na sala. Vina foi fazer um caf: Maciel
precisava tomar alguma coisa quente. Narcisa desceu para observar e contar a Ceclia tudo que se passara.

Fernando foi ter com a me, na cozinha e lhe contou o que acabava de acontecer. Vina escutou em silncio e, quando Fernando acabou de falar, sentia que tinha novamente
o seu filho, sem segredos, sem ms intenes - era como se recuperasse Fernando, o filho que sempre tivera nela uma amiga e conselheira.

- Errar, todo mundo erra, meu filho. Todos ns s vezes temos desejos de vingana o que  importante  reconhecer o erro e evit-lo. Voc fez isso e eu estou
muito contente. Voc  muito moo ainda.. . vai encontrar uma moa e vai se apaixonar de novo. . . tenha pacincia, filho, no h mal que o tempo no cure.

Escutar a me fazia bem a Fernando.

Quando ela foi servir o caf, na sala, ele j estava calmo - o desabafo lhe fizera bem. Fernando se sentia aliviado de um grande peso que carregara por mais de
dois anos - seu amor por Hortnsia e todo o drama que ele trouxera.

Maciel j sentia os primeiros efeitos da chuva que apanhara e espirrara de vez em quando.
 

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Tomou o caf e subiu para seu quarto, para dormir. Barreto o acompanhou.

Narcisa j se julgava bem informada - conversara com Barreto e se inteirara de tudo. Subiu para o quarto de Ceclia.

- Sinhzinha, "seu" Barreto falou que no "paiol" tem um retrato grande duma moa que foi namorada de "seu" Fernando... "seu" Fernando mesmo que pintou! Ele
ainda est apaixonado pela moa e fez o retrato dela.. . "seu" Barreto acha que ela morreu, depois de ficar louca!... Mec se lembra quando Narcisa falou que tinha
mulher no meio daquela estria do "paiol"? Pois ... Narcisa estava com a razo!.. .

Narcisa contou e recontou tudo que arrancara de Barreto:

- E "seu" Barreto falou que "seu" Fernando casou com mec pr se vingar: "seu" Maciel tinha feito mal pr namorada dele.. .

Quando Ceclia ficou sozinha, comeou a pensar em tudo.

Pela primeira vez lhe ocorreu que talvez Fernando nunca tivesse estado apaixonado por ela como acreditara at ento. Aos poucos Ceclia foi ligando os fatos: Fernando
planejara tudo desde o incio - os primeiros encontros em que contara com a ajuda inesperada de Barreto, as flores que enviara, a apresentao no teatro, o noivado,
o casamento!... "E todo esse tempo, pensava Ceclia, fingindo gostar de mim e eu acreditando numa paixo que nunca existiu..."

O amor prprio de Ceclia Maciel estava ferido.

"Ser que Fernando pretendia casar-se 

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comigo e me abandonar depois da primeira noite? Claro que sim, seno que vingana mais completa poderia ele querer? E no o fez somente porque percebeu que era exatamente
o que eu desejava - voltar para Edmundo! Preferiu me manter aqui, quase como escrava, isolada de todos..."



 

Na manh seguinte Maciel no desceu para tomar caf.

Sofia avisou Barreto, que subiu ao quarto de Maciel para ver o que acontecia. Bateu na porta e no ouviu resposta. Entrou. Maciel estava ardendo em febre e com delrios,
murmurando o nome de Hortnsia.

Barreto pediu a ajuda de Sofia.

Parecia uma recada. Sofia julgou melhor recomear com os remdios j receitados pelo mdico da cidade.

Por dois dias e duas noites Maciel esteve semi-inconsciente, com curtos perodos de lucidez. Sofia foi a sua companhia dia e noite.

No terceiro dia veio a melhora, mas Maciel estava muito debilitado para se levantar. O mdico que Fernando mandara vir da vila aconselhou que Maciel descansasse
por mais uma ou duas semanas, at se sentir completamente restabelecido, caso contrrio o seu estado pioraria. Maciel se resignou a continuar na fazenda por mais
algum tempo.

Barreto partiu para a cidade para cuidar da casa de Maciel. Quando Jacinto voltou da vila, trazia uma carta para Ceclia: era de Malu -



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contava que tinha recebido uma carta annima avisando-a que ela estava muito doente e que morreria muito breve, tendo decidido, por isso, romper o noivado, livrando
Edmundo do compromisso.

Sofia acabou de ler a carta para Ceclia e estava revoltada com tanta maldade. Todos na fazenda sabiam do drama de Malu - Ceclia os avisara, depois que Edmundo
lhe escrevera. Mas, Sofia no compreendia como algum pudesse ter o requinte de avisar  prpria Malu que ela estava condenada. E o pior: a carta chegara poucos
dias aps o noivado de Malu com Edmundo Amarante. Sofia no pde evitar a suspeita de que talvez o autor das cartas fosse o prprio Amarante - pelo menos naquele
caso, era o nico interessado em prejudicar Malu, j que se opunha decididamente ao casamento da sobrinha com seu filho. Talvez Amarante, doentio como era, julgasse
fazer Malu desistir do noivado, se a verdade sobre seu estado de sade lhe fosse revelada.

Sofia tinha pena de Malu. Escreveu a Barreto pedindo-lhe que a trouxesse para a fazenda, para passar uma temporada.

Barreto esbarrou com a objeo de Amarante: no podia ficar sem Malu porque no tinha criada. Barreto ento lhe cedeu uma criada da casa de Maciel, at que Malu
voltasse da fazenda. O convite de Sofia deixara Malu satisfeita por duas razoes: por ficar livre do tio por algum tempo e tambm porque Malu desejava conversar com
Ceclia sobre seu noivado com Edmundo.

Amarante ainda fazia oposio ao casamento do filho:

- Continuo disposto a deserd-lo se voc....

 

teimar em se casar com Malu.  Eduquei voc para que voc fizesse um grande casamento, mas voc parece ter uma tendncia para casamentos desastrosos - primeiro, Ceclia
Maciel. . . agora, esse casamento por compaixo, com sua prima!... Francamente, no compreendo voc!

Havia muito tempo que Edmundo desistira de discutir com o pai. Como resposta  atitude de Amarante, decidira mudar-se. Ao mesmo tempo, procurava uma casa para alugar.

Com o passar dos dias, Edmundo chegou  concluso de que ainda amava profundamente Ceclia, mas j tinha decidido consigo mesmo que era um amor impossvel e que
o melhor era esquec-lo. Quanto a Malu, talvez o amor viesse mais tarde - Edmundo estava certo de que tinha um dever para com a prima: tornar os ltimos dias da
vida dela os mais agradveis. Talvez inconscientemente Edmundo estivesse tentando compensar Malu pelos sofrimentos que Amarante infringia  sobrinha. Edmundo tinha
uma certeza: era grande sua amizade por Malu mas no tinha pela prima mais do que amizade. Mesmo assim pretendia casar-se com ela. Malu estava a par desta situao:
mais de uma vez os dois j tinham discutido a questo com toda a franqueza. "Um amor to grande como o que Edmundo teve por Ceclia no desaparece de repente", pensava
Malu.

Edmundo tinha ido  estao, para comprar as passagens.

Ao voltar, encontrou o pai furioso: - S me faltava essa, lamentara-se Amarante. S me faltava ser roubado! Veja, 



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Edmundo - Amarante mostrava a Edmundo um pedao de papel - recebi h pouco. Diz que fui roubado e que ainda me roubaro mais ainda! E o pior  que  verdade: dei 
falta
de novecentos e cinqenta mil ris! E, s pode ser sua prima!.. . Ah, mas ela h de me devolver tudo, tudo!

- No seja precipitado, pai. O senhor no tem provas de que foi Malu! Para se acusar algum  preciso que se tenha prova nas mos, do contrrio ser uma leviandade
imperdovel. Eu no creio que tenha sido Malu! E mais: tenho certeza de quem no foi ela - no teria onde nem como aplicar tal quantia! O senhor sabe que
ela nunca teve esse hbito, portanto no venha querer envenenar as coisas: eu no abro mo de meu casamento com minha prima. Todavia, para que o senhor no lamente
mais o prejuzo que teve, eu o reembolsarei!

A idia agradou Amarante, mas ele voltou  carga contra Malu:

- Ainda estou convencido de que foi sua prima! Ela me roubou por vingana! Com certeza ter queimado o dinheiro. . . ela no sai daqui enquanto no me disser
o que fez com meu dinheiro! No quero correr o risco de ser roubado outra vez. Chame sua prima, quero falar com ela, j!

Edmundo se opunha firmemente:

- Pai, no vou permitir que o senhor maltrate Malu assim!...

Malu entrou na sala, chorosa: tinha ouvido a conversa.

- No fui eu, tio, juro que no fui eu. . . nem sabia onde estava o dinheiro!... O senhor

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bem sabe que eu vou morrer... para que eu iria querer um dinheiro que nem posso gastar?...

- Por vingana, gritou Amarante, voc est se vingando de mim! Voc quer me arruinar!

Malu se abraou a Edmundo.

Pela primeira vez Malu admitia a idia de que iria morrer - a carta que recebera a tinha convencido. "Ela ligou os fatos, pensava Edmundo, e chegou  concluso certa.
Os desmaios, os exames mdicos e, por fim, a carta!"

A tarde, Malu e Barreto partiram.

Quando chegaram  fazenda, eram oito da noite.

Como de hbito, todos estavam reunidos na varanda, com exceo de Fernando que cuidava, no "paiol", das contas da fazenda. Malu cumprimentou Vina e Sofia, que ficaram
sinceramente satisfeitas com a chegada da moa. Ceclia ainda tinha muita amizade por Malu, mas no podia deixar de sentir um certo constrangimento ao lembrar-se
que a amiga fora noiva de Edmundo. As duas subiram para conversar  vontade no quarto de Ceclia.

- Edmundo, disse Malu - e Ceclia estremeceu - falou que no vai demorar muito a sua cura! Logo voc j estar vendo de novo...

- Eu ando sentindo mesmo alguma coisa estranha... um ardor que apareceu nos ltimos dias. Pode ser o comeo da cura... no desejo outra coisa.

- Voc deve ter sofrido muito, no Ceclia? Deve ser horrvel no poder enxergar...  como morrer um pouco!...

Malu tinha o olhar vago e distante. Ceclia



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percebeu que a amiga pensava na morte. Procurou mudar de assunto e lhe contou as novidades a respeito do "paiol".

- Sabe, Malu? concluiu Ceclia, no fundo, desejo voltar a enxergar enquanto estiver aqui, para ver o retrato de Hortnsia. Dizem que ela era muito bonita!...

Ceclia se deitou e Malu desceu para conversar tambm com Vina e Sofia. Falaram de Edmundo, do noivado, contaram novidades da fazenda, de Tico, Zuza e Candinha.
Fernando chegou. A conversa girava em torno das cartas annimas. Faziam-se conjecturas sobre quem poderia t-las escrito e com que finalidade. A discusso se prolongava
noite a dentro.

Ceclia, sozinha no quarto, pensava.

A cegueira a fizera voltar-se para dentro de si mesma.

Passadas as primeiras semanas, que tinham sido de desespero, ela comeou a analisar toda a sua vida e chegou  surpreendente concluso de que fora sempre uma moa
ftil, de vida vazia, que dava demasiado valor s aparncias. Tornou-se mais humilde, mais compreensiva, passou a tratar melhor as pessoas com quem convivia. Desaparecia
tambm, lentamente, o rancor que tinha por Fernando, que no era o moo inculto e mal-educado que ela sempre julgara ser. Aos poucos, o fato de Fernando ter composto
uma cano -  bem verdade que talvez tivesse sido dedicada a Hortnsia - de lhe ter pintado o retrato, revelava uma sensibilidade que Ceclia jamais imaginara que
Fernando nudesse ter. Chegou mesmo a compreender toda a desgraa de Fernando e seu desespero, ao descobrir que a moa a quem devotava tanto amor tinha sido desencaminhada 
por Maciel.

O ardor nos olhos que Ceclia vinha sentindo nos ltimos dias aumentava sensivelmente. Tirou a compressa e esfregou lentamente os olhos. De repente, sentiu um leve
claro, que durou uma frao de segundo, para tudo voltar ao negro novamente. Instantes depois, o fenmeno se repetiu. Abriu bem os olhos e ficou atenta, esperando.
Aconteceu de novo. Ceclia sentou-se na cama: seria a to esperada cura?

Ao longe ribombavam troves. Comeou a perceber o que se passava - deveria estar vendo a luz dos relmpagos. As janelas do quarto estavam fechadas e a luz parecia
estar entrando pelas venezianas.

Ceclia levantou-se, tateou at  janela, abriu as venezianas no momento em que um relmpago longnquo iluminou por instantes o jardim e as rvores junto da casa.
Enxergava novamente. A emoo foi to forte que ela se ps a chorar convulsivamente e a gritar:

- Estou vendo!... Papai, estou enxergando! Narcisa! Malu!

Ceclia saiu do quarto. Sofia j tinha subidc e a amparou na escada. Acorreram todos.

- Estou vendo, exclamava Ceclia, vejo voc, Malu, vejo dona Vina, Sofia, papai!... Enxergo novamente!

A cena era tocante. At Barreto, sempre to controlado, sentiu lgrimas a lhe correrem pelo


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rosto. Maciel, abraado  filha, tambm chorava.

Fernando observava.

Por mais indiferente que quisesse se mostrar, no podia deixar de se emocionar com a cena e teve um daqueles gestos nobres que tanto orgulhavam Vina: saiu sem ser
percebido, foi  dispensa e trouxe algumas garrafas de champanha, oferecendo-as a Maciel e Barreto:

- O senhor deve comemorar, disse ele a Maciel. Uma alegria como a que o senhor sente no momento merece champanha.

Jacinto, ouvindo o bulcio na casa, veio ver do que se tratava. Candinha e Narcisa tambm se levantaram.

Altas horas da noite ainda se ouviam vozes e risos. Desaparecera como por encanto aquele ambiente de mal-estar geral que havia na fazenda, nos ltimos dias, principalmente.

De vez em quando, Ceclia lanava um olhar disfarado a Fernando, que conversava animadamente com Barreto, a um canto da sala. Fernando no a cumprimentara. Havia
dias que no lhe respondia, mesmo quando Ceclia fazia insinuaes maliciosas acerca da possibilidade de Sofia ser a verdadeira proprietria da fazenda, conforme
revelava a carta annima.


Mal amanheceu, Ceclia se levantou e saiu para o jardim.

No se cansava de admirar as flores, de olhar, de observar. Tudo tinha um colorido especial que ela nunca notara.

Malu veio juntar-se a ela.

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Ceclia viu Jacinto dirigir-se para o "paiol" e foi at l com Malu. Pediu a Jacinto que deixasse a porta aberta, que depois ela a fecharia. Examinou longamente
o quadro.

- Era linda, Malu, era muito linda! dizia Ceclia, embevecida. Jamais imaginei que Fernando pudesse pintar um quadro assim!. . .

Malu concordava:

- Fernando deve ter amado muito Hortnsia para fazer o que fez, disse Malu.

Ceclia andava pela casa, examinava a escrivaninha de Fernando, a mesa cheia de pincis, tinta e folhas de papis, nos quais Fernando fizera esboos do quadro. Hortnsia 
estava retratada em vrias posies, como se tivesse posado para Fernando. Ceclia ia passando as folhas at que algo lhe chamou a ateno: era um leque - cabo de
madreprola, desenhos de motivos orientais.

- Malu, chamou Ceclia, veja aqui, um leque! E parece que j  usado... e foi deixado aqui recentemente - no tem p, como as folhas de papel e os pincis...
e tem uma letra gravada - "h": Hortnsia! Mas, ser possvel?

Malu percebeu que Ceclia suspeitava que Hortnsia estivesse viva e.. . na fazenda!

- Ora, Ceclia, voc no est pensando que...

- Que Hortnsia est viva e que mora na fazenda, cortou Ceclia.  exatamente o que estou pensando! Malu, veja estes esboos: isto s se consegue quando um modelo
ao vivo posa para o desenhista! Eu j estudei pintura e sei distinguir muito bem um desenho baseado num modelo vivo! E quem mais poderia posar para Fernando



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 se ele no permitia que ningum entrasse aqui, a no ser Jacinto? E por que todo este mistrio em torno do retrato de Hortnsia? E, ainda por cima, este leque:
tenho certeza de que foi usado pouco tempo: o cabo est brilhante e liso!  assim que ficam os objetos manuseados diariamente!...

Malu foi forada a reconhecer que os argumentos de Ceclia tinham sua fora e uma certa lgica. Mas tudo lhe parecia to fantstico que tinha dificuldade em acreditar.

Ao acordarem, Tico ficara sabendo que Ceclia j estava enxergando novamente e correu a contar a Zuza. Os dois foram ver Ceclia no paiol. Estavam contentes com
a volta de Malu:

- Dona Malu, a senhora vai ficar muito tempo agora com a gente? queria saber Tico.

- Vou ficar muito tempo e ns vamos brincar muito, Tico.

Malu abraou as crianas. Tico como sempre falava mais:

- Dona Ceclia, perguntou ele,  verdade que a senhora t enxergando e que nunca mais vai ser ceguinha?

-  verdade, Tico, nunca mais, respondeu Ceclia.

-- Antes da senhora ficar ceguinha, continuou Tico, eu no gostava da senhora... e nem o Zuza, no  verdade, Zuza? - Zuza fez que sim com a cabea - mas depois
eu fiquei gostando porque tinha muita pena da senhora. . .

- Muito obrigada, Tico, eu tambm agora gosto muito de vocs.

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Notando a pilha de papis, Tico teve uma idia:

- Zuza, vamos fazer uns barquinhos pr gente brincar na enxurrada?

- Podem brincar, observou Ceclia, mas no usem os papis com desenhos, que so do "seu" Fernando.

Tico e Zuza concordaram e comearam a remexer numa pilha de jornais, revistas e livros, amontoados na parte inferior de uma estante, junto da escrivaninha. Separaram
alguns pedaos de papis e os mostraram a Ceclia, que aprovou com um aceno de cabea. Fechou a porta e mandou Tico entregar a chave a Jacinto. Ceclia levava consigo
o leque. Mostrou-o ao pai e lhe contou tudo o que vira. Maciel reagiu como Malu: reconhecia que os fatos eram lgicos mas no acreditava na estria com a firmeza
de Ceclia, que recorreu a Sofia.

- Mas, se Hortnsia est viva e morando na fazenda, onde  que ela poderia estar? perguntou Sofia.

Ceclia j tinha a resposta pronta:

- Nas terras do outro lado do rio! Tal como o paiol, s Fernando e Jacinto costumam ir l!  l que Hortnsia deve morar!. . . Deve ser por isso que Fernando
passa dias inteiros l... em companhia da amante!...

Desde que recebera a carta annima, a desconfiana separara Sofia e Vina, antes to amigas. Sofia se limitava a fazer o seu trabalho, com a mesma dedicao de sempre
mas j no recorria a Vina como era de seu hbito, sempre que precisava de um conselho ou de uma consulta.



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Naquele caso, porm, julgou de seu dever prevenir Vina das suspeitas de Ceclia, com pleno consentimento desta: a Ceclia interessava levantar a questo para descobrir
a verdade - talvez Fernando, ao revelar o segredo do paiol, no tivesse contado a verdade toda.

 tarde, quando Fernando regressou do trabalho, Vina veio procur-lo.

- Meu filho, disse ela - Fernando percebeu que Vina estava muito preocupada - Ceclia achou um leque com uma inicial gravada, no "paiol". . . ela afirma que 
de Hortnsia, que est viva e que mora aqui na fazenda. . .

- Me, respondeu firme Fernando, j falei que a Hortnsia que eu amei no existe mais.  No vou dar importncia  imaginao frtil de dona Ceclia!.. .

Fernando chamara Ceclia de "dona" Ceclia: Vina se convenceu de que a separao dos dois j era certa e definitiva.

Chovia. Fernando foi procurar Jacinto.

- Jacinto, eu ainda no tinha dado permisso para ningum entrar no "paiol".. . Dona Ceclia entrou hoje: foi voc que permitiu?

- Mas, patro, eu pensei que no tinha importncia! ... O senhor mesmo j tinha levado l "seu" Maciel e "seu" Barreto!

-  preciso tirar muita coisa de l ainda, amanh ns cuidaremos disso.

Tico ouviu a voz de Fernando e veio  porta. Tinha na mo um barquinho de papel, inacabado.

- "Seu" Fernando, hoje eu vi o desenho que o senhor fez da moa...  muito bonito!... A moa  to bonita quanto dona Ceclia... o 

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senhor termina de fazer este barquinho pr mim,, "seu" Fernando? Eu no sei fazer esta dobra... Tico passou a Fernando o barco inacabado, para termin-lo. Fez a 
ltima
dobra, o barquinho tomou seu formato definitivo. Fernando ia entreg-lo de novo ao Tivo, quando, observando o papel, achou-o familiar e perguntou:

- Tico, de onde voc tirou este papel?

- Foi l do "paiol", "seu" Fernando, mas, dona Ceclia deixou. Ela falou que eu podia pegar o papel que no tivesse desenho...

Fernando estava desmanchando o barquinho, para desgosto do Tico. Jacinto notou o interesse do patro e chegou perto, para ver.

- Patro,  a escritura da fazenda que o senhor anda procurando tanto! Como  que ela veio parar nas suas mos, Tico?

- Eu no tenho culpa, "seu" Jacinto, o Zuza viu, pode perguntar pr ele...

Fernando acalmou o Tico:

- No  nada, Tico, no  nada! Foi at muito bom voc ter achado este papel.

Era quase hora do jantar. Fernando esperou que todos descessem, mandou Candinha chamar Vina na cozinha e fez uma pequena reunio. Queria comunicar o achado.

- Todos ns temos conhecimento, comeou ele, de que Sofia recebeu h algum tempo uma carta infamante, acusando-me de me ter apropriado da fazenda, que seria de propriedade
de minha prima. Eu jamais dei maior importncia ao caso, a no ser pelo fato de a carta ter trazido a desunio  nossa famlia. Eu sabia da existncia de uma
escritura, que provava que esta fazenda



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era de propriedade de meu pai e no do pai de Sofia, como a carta insinuava. Eu mesmo j tivera a escritura em minhas mos vrias vezes. Todavia, quando fui procur-la
para provar a Sofia que a carta s trazia mentiras, no a encontrei, o que pareceu robustecer as suspeitas contra mim. Hoje, porm, o Tico entrou no "paiol" e tirou
de l uns papis e, entre eles, estava a escritura - Fernando mostrou o documento - que quase ia sendo transformado em barquinho!... Fernando passou o papel a Sofia,
que o leu e comeou a chorar baixinho. Vina a abraou, consolando-a:

- Ora, no se preocupe, sua boba, no foi nada...

- Estou to envergonhada, dizia Sofia, to envergonhada de ter duvidado da senhora... de Fernando!...

- Voc foi apenas outra vtima da maldade e da irresponsabilidade, disse Fernando. Vamos esquecer tudo. Eu jamais deixei de querer bem a voc por causa daquela
carta. Sempre tive certeza de poder provar um dia que era tudo mentira.

Maciel e Barreto examinavam a escritura.

- No h margem para dvidas, concluiu Barreto.

Malu estava a um canto observando, juntamente com Ceclia.

Quando Sofia se acalmou, foi servido o jantar, o mais alegre da fazenda nos ltimos meses. Apenas Ceclia no se sentia muito  vontade: ainda acreditava na presena
de Hortnsia na 

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fazenda e a existncia de uma rival mexia com o seu orgulho.

Ceclia s teria paz quando resolvesse de vez o caso de Hortnsia.


- Sinhzinha, Narcisa viu uma mulher l no pomar: estava vestida de branco, era clara e desapareceu quando Narcisa quis chegar perto!

Narcisa explicava para Ceclia que vira uma mulher, que bem poderia ser Hortnsia.

- Narcisa nunca viu ningum na fazenda parecido com ela, continuou, se fosse algum da fazenda, Narcisa reconhecia ... e pr que algum ia fugir de Narcisa?

O mais prtico era voltar ao lugar onde a mulher tinha sido vista. Narcisa levou Ceclia e as duas procuraram rastros. Encontraram realmente pegadas de ps descalos,
que se dirigiam para o lado do rio.

Foi uma vitria para Ceclia.

Maciel e Barreto, que no tinham dado muita importncia s suposies de Ceclia, passaram a considerar a hiptese de haver mais alguma verdade escondida no caso
de Hortnsia.

Ceclia comentava abertamente com Vina e Sofia as suas suspeitas. Vina nada respondia. Sofia procurava no tomar partido, mas, intimamente, admitia a possibilidade
de Ceclia estar certa: realmente, Fernando no permitia que ela fosse at ao outro lado do rio para ver as terras que ele comprara. Sofia se lembrava bem de que,
de uma vez que Fernando voltara de So Paulo, 



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depois de uma ausncia prolongada, fora primeiro s terras do outro lado do rio e depois  que viera para casa. Alinhou mentalmente vrios fatos que corroboravam 
o
ponto de vista de Ceclia: de que ainda no se sabia tudo sobre Hortnsia.

Edmundo escreveu a Malu, avisando-a que se mudara da casa do pai e dava notcias de Larcio, que estava trabalhando e lhe conseguira um quarto numa penso do centro
da cidade. "Meu pai est cada dia pior, Malu. Agora quase no sai mais de casa e est sempre fechado no quarto. Nem a criada pode entrar l para limpar. Ele faz
tudo sozinho: tem medo de que lhe roubem o dinheiro, que guarda todo em casa. Tenho trabalhado muito e acredito que dentro de pouco tempo posso alugar uma casa que
j tenho em vista e ento nos casaremos. Tenho certeza de que voc vai mudar de idia".

Tendo que ir  cidade, Barreto levou a resposta de Malu. Entregou a carta a Edmundo e foi visitar Amarante, que estava realmente pior, como Edmundo dizia.

O roubo de que fora vtima o deixara aterrorizado. Ainda acreditava que tivesse sido Malu quem lhe furtara os novecentos e cinqenta mil ris, que Edmundo repunha
em parcelas.

Sobre as cartas annimas, tinha uma teoria prpria: atribuia-as a Edmundo, seu filho. "De to inteligente, chega a ser diablico, dizia ele a Barreto. Edmundo saiu
a mim: astuto, esperto! Vejamos: quando se viu ameaado de ser deserdado, descartou-se de Ceclia Maciel e ainda deixou transparecer que o rompimento partira dela.

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Agora, decidido a se livrar da prima, manda-lhe uma carta que a faz romper o noivado! Golpe de mestre! Vinga-se do rival mais rico que ele lanando a discrdia,
com a carta a dona Sofia! Desforra-se tambm dos aliados do seu rival, o senhor e Larcio, provocando a separao dos dois! Genial, o meu filho! E agora, ou eu muito
me engano ou ele vai escrever uma carta para si mesmo, para despistar!..."

E, de fato, aconteceu, mais cedo do que Amarante esperava.

Barreto ainda estava conversando com Amarante, quando Edmundo entrou: procurava Barreto, para executar um plano. Tambm ele acabara de receber uma carta annima,
prevenindo-o de que iria ter o mesmo fim do pai e do tio, pai de Malu: a loucura!

Edmundo mostrou a carta a Barreto: a mesma letra das outras, o mesmo papel amarelado. Como no caso de Sofia, a carta tinha sido expedida pelo correio.

Amarante dava risadinhas de satisfao: Edmundo viera confirmar que ele estava certo, o que lhe dava grande alegria.

- Senhor Barreto, disse Edmundo, sei que o senhor volta amanh para a fazenda. Quero pedir-lhe que consiga do senhor Fernando permisso para irmos, meu pai, Larcio
e eu para a fazenda: pretendo resolver de uma vez o caso das cartas annimas. Creio firmemente que o autor  uma pessoa de nossas relaes.

Barreto concordou com a idia de Edmundo



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e prometeu escrever-lhe logo que tivesse a resposta de Fernando.

Larcio j se encontrava com o padrinho, convencido de que talvez tivesse sido vtima da maldade de algum, j que as cartas annimas estavam sendo enviadas sistematicamente
a quase todas as pessoas das famlias Maciel, Albuquerque e Amarante, com o propsito evidente de levar a intranqilidade at elas. Barreto passou a tarde com Larcio
e sentiu que o afilhado voltava a ser o mesmo de antigamente: alegre e brincalho. Todavia, Larcio insistia em continuar trabalhando, no cogitando de voltar aos
estudos, pelo menos imediatamente.

Depois de tomar todas as providncias que Fernando lhe pedira que tomasse, Barreto voltou  fazenda.

A notcia de que outra carta annima fora enviada trouxe muita inquietao. Embora no simpatizasse com Edmundo, Fernando concordou que era boa a idia de reunir
todas as pessoas implicadas em um s lugar - e o mais indicado era a prpria fazenda - para se tentar pr fim quele estado de coisas. A nica objeo partiu de
Maciel, que estava ansioso para voltar para a cidade, pois se considerava um estranho na fazenda, j que a separao de Fernando e Ceclia era um fato consumado,
 espera da legalizao. Assim sendo, Maciel julgava-se um intruso, que somente a doena poderia manter naquela fazenda por tanto tempo. Embora tambm aprovasse
a idia de Edmundo, julgou-a impraticvel porque ele deixaria a fazenda dentro de poucos dias, com 

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Ceclia e Narcisa e, certamente Barreto os acompanharia.

Na mesma noite em que Barreto voltou de So Paulo, comeou a chover abundantemente. Choveu quase uma semana inteira, de no se poder sair de casa. Voltando da vila,
um dia Jacinto chegou com a notcia de que o rio transbordara e levara gua abaixo a ponte da estrada de ferro, estando interrompidas as comunicaes com So Paulo.
Os reparos levariam semanas.

A contragosto Maciel teve que reconhecer que no havia remdio seno prolongar sua estadia na fazenda.


As suspeitas de Ceclia de que Hortnsia estava viva se robusteciam  medida em que aconteciam fatos que a autorizavam a pensar daquele modo.

O primeiro fora quando Narcisa avistara a mulher que fugira para o lado do rio. Depois, aconteceu a mesma coisa com Candinha, que vira uma mulher loura perto do
"paiol". Em seguida, fora a vez de Zuza que afirmava ter visto uma mulher vestida de branco perto da casa da fazenda e, por fim, a prpria Ceclia, que vira e ouvira
uma mulher cantando. Era j tarde da noite e Ceclia no conseguia dormir. De repente julgou ouvir uma voz de mulher, que cantava. Ao se certificar de que a voz
era real, levantou-se, foi ao quarto de Narcisa e a chamou. Ambas desceram e saram da casa, seguindo na direo da voz, que parecia vir do lado do "paiol". 



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rondaram a casa e notaram que a voz vinha de trs do bambuzal. Era noite de lua. Ceclia e Narcisa rodearam o bambuzal e pararam de repente: bem diante delas, a 
uns dez
metros, um vulto todo branco - parecia uma mulher - fazendo gestos lentos e estranhos. Narcisa fz um esfro para vencer o medo e perguntou alto:

- Quem  voc?

O vulto se virou, viu Ceclia e Narcisa e disparou em direo do rio, com os cabelos esvoaando. Era uma mulher. Narcisa, depois de um momento de indeciso, correu
atrs dela, mas j era tarde: desaparecera como por encanto. Narcisa j ia voltando para junto de Ceclia quando deu de frente com Jacinto.

- Ouvi uma voz, disse ele. Vim saber o que era...

- Era uma mulher, explicou Narcisa, desconfiando de que no estava contando a Jacinto nenhuma novidade.

Quando, no dia seguinte, Ceclia afirmou que vira uma mulher vestida de branco, ningum lhe deu crdito, apesar de Narcisa tambm ter presenciado o fato. Jacinto
foi chamado e alegou que, ouvindo vozes, tinha ido ver o que era e se encontrara com Narcisa.

Provar que Hortnsia existia estava se tornando uma obsesso em Ceclia. Maciel, conhecendo a fundo sua filha, sabia quo altiva era ela: Ceclia no desistiria
to cedo de provar que Fernando ainda tinha um segredo, apesar de j ter desaparecido aquela ojeriza que ela tivera por Fernando durante tanto tempo.

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O que acontecia com Ceclia e que ela ainda no se dera conta  que j tinha por Fernando uma certa admirao e o comparava inconscientemente com Edmundo, perto
do qual Fernando aparecia como um homem mais maduro e mais equilibrado. J no mais sentia intimamente aquele inexplicvel cime que Malu fazia surgir quando lhe
falava de Edmundo, do namoro e dos seus planos de casamento, h pouco desmanchado.

Na verdade, a admirao de Ceclia por Fernando bem cedo iria se transformar em amor e Ceclia se preparava para esse amor, esforando-se por eliminar todos os obstculos,
dos quais o mais srio e ameaador era a presena de Hortnsia: havia de saber tudo, de descobrir tudo!

 medida em que Ceclia mudava sua maneira de pensar a respeito de Fernando, Maciel tambm se transformava, a ponto de surpreender Barreto.

Tudo comeara quando Maciel tivera a recada, sendo obrigado a guardar o leito por vrios dias seguidos. Sofia foi seu anjo da guarda durante todos os momentos dolorosos
da doena. Restabelecendo-se, Maciel passou a admirar nela as qualidades que at ento Sofia no tivera ocasio de mostrar. Impressionou Maciel a tal ponto que Barreto
pensou estar despertando no amigo e patro o antigo desejo de conquistas. Barreto se sentiu no dever de preveni-lo:

- Senhor Maciel, o senhor no deve ter pretenses a respeito de dona Sofia...  uma moa




sria e digna! No  como as outras que o senhor j teve...

- Ora, Barreto, respondeu Maciel, eu sei perfeitamente o que fao! Estou consciente de que dona Sofia  diferente das outras: tem um esprito nobre,  inteligente
e ativa!...  evidente que no  como as outras!

Barreto jamais ouvira Maciel mencionar uma mulher naqueles termos mas o conhecia suficientemente bem para saber que estava sendo sincero. "No ser grande novidade,
pensava ele, se tivermos outro casamento entre as famlias Maciel e Albuquerque!" E estava certo: pouco tempo depois, Maciel j fazia Corte declarada a Sofia, com
tcita aprovao de Fernando e Ceclia.

- Dona Sofia, disse um dia Maciel quando se viu a ss com Sofia, durante a minha vida sempre tive contato com os mais diversos tipos humanos - homens e mulheres
- e aprendi a descobrir as qualidades e defeitos nas pessoas. Eu a tenho observado atentamente e at hoje no consegui descobrir nem um defeito na senhora
e digo mais: jamais vi sentimentos to nobres como os de que a senhora tem revelado ser possuidora - Sofia, embora esperando que aquela declarao viesse um dia,
se ruborizava - e por isso me convenci de que seria uma honra muito grande para mim se a senhora aceitasse ser minha esposa!...

Sofia estava encabulada e no sabia o que responder. Apenas balbuciou:

- Fernando.. . Tia Vina!...

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Maciel compreendeu que a resposta era sim e que deveria falar com Fernando e Vina.

No havia objeo. Fernando aprendera a compreender Maciel e tinha a opinio de que o que mais fazia falta na vida do sogro era uma esposa. Para Vina foi uma alegria
saber que Maciel tomara a iniciativa h tanto tempo esperada de pedir a mo de Sofia. Deu seu consentimento de bom grado, mesmo porque simpatizava muito com Maciel.
Comemoraram o noivado com um jantar especial, preparado por Vina, regado a champanha.

Maciel se preocupava em como ganhar a vida.

Certamente no lhe seria difcil conseguir trabalho, devido  influncia que sempre tivera em So Paulo, mas Fernando teve uma idia que pouparia a Maciel a humilhao
de solicitar um emprego, por mais bem remunerado que fosse. Fernando pensava que, com as relaes e amizades que tinha na cidade, Maciel seria a pessoa mais indicada
para cuidar dos negcios cada vez mais volumosos da fazenda e lhe props a incumbncia. Maciel aceitou agradecido.

Na semana seguinte surgiu a primeira oportunidade para Maciel iniciar seu trabalho. Fernando pretendia vender para importadores ingleses uma partida de caf e teria
que entrar em concorrncia com vrios fazendeiros. Cabia a Maciel a tarefa de fazer o negcio para Fernando, que lhe passou todas as instrues que julgou necessrias
e lhe recomendou que transmitisse a179 

Edmundo a permisso para que ele viesse para a fazenda com Amarante e Larcio.

No dia seguinte a estrada de ferro voltaria a funcionar normalmente. Maciel deveria partir para a cidade e s voltaria uma semana mais tarde.

Fernando tinha esperana de acabar de uma vez por todas com a ameaa de outras cartas annimas, descobrindo o autor e tomando as providncias cabveis.


Ceclia continuava insistindo sempre no seu ponto de vista: Hortnsia estava viva e morava na fazenda, do outro lado do rio, por isso Fernando no permitia a ningum
ir l.

Fernando justificava sua atitude alegando que sabia que Jovino, um antigo empregado da fazenda, elemento de mau carter e bbado inveterado, andava rondando as terras
alm do rio e que j tinha ameaado se vingar por ter sido despedido, devido ao seu mau procedimento na fazenda, quando perseguia Candinha, com propsitos inconfessveis.

Mas Ceclia insistia.

Um dia Fernando tomou uma deciso. Foi ter com Ceclia no quarto.

- Ceclia, voc est criando um ambiente de mal-estar com suas suspeitas e me obriga a tomar uma deciso: voc pode ir at ao outro lado do rio quando quiser, mas
lembre-se sempre que voc me forou a isso e nunca me culpe pelo que puder acontecer.

Era tudo o que Ceclia esperava.

Procurou Narcisa e a mandou chamar Jacinto para que ele pudesse soltar uma das canoas, que costumavam ficar acorrentadas com cadeado, como medida de precauo de
Fernando.

Na verdade, Ceclia j tinha feito a travessia uma vez com Narcisa. Estavam passeando na beira do rio quando Narcisa notou que uma das canoas que eram usadas para
o transporte de ferramentas e de material para o outro lado estava solta, amarrada com uma corda, o que certamente fora uma distrao de Jacinto. As duas tiveram
a mesma idia: remaram e atingiram a outra margem. Subiram a colina que lhes ficava  frente e, quando atingiram o ponto mais alto, divisaram ao longe, l em baixo,
uma casa pequena, toda branca, cercada por um pequeno jardim. De repente, sara de dentro da casa um vulto, que parecia uma mulher como a que tinham visto  noite,
tempos atrs, pondo-se a danar e a gesticular estranhamente. Naquele dia Narcisa teve mpetos de ir at  casa, mas Ceclia julgou mais conveniente voltar, j que
a noite estava caindo. No contaram a ningum o que tinham visto porque Fernando poderia ficar muito zangado. Alm do mais no adiantaria muito dizer mais uma vez
que Hortnsia fora vista: ningum acreditaria. O que Ceclia pretendia era trazer a mulher para provar que existia e obrigar Fernando a identific-la.

Jacinto se ofereceu para remar mas Ceclia o dispensou. Entraram na canoa e pouco tempo depois estavam do outro lado. J sabiam que rumo seguir. Chegaram at  porta
da casa e ouviram novamente a mesma voz cantando. Chamaram.



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Ningum atendeu. Rodearam a casa: a voz vinha de dentro. Como a porta estivesse aberta, entraram. S havia a sala, uma cozinha e o quarto. Lentamente Narcisa abriu
a porta do quarto: numa cadeira de balano estava sentada a mesma mulher loura, vestida de branco, cantarolando uma msica lenta e sem letra, enquanto se balanava.
Nem deu sinal de perceber a presena de Ceclia e Narcisa. Era exatamente a moa que Fernando pintara e estava louca!

Ceclia nada mais tinha a fazer.

Voltaram para a fazenda e Ceclia contou tudo o que vira. Desta vez, porm, no havia possibilidade de engano, tal a certeza que Ceclia tinha do que falava, por
isso Vina aguardou a chegada de Fernando, de volta dos cafezais. Fernando chegou pouco antes do jantar.

Vina estava ansiosa para falar com ele:

- Meu filho, Ceclia viu Hortnsia hoje! Por que voc nunca me contou a respeito dela? Qualquer que tenham sido as razes que voc tinha para traz-la para c
eu teria entendido...

Barreto, que estava perto, fez meno de sair para que Fernando e Vina ficassem  vontade, mas Fernando o impediu.

- Fique, senhor Barreto, o que eu tenho a dizer no  mais segredo e o senhor tambm precisa saber.

Fernando contou como conhecera Hortnsia e como se apaixonara perdidamente por ela. Hortnsia era uma costureira de famlia de gente simples, mas tinha uma beleza
rara que atraia a ateno de quem a visse. Encontrou-se com ela a

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primeira vez numa loja de tecidos, onde fazia as compras que Vina e Sofia lhe encomendavam. O dono da loja deu as informaes que Fernando pediu sobre a moa e
pouco tempo depois ele j lhe fazia a corte e a visitava, sempre que ia  cidade, o que passou a fazer mensalmente. Hortnsia era rf de pai e me e vivia com
uma velha tia a quem sustentava com seu trabalho. Fernando julgava ter encontrado finalmente sua futura esposa. Houve uma ocasio em que o trabalho o impediu de
fazer a visita mensal e Fernando s pde ir a So Paulo no ms seguinte, hospedando-se, como sempre, no Grande Hotel. Pretendia visitar Hortnsia no outro dia, fazendo-lhe
uma surpresa, mas,  noite, ao voltar tarde para o Hotel, viu Hortnsia sair, acompanhada por Lineu Maciel e outros homens e mulheres de vida fcil, como se podia
depreender pela maneira como se portavam: riam alto, abraavam e beijavam aqueles senhores despudoradamente. O porteiro do Hotel informou Fernando que eram coristas,
quase todas. Trabalhavam numa companhia teatral que se apresentava em So Paulo, naqueles dias e que tinham vindo alegrar uma noitada de ricaos, que tinham alugado
o primeiro andar do Hotel para fazer ali um clube fechado para festas e jogo. Veio o desespero. Fernando passou muito tempo sem ver Hortnsia mas, estando em
So Paulo de outra vez, no foi capaz de voltar sem ir v-la. J estava louca. A tia contou que Lineu Maciel prometera casamento  moa e, depois de se aproveitar
dela durante muito tempo, voltara atrs e a abandonara. Hortnsia

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estava definhando e Fernando a internou numa casa de sade, at que ela recuperou o vigor fsico, sem todavia voltar  razo. A tia falecera e Hortnsia estava s
e desamparada. Fernando, compadecido da moa, decidira lev-la s escondidas para a fazenda ao mesmo tempo que, tomado de dio por Maciel, jurava para si mesmo que
se vingaria. Muito mais tarde se arrependera de tudo e, quando foi obrigado a mostrar o retrato de Hortnsia, preferiu no contar toda a verdade, que certamente
traria remorsos a Maciel. Para Sofia foi uma triste revelao a que Fernando acabava de fazer. Naquele mesmo instante decidiu romper o noivado com Maciel e comunicar-lhe
sua deciso logo que ele voltasse. "Se Maciel provocou a desgraa de Hortnsia, pensava Sofia, ele deve arcar com as conseqncias e, neste caso,  melhor deix-lo
livre para tomar a deciso que julgar mais conveniente".


Embora s estivesse sendo esperado para o dia seguinte, Maciel apareceu inesperadamente logo depois do jantar, acompanhado de Edmundo, Amarante e Larcio. Maciel
deu a boa notcia a Fernando, ao cumpriment-lo: conseguira vender o caf para a firma inglesa.

Edmundo abraou Malu, cumprimentou Ceclia, Vina e Sofia. Afastou-se com a prima e conversava com ela, sob o olhar de reprovao de Amarante. Enquanto Vina, Sofia
e Candinha preparavam o jantar e os quartos, Ceclia contava a Maciel as novidades. Maciel se abalou muito ao

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saber que Hortnsia estava viva - o primeiro pensamento que lhe ocorreu foi o que teria pensado Sofia a respeito.

Malu notava que Edmundo no tirava os olhos de Ceclia e Fernando, que conversava com Larcio e Barreto, tambm percebia a mesma coisa, surpreendendo-se com o fato
de no a ter visto corresponder aos olhares de Edmundo nem uma vez siquer: era como se nunca se tivessem conhecido.

Observando Maciel, Barreto soube que ele j estava ciente de que Hortnsia ainda vivia. Num momento em que Ceclia se ausentou por uns instantes, Barreto foi at
Maciel e lhe cochichou no ouvido:

- Julguei mais conveniente no contar ao senhor Fernando o que sabia sobre Hortnsia... no adiantaria nada!...

Maciel concordou com um aceno de cabea.

Edmundo aguardava uma ocasio para conversar com Fernando. Vinha disposto a descobrir o autor das cartas que tanta desavena j tinham causado. Edmundo pretendia
confrontar todas as cartas e fazer as investigaes que julgasse necessrias: precisava da autorizao de Fernando para agir.

- Senhor Fernando, agradeo-lhe ter permitido que eu viesse com meu pai para a sua fazenda. Sinto dar-lhe este incmodo, mas me pareceu a maneira mais prtica
de resolver o problema das cartas...

- No h o que agradecer, respondeu Fernando. Eu tambm gostaria de ver desmascarado



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 o autor dessas cartas, mas eu lhe peo que abrevie as suas buscas para que possamos esquecer este caso o mais breve possvel.

Maciel chegou perto para ouvir a conversa.

- Eu lhes prometo, disse Edmundo olhando para Fernando e Maciel, eu lhes prometo que at ao fim do ms eu terei o nome da pessoa que escreveu todas aquelas infmias!

- At ao fim do ms, repetiu Maciel, pensativo.

Fernando concordou.

- E outra coisa mais, continuou Edmundo, meu pai - procurou o pai, que observava os talheres que Sofia distribuia na mesa - meu pai est adoentado. Tentei intern-lo
numa casa de sade, mas ele fugiu. Est com os nervos abalados e obsessionado com um roubo de que diz que vai ser vtima. Talvez ele nos d trabalho e desde j
eu peo a sua compreenso.

- No se preocupe: avisarei ao pessoal da fazenda que cuide dele.

Aps o jantar, Larcio, a pedido de Malu, buscou o violo de Jacinto e cantou vrias canes. A um momento, Candinha, sob pretexto de lhe levar um copo de gua, 
pediu-lhe
baixinho para cantar a msica que Fernando compusera e que ele j cantara uma vez. Larcio achou boa idia e comeou, inesperadamente:

- "Deusa, de amor e de ternura..."

O primeiro verso fez Fernando olhar instintivamente para Ceclia: ela tambm estava olhando para ele - um olhar terno e doce.

Malu, ao lado de Edmundo, lhe cochichou:

186 - *

- Ceclia j gosta de Fernando... veja como ela olha para ele!

Desnecessria a observao de Malu: Edmundo j tinha os olhos em Ceclia.

J se fazia tarde e todos se preparavam para dormir.

Sofia chegou at Maciel e lhe disse:

- Preciso falar com o senhor ainda hoje. Esperaram que a sala esvaziasse e saram

para a varanda. Sofia entrou direto no assunto:

- J sabemos todos que Hortnsia est viva.. Acho que o fato altera a nossa situao, por isso julguei melhor livr-lo do compromisso que assumiu comigo.. . a partir
de hoje passo a considerar nosso noivado como terminado. J avisei tia Vina de minha deciso e amanh falarei com Fernando e Ceclia...

Maciel foi colhido de surpresa.. Esperava que Sofia se manifestasse, mas no daquela maneira. Ao mesmo tempo compreendeu a reao da moa: a presena na fazenda
de sua ex-amante era realmente um fato desconcertante.

- Dona Sofia, respondeu Maciel, respeito sua deciso, mas tenho razes para estar certo de que no h motivos de nenhuma ordem - moral ou legal - que possam
prejudicar o nosso noivado...

- Minha deciso, atalhou Sofia,  definitiva. Boa noite.

Sofia subiu para seu quarto, deixando Maciel amargurado. Foi comentar com Barreto.

- Se realmente o doutor Edmundo descobrir tudo, respondeu Barreto, o senhor no tem



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com que se preocupar: dona Sofia aceitar recomear o noivado...

No dia seguinte logo de manh Edmundo foi  vila: pretendia comear na agncia do Correio a sua investigao. Maciel, conforme tinha combinado na vspera com Ceclia,
saiu com a filha, Narcisa e Malu, para ver Hortnsia.

Atravessaram o rio, subiram a colina e, como da primeira vez, l estava Hortnsia danando lentamente no jardim da casa, l em baixo.

-  mesmo Hortnsia, disse Maciel, profundamente emocionado.  Hortnsia!...

Malu tentou conversar e chegou perto da moa, que parou de danar, olhando estranhamente.

- Hortnsia, disse Malu, eu sou sua amiga... meu nome  Malu. Voc est me entendendo?

Hortnsia continuava a olhar, sem reagir.

- Eu sou sua amiga... quero conversar com voc...

No adiantava: Hortnsia no respondia.

Ceclia entrou na casa: tudo estava no seu lugar - pratos e talheres limpos, a cama feita. "Algum deve vir arrumar a casa diariamente", pensou, "mas quem poderia
ser?"

Voltaram para a fazenda e encontraram Fernando preocupado.

- Senhor Maciel, peo-lhe que no mais procure Hortnsia. Quero que ela viva em paz, sem a interferncia de estranhos. Ela est feliz da maneira como tem vivido
at agora - Fernando se dirigiu a Ceclia, Malu e Barreto - e

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este meu pedido  extensivo a todas as pessoas da fazenda. Portanto, se houver necessidade de ir at  casa de Hortnsia, eu gostaria de ser consultado e ir junto
- ela confia em mim...

- Mas, ela o reconhece, senhor Fernando? perguntou Maciel.

- No, ela no sabe quem eu sou. Apenas me v como uma pessoa que lhe faz bem...  como um animal que se afeioa a ns... eu tratei dela, enquanto esteve internada
na casa de sade, levei-lhe roupas, frutas...  assim que ela me considera: uma pessoa amiga.

- E algum vai cuidar dela e da casa? quis saber Ceclia.

- Ia, respondeu Fernando, era a esposa de um colono que mora l perto... ela ia diariamente fazer comida e arrumar a casa, mas h pouco tempo atrs Hortnsia
aprendeu novamente a fazer todo o trabalho e hoje cuida de tudo sozinha. Jacinto lhe leva roupas e mantimentos e todos os dias passa por l para ver se est
bem.

"Estranho, pensava Ceclia, que uma louca cuide to bem de uma casa" - uma idia que Ceclia tivera quando soube da existncia de Hortnsia comeou a se robustecer:
que Hortnsia fosse a autora das cartas annimas. Decidiu descobrir por si mesma, antes de comentar com algum. Apesar da proibio de Fernando, Ceclia estava disposta
a ver Hortnsia novamente.

Aps o almoo, saiu de casa sem que ningum percebesse, atravessou o rio numa canoa que Barreto usava para pescar e minutos depois



estava frente a frente com Hortnsia, sentada na cadeira de balano. Examinou-a longamente e pensou ter divisado um ligeiro sorriso de escrneo nos lbios de Hortnsia.
Ps em prtica o plano que tinha traado:

- Hortnsia, disse Ceclia bem no rosto da moa, eu no acredito que voc est louca! Voc est to lcida quanto eu - o mesmo sorriso de Hortnsia - e hei de provar
isto! Voc est se vingando de Fernando ou de meu pai, Lineu Maciel. .. ainda no estou bem certa. Voc est prejudicando muitas pessoas que nunca lhe fizeram
mal! De tanto fingir voc vai acabar ficando louca mesmo! Sabe por que acho que voc no est louca? Porque uma pessoa realmente louca no cuida de uma casa como
voc faz!.. . No adianta fingir comigo - ainda vou mostrar para todos que voc est s, Hortnsia e hei de fazer voc ir embora daqui!... Eu sei que foi voc que
escreveu aquelas cartas annimas - Ceclia percebeu um ligeiro sobressalto da parte de Hortnsia - est vendo? Voc no me engana! Toquei no seu ponto fraco, no
foi? Voc escreveu aquelas cartas!... Pois fique sabendo que vou contar para todo o mundo agora mesmo... Hortnsia se endireitou, olhou com dio para Ceclia,
deu uma gargalhada histrica, levantou-se e falou, com um brilho diablico nos olhos:

- Conte, idiota e quem  que vai acreditar numa mulher ciumenta como voc? - avanou para Ceclia, fazendo-a recuar -  verdade que no estou mais louca.. . desde
o dia em que vi



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o odiento do seu pai na casa da fazenda!... Desde aquele dia eu vivo para uma coisa: mat-lo! Depois, no me importa o que acontecer: quem seria capaz de culpar
uma pobre louca? Odeio seu pai e tudo que est ligado a ele... odeio voc e vou mat-la! - pegou duma faca que estava sobre a mesa e continuou avanando lentamente
para Ceclia, que j tinha as costas coladas contra a parede, impossibilitada de fugir. Naquele momento ouviram-se passadas rpidas: algum vinha correndo. Era Maciel:
quando entrou na casa ainda pde ver a faca na mo de Hortnsia. Ceclia correu para ele e o abraou, chorando.

- Cuidado, papai, preveniu ela, Hortnsia ia me matar e quer matar o senhor tambm!..,

Hortnsia j tomara a postura costumeira: parada, olhando vagamente, inexpressivmente.

Pela maneira como Maciel a olhou, Ceclia viu que no adiantava tentar convencer o pai de que Hortnsia no estava louca.

- Voc no devia ter vindo, Ceclia, no apenas porque Fernando no quer, mas principalmente porque no se deve molestar uma pobre louca. Voc deve t-la irritado.
Como Fernando disse, ela  como um animal: defende-se quando  provocada.

Narcisa percebera a ausncia de Ceclia e avisara Maciel. Ningum mais ficara sabendo que Ceclia tinha ido procurar Hortnsia. Ceclia no comentou com ningum,
a no ser com Narcisa.

- Ela  to lcida quanto ns, Narcisa.  

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Hortnsia tentou me matar e diz que vai matar papai!

Narcisa era uma aliada certa de Ceclia para todas as horas.

 

Estava para tocar o sino chamando para e jantar.

Ceclia descera do quarto e passeava pelo jardim. Edmundo a viu e foi falar com ela. j estava escurecendo.

- Foi proveitosa sua ida  vila? perguntou Ceclia quando o viu aproximar-se.

- Quase intil, respondeu Edmundo. Apenas pude verificar que a minha carta foi expedida daqui. Tenho certeza que est entre ns a pessoa que escreveu todas as cartas.

Larcio j contara a Edmundo a respeito de Hortnsia. Ceclia achou que podia confiar em Edmundo.

- Apesar de Fernando proibir, hoje eu fui ter com Hortnsia, Edmundo. Ela no est louca. Tenho certeza de que foi ela quem escreveu as cartas!

Edmundo fez com que Ceclia falasse o mximo a respeito de Hortnsia, Maciel, Fernando. Ao final da conversa, estava convencido de que Ceclia estava loucamente
apaixonada por Fernando e que ela via na presena de Hortnsia um obstculo que se interpunha entre ela e o amor do marido.

Edmundo decidiu de si para si que valia a pena ir ver Hortnsia e investigar a teoria de 

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Ceclia: se a moa realmente estava lcida, ento seria muito provvel que fosse ela a autora das cartas.

Soou o sino. Edmundo e Ceclia se reuniram aos outros, na sala-de-jantar. Jacinto, cercado por Tico e Zuza, dedilhava o violo na varanda, cantando modinhas que
as crianas gostavam.

Terminado o jantar, Jacinto passou o violo a Larcio e se ps a conversar com Maciel e Fernando sobre os cafezais. Maciel estava entusiasmado com o trabalho que
Fernando lhe reservara, tanto que trouxera da cidade algumas publicaes oficiais sobre plantio do caf, que desejava mostrar a Edmundo e Jacinto, a quem pediu que
fosse ao seu quarto apanh-las, em cima da escrivaninha. Jacinto pegou um dos lampies da varanda e subiu ao quarto de Maciel.

De repente ouviu-se um grito de pavor - descontrolado, quase animalesco! Fernando correu para cima: Jacinto gritava desesperadamente e se debatia como um louco:
uma cascavel serpeava pelo assoalho, chocalhando ameaadamente. Jacinto apertava a nuca com as mos, gritando e gemendo.

- Ela me picou, "seu" Fernando! Me picou na nuca! Eu estava de costas e ela caiu em cima de mim!...

Fernando abriu um cobertor, atirou-o em cima da cascavel e a pisoteou at estar certo de que morrera. S ento acudiu Jacinto. Limpou-lhe a nuca, colou os lbios
sobre as picadas e sugou o sangue, at se cansar. Jacinto estava suando abundantemente. Fernando o deitou na



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prpria cama de Maciel. O acontecimento traumatizara a casa toda. Zuza chorava desesperadamente, junto do pai.

- No  preciso chorar, meu filho, lhe dizia Jacinto. Seu pai vai ficar bom.. . no vai ser nada.

Malu tirou Zuza do quarto. Vina fazia um emplastro. Sofia enxugava o suor do rosto de Jacinto.

Ceclia cruzou com Edmundo na escada e lhe repetiu:

- Hortnsia!... Hortnsia atirou a serpente pela janela: ela prometeu matar papai e o confundiu com Jacinto!

Edmundo nada respondeu mas reconheceu Intimamente que a hiptese era vivel. Pouco tempo depois Jacinto ardia em febre e algumas horas mais tarde perdeu os sentidos.
Edmundo nada podia fazer. Fernando j tinha tomado as providncias cabveis: espremer o local da picada e sugar o sangue.

Ningum dormiu.

Era alta madrugada quando Fernando desceu at  sala. Parou nos ltimos degraus, abatido e triste e disse apenas uma palavra:

- Acabou!...

Com a mo na testa, escondendo os olhos, saiu para fora e se perdeu na noite. Vina chorava baixinho, amparada por Ceclia. Malu se agarrou a Zuza, que gritava forte,
chamando pelo pai.

Amanhecia quando Fernando reapareceu. Atrelou os cavalos  carruagem e partiu para a vila, para cuidar do enterro.

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 tarde chegou o carro funerrio com o caixo.

As mulheres e crianas se acomodaram na carruagem. Fernando preparou a charrete para Maciel, Edmundo, Barreto e Amarante. Larcio montou um dos cavalos da fazenda
e acompanhou tambm o enterro. Quando regressaram da vila j era noite.

No dia seguinte, Edmundo pediu a Fernando permisso para ir ver Hortnsia. Julgava ele que se ela pretendesse realmente matar Maciel, certamente cairia na armadilha
que Edmundo lhe prepararia. Foi s. Instrudo por Ceclia, achou a casa facilmente. Tentou conversar com Hortnsia, mas ela sempre reagia como louca: no lhe respondia
e ignorava a presena de Edmundo.

- Fernando vai levar voc daqui, lhe dizia Edmundo. Amanh cedo ele vem buscar voc e vai intern-la numa casa de sade: vai ser muito bom! Vo cuidar muito bem
de voc] Hoje  seu ltimo dia aqui.. . dona Ceclia acha que foi voc que atirou a cascavel em Jacinto, pensando tratar-se de Maciel e que voc impede que Fernando
goste dela, por isso vai mandar retirar tambm o seu retrato do "paiol".. .

Edmundo falava pausadamente, como se fala a uma criana - "se ela for louca, talvez entenda alguma coisa e, se no for,  bom que ela pense que eu a julgo demente",
pensava Edmundo. Despediu-se dela repetindo mais uma vez:

- Fique tranqila: amanh voc vai para um lugar muito mais bonito do que este...



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Fernando no concordava com Edmundo, mas prometeu colaborar: se Hortnsia desejava mesmo matar Maciel, ento aquela noite era a ltima oportunidade de que ela dispunha.
Fernando, Edmundo e o prprio Maciel vigiaram a casa  noite,  espera de que Hortnsia viesse executar seu intento.

Pouco antes do almoo Edmundo estava sentado na varanda, quando viu seu pai entrar esbaforido, com alguma coisa volumosa dentro do palet: subiu as escadas e se
dirigiu para seu quarto. Estranhando a atitude do pai, Edmundo o seguiu.

A extrema avareza de Amarante o fazia chegar a extremos de infantilidade. Encontrara perto da casa um pedao de papel, j amarelado, dobrado. Ao abri-lo, verificou
que era um mapa, situando a casa da fazenda, o "paiol", algumas rvores, o rio e um lugar marcado com uma cruz, onde se lia "tesouro". Era nada mais, nada menos
que uma das muitas brincadeiras que Malu ensinara s crianas da primeira vez que estivera na fazenda - a "caa ao tesouro". Amarante levou a srio o mapa e tinha
sado  procura do "tesouro". O mapa era impreciso e Amarante tinha ido dar no pomar, onde viu um lugar com terra revolvida. Cavou o local com as mos e encontrou
uma caixinha de madeira, que julgou fosse o "tesouro". Apressou-se em se recolher ao seu quarto, mas, ao abrir a caixa, teve o desapontamento de encontrar apenas
pedaos de papel. Foi quando Edmundo bateu  porta. Amarante escondeu sob o colcho o seu achado e abriu a porta.

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- O que  que voc quer? perguntou. Edmundo entrou, contra a vontade do pai.

- Quero ver o que o senhor achou, respondeu. Onde est?

Amarante tentou negar mas Edmundo atalhou:

- Se o senhor no me mostrar vou revistar todo o quarto e acharei por mim mesmo.

Amarante no podia permitir que Edmundo revistasse o quarto, pois todo o seu dinheiro estava escondido no colcho: Edmundo o encontraria certamente.

- Est bem, concordou, eu mostro. . . mas  minha, fui eu que achei!

Mostrou a caixa. Edmundo a abriu e viu os papis: idnticos aos usados nas cartas annimas.

- Vou lev-la comigo, disse para o pai, depois eu a devolvo.

Saiu com a caixa e a levou para seu quarto, trancando-a na escrivaninha.

Sofia tocava o sino para o almoo quando Candinha chegou chorando: Jovino a importunara mais uma vez e a perseguira, enquanto ela colhia umas frutas, no fundo do
pomar. Ao saber do que se passava, Fernando saiu correndo, sem ouvir Candinha que gritava:

- Cuidado, "seu" Fernando, que ele est armado!

Vina trouxe um copo de gua e Sofia foi pedir ajuda a Edmundo.

Ao se inteirar do que acontecia, Ceclia correu atrs de Fernando, que j desaparecera por entre as rvores.

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Jovino tentava fugir, mas Fernando o alcanou.

Lutavam corpo a corpo, no meio do capinzal. Trocavam golpes e a um dado momento caram os dois, cada um para um lado. Fernando ficou atolado na lama, sem poder se
levantar. Jovino se ps de p, tirou a garrucha, fez pontaria sobre Fernando. Ceclia via o que se passava e corria, gritando:

- Fernando!... Cuidado!... No!...

Atirou-se sobre o corpo de Fernando no momento em que Jovino dava no gatilho. A bala atingiu-lhe o ombro, fazendo-a perder os sentidos. A custo Fernando se levantou.
Ceclia sangrava. Tomou-a nos braos. Sofia chegava com Edmundo. Jovino fugia, em carreira desabalada.

Edmundo extraiu a bala e fez um curativo no ombro de Ceclia. Fernando no deixava a cabeceira da esposa: molhava-lhe os lbios com um algodo embebido na gua,
acariciava-lhe os cabelos e lhe segurava as mos.

Anoitecendo, Fernando tinha que se juntar a Edmundo e Maciel, para esperarem Hortnsia. Sofia lhe tomou o lugar junto da cabeceira de Ceclia, ainda inconsciente.
Barreto e Larcio se ofereceram para ajudar.

Se Hortnsia viesse  casa, teria forosamente que passar perto do "paiol". Os cinco homens se esconderam a pequena distncia de cada um e aguardaram. Tocou o sino
para o jantar, passou-se uma hora e nada acontecia. De repente, ouviu-se um rudo: eram passos de algum. Surgiu um vulto a menos de cem metros. No havia

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dvida: era Hortnsia! Conforme o plano de Edmundo, Maciel saiu do seu esconderijo lentamente, riscou um fsforo, acendeu um charuto e cantarolava uma msica que
Hortnsia devia conhecer. Ela parou, abaixou-se e esperou por uns instantes. Em seguida, se aproximou silenciosamente de Maciel. A pouca distncia, se fez sentir.
Maciel se voltou:

- Hortnsia!... disse ele. O que voc faz aqui?

- Vim mat-lo, canalha! foi a resposta.

 luz do luar, Hortnsia era uma figura estranha! Os cabelos louros e longos esvoaando ao vento, o comprido vestido branco!... Hortnsia mostrou a faca que tinha
na mo. Maciel se afastava  medida em que Hortnsia se aproximava, fazendo-a chegar perto do ponto em que Fernando estava escondido.

- Mas, ento voc no est louca?

- Claro que no! Eu fui louca! Agora j estou s! A cascavel que atirei para dentro do seu quarto era para voc! S vivo para me vingar de voc!...

,- Mas, por que voc me odeia? Voc sabe que eu no fui o nico homem na sua vida... - Maciel se aproveitava da ocasio para revelar a verdade a Fernando.

- No foi o nico, nem o primeiro, nem o ltimo!. .. Mas, foi porque eu estava com voc que perdi um bom casamento! E depois voc me abandonou!. .. Por isso eu o
odeio e vou mat-lo!...

Armou o brao para dar o golpe de faca em Maciel. Fernando pulou sobre ela e a faca caiu



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no cho. Como uma gata selvagem, Hortnsia se desvencilhou aos berros e saiu em disparada, na direo do rio.

Os homens a perseguiram, mas no chegaram a tempo de det-la. Hortnsia pulou dentro da canoa e remava desesperadamente, mantendo-se de p. Quando estava no meio
do rio, desequilibrou-se, soltou um grito de desespero e mergulhou na gua. Instantes aps, no se ouvia nada mais.

Passaram o resto da noite fazendo busca nas duas margens, rio abaixo. Fernando e Larcio, na mesma canoa, resolveram descer o rio at a vila. O sol j estava alt.o
Quando Fernando chegou  Delegacia para notificar as autoridades do acontecido. Formou-se um grupo de voluntrios para as buscas, que resultaram infrutferas: o
corpo de Hortnsia tinha sido tragado pelas guas.

Ao voltar para a fazenda, pouco depois do almoo, Fernando deparou com as malas de Ceclia empilhadas na varanda. Narcisa explicou:

- Sinhzinha vai embora.. . desistiu de mec... j sabe que mec no gosta mesmo dela... foi dar um ltimo passeio pr se despedir da fazenda!. .. D at d ver
a coitadinha: est que no pode nem se mexer e insistiu em dar o ltimo passeio pr ver a fazenda pela ltima vez Diz que nunca mais volta aqui!.. . Defendeu
mec com a vida e mec nem ligou!.. .

- E para que lado ela foi, Narcisa? quis saber Fernando.

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Narcisa indicou a direo com um gesto. Fernando saiu correndo e viu Ceclia no alto do pomar, de onde se avistava a casa, os cafezais e o rio.

- Ceclia!... Ceclia!... gritava Fernando. Eu amo voc! S voc! Como nunca amei ningum na vida!...

Ceclia estava plida e apoiava uma mo no ombro ferido.

Fernando a pegou com carinho, carregou-a nos braos, aproximou o rosto dela do seu e a beijou apaixonadamente, longamente...

- Nunca mais pense em me deixar, sussurrou Fernando no ouvido da esposa, nunca mais!... Eu no serei capaz de viver sem voc... minha deusa!. . .

Ceclia chorava baixinho.

Fernando a levou de volta para a casa. No foi preciso dizer nada: a cena falava por si.

Deitou Ceclia mansamente na cama, sentou-se ao lado. Os dois se olhavam em silncio.

Horas depois Narcisa bateu na porta do quarto, pedindo permisso para entrar com as malas. Empilhou-as junto do armrio. Fernando a estava ajudando, quando viu o
envelope sobre a mesa. Abriu-o. Dentro, outra carta annima, desta vez dirigida a ele - "O que Ceclia deseja  ver voc rastejar diante dela. Depois ela o abandonar",
dizia a carta.

-  demais! exclamou Fernando, mostrando a carta a Ceclia.  preciso acabar com isso j!... E eu que pensei que fosse Hortnsia a autora das cartas!...



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Foi ter com Edmundo e Maciel e lhes mostrou a carta.

- No me surpreendo, senhor Fernando, disse Edmundo. Eu esperava mais cartas...

- Ento o senhor deve saber quem as escreve, concluiu Maciel.

- Sim, sei, respondeu Edmundo calmamente.

Todo o mundo estava se reunindo na sala, at Ceclia, que descia lentamente a escada.

- Pois o senhor tem a obrigao de revelar o nome, insistiu Maciel.

- Foi ele mesmo, foi ele mesmo!, grunhiu Amarante, a um canto. Eu j disse que foi Edmundo! .

Edmundo no ligou.

- Eu tenho motivos para no o fazer, respondeu.

- O senhor no tem o direito de recusar! Seria uma irresponsabilidade sua - Maciel se alterava visivelmente.

- Mas eu lhe garanto que tenho razes...

- Diante de tanta infmia, no h razo que justifique o seu silncio! O senhor ser um canalha ...

Ouviu-se um grito a um canto da sala:

- Fui eu!... - Malu chorava e gritava ao mesmo tempo, batendo com os punhos na mesa -... fui eu! Eu escrevi todas as cartas! Todos estavam contra mim!... Todos sabiam
que eu ia morrer e zombavam de mim!... Eu vou morrer!... Detesto! Odeio vocs!... Vocs todos!...

- 

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Edmundo abraou a prima e a levou para o quarto. Levou muito tempo at que Malu se acalmasse. No deixou que ela sasse do quarto: preparou as malas a avisou Fernando
que partiria naquela tarde mesmo. Explicou que Malu soubera do seu verdadeiro estado de sade ao escutar uma conversa sua com Amarante e o desespero a tornara neurtica,
fazendo-a atribuir a todas as pessoas que lhe estavam prximas a causa de sua desgraa e se vingava atravs das cartas - sua mente distorcida a levava a deturpar
os fatos.

Fernando preparou a carruagem para lev-los at  vila.

Ningum apareceu para se despedir de Malu: seria uma humilhao para ela - desceu, tomou a carruagem e fechou as cortinas, para no ser vista. Por detrs da vidraa
do seu quarto Vina a observava e tinha o rosto coberto de lgrimas.



Havia muito tempo que a rua Rio Branco no conhecia aquele movimento de carruagens.

- Hoje h festa na casa de Lineu Maciel!

- , Maciel fica noivo hoje! Homem sacudido, aquele!. . .

A festa era a mais brilhante jamais realizada na casa de Maciel.

A fina sociedade voltava a se reunir numa das mais tradicionais manses da capital. O prximo casamento de Maciel era o assunto do momento nas altas rodas e na imprensa.



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Recomear o noivado com Maciel era a coisa mais lgica que Sofia tinha a fazer depois de ficar sabendo que a desgraa de Hortnsia no tinha sido causada por Maciel.
Por sugesto de Fernando, o noivado seria anunciado durante uma festa que seria realizada em So Paulo - "uma festa de arromba", dizia Fernando, planejando a recepo.

E l estava a "festa de arromba"!

Todo o pessoal da fazenda se sentia mais do que  vontade, s que desta vez Tico e Zuza no tinham a companhia de Candinha, para espiar do lado de fora os tipos
gozados que compareciam  festa: Candinha tambm estava l dentro, conversando e danando animadamente com Larcio, futuro bacharel de Direito.

Sofia e Ceclia recebiam os cumprimentos dos convidados e Vina ensinava  esposa do Governador como se fazia aquele doce que ela provara e de que gostara tanto...

Uma senhora veio saber de Ceclia por que ela no danava com Fernando.

- No consigo, respondeu Ceclia, fico tonta e me vm nuseas - e piscou maliciosamente para Fernando.

A mulher compreendeu.

- Oh!  verdade? perguntou. E para quando ?

- Se a safra for normal, brincou Fernando, a entrega ser efetuada dentro de oito meses!

Pouco depois a notcia j corria de boca em boca e Ceclia e Fernando passaram a ser mais cumprimentados do que o casal de noivos.

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- Ora, vejam, comentou Maciel, ainda nem sequer nasceu e j nos rouba os cumprimentos!

Sofia ria da observao de Maciel.

A orquestra atacou uma valsa e o casal se perdeu no meio dos demais pares que giravam pelo salo. Satisfeito, Barreto os observava, dizendo para si que a tempestade
passara e que agora vinha a bonana...

L fora, na rua, em frente  casa toda iluminada, havia uma carruagem cujos ocupantes no tinham descido. Edmundo tinha trazido Malu, que mostrara desejo de ver
a festa: na semana seguinte partiriam para a Europa - Edmundo iria lecionar em Paris. Decidira levar Malu e cuidar dela como uma irm. Amarante, cada vez mais avarento,
tinha sido internado na Casa de Sade Santa Anastcia.

Quando a prima se deu por satisfeita, Edmundo mandou o cocheiro voltar.

A carruagem fez meia volta e desapareceu no fim da rua Rio Branco.

FIM



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